Daniele Mereb

Os Estados Unidos já agiam silenciosamente pelas plataformas dominantes, restringindo pontualmente a circulação de informações que contrapõem o interesse deles e têm avançado cada vez mais nisso com o fim de controlar ainda mais o debate e ganhar a vigente disputa de narrativa. Antes de elaborar mais, relembrarei alguns atos feitos pelo Twitter por ser a rede mais pontual em impacto e debate político:

  • Quando Cuba estava por debater abertamente sua situação, em 12 de setembro de 2019, o Twitter fez questão de suspender todas as contas do governo cubano e dos jornalistas do Cuba Debate. [1]

  • Já em 12 de junho de 2020, o Twitter baniu mais de 170 mil perfis de chineses que entraram na rede com o objetivo de se manifestar publicamente contra as intervenções estadunidenses em Hong Kong. Não eram robôs, os perfis publicavam apenas em mandarim, eu seguia alguns e infelizmente perdi o contato com eles. [2]

  • Atualmente, o Twitter está ativamente retendo perfis relacionados ao Telesur e prejudicando sua atuação, um exemplo disso foi em 11 de agosto de 2020, o perfil original do programa de análise política do Telesur (criado em 2016 e com 9 mil seguidores) foi retido, fazendo com que a equipe reutilizasse um outro perfil (criado em 2018 e com apenas mil seguidores) provisoriamente. [3]

Dado esses detalhes, pontuo também que recentemente o Twitter implementou um sinalizador exclusivo que age também como um filtro geral [4], ele deve ser levado em consideração como um ato explícito do governo estadunidense estabelecendo um maior controle da narrativa dentro do ambiente virtual através do serviço: A etiqueta denuncia perfil “filiado a determinado governo”, principalmente de mídias e como consequência o serviço não recomendará, nem amplificará e além disso, impedirá publicidade dessas contas ou seus tweets.

O Twitter afirmou que as etiquetas atualmente abrangem as contas relacionadas aos 5 países do Conselho de Segurança da ONU e declara que o “meio de comunicação estatal é aquele que utilizar seu alcance como meio de promover uma agenda política”, no entanto, apenas 2 países deste Conselho foram etiquetados, China e Rússia. E, ainda acrescento, a etiqueta da China inclui um parágrafo especial afirmando que “China bloqueia o acesso ao Twitter a usuários comuns”, como se o próprio Twitter não tivesse banido os mais de 170 mil usuários chineses dois meses atrás.

Não são atos exclusivos do Twitter, as retaliações digitais são uma tendência global que demanda atenção dentro do ambiente virtual em geral (isso vai desde o serviço de e-mail até o sistema operacional de celular ou computador pessoal). Diferentes serviços, plataformas e ferramentas estão apresentando as mesmas atitudes repressivas ou sancionadoras em prol do capitalismo / imperialismo, por exemplo: Adobe banindo venezuelanos e retirando o acesso às ferramentas dominantes de produção digital em 7 de outubro de 2019 [5]; Sanções globais à Huawei (empresa responsável pela maior produção e circulação de tecnologias e bens eletrônicos básicos do povo chinês) que se estendem até então [6]; Derrubada de mais de 2 mil contas chinesas na plataforma Google para combater “operações de influência coordenada em questões políticas” entre abril e junho de 2020, o que retirou do ar seus canais no YouTube [7]; Derrubada das três contas oficiais da Venezolana de Televisión (VTV) e da conta oficial da Cubavisión Internacional na plataforma Google no dia 20 de agosto de 2020, o que retirou do ar seus canais no Youtube além de seus e-mails Gmail [8][9]; Entre tantas outras ações similares nas plataformas dominantes que conhecemos, saliento que não são “decisões arbitrárias”, são decisões propositais pois são embargos possíveis através da estrutura do ambiente virtual construído sobre nós que não está sob o nosso controle.

Um povo soberano tem: a própria rede de internet onde seus cabos é que derrubam as fronteiras que separam seu povo; os próprios servidores armazenando seus serviços, seus trabalhos, seus dados, suas vidas inteiras descritas em diferentes formatos; o próprio sistema de posicionamento; eletrônicos no mínimo operando um sistema operacional adaptado e moldado pelos próprios interesses e assim por diante. Não o somos ainda, infelizmente, não temos o controle nem da nossa própria terra e temos menos ainda uma estrutura capaz de proteger e garantir as terras que tentamos e tentaremos retomar.

Sendo assim, não controlamos a plataforma virtual adotada que desmobiliza, confunde, pauta e impõe a narrativa burguesa usando todo recurso, estratégia ou estética conveniente enquanto está fantasiada de rede social, e nem possuímos nossos próprios dados que são capturados, centralizados fora do nosso alcance e usados pelo governo estadunidense e pelos proprietários desses diferentes serviços, com o objetivo de minerá-los, vendê-los, enfim, explorá-los de diversas maneiras já modernizadas e adaptadas à realidade do Terceiro Mundo (vide Escândalo de dados do Facebook – Cambridge Analytica).

Somos de um país que não tem poder algum sobre o ambiente virtual que frequenta, onde 70% de seu povo já tem acesso à internet e a grande maioria acessa ela exclusivamente pelo celular [10], é um quadro que se apresenta de forma parecida em toda América Latina, por isso mas não só, insisto que é imprescindível para o movimento revolucionário brasileiro refletir e amadurecer o debate sobre a materialidade e as questões de soberania envolvidas no uso das diferentes redes, serviços, plataformas e ferramentas virtuais para fins de comunicação ou produção, e isso deve se refletir no trabalho de base, até porque não há qualquer meio do processo revolucionário ser bem-sucedido se essas questões seguirem sendo negligenciadas.

Cuba já está há um bom tempo nessa situação e Venezuela acabou de percebê-la. [11] Ambos os países foram expulsos do ambiente virtual que comumente frequentamos, o que restará a nós do Brasil? Em algum momento do nosso processo revolucionário, que há de ocorrer mais cedo ou mais tarde, seremos o próximo alvo do imperialismo em sua forma mais violenta em todo ambiente real (virtual e físico) e precisamos estar preparados para isso.

Referências: [1] http://www.cubadebate.cu/noticias/2019/09/11/bloquea-twitter-las-cuentas-de-cubadebate-la-mesa-redonda-y-de-sus-directivos-y-periodistas [2] https://www.dw.com/pt-br/twitter-bane-mais-de-170-mil-perfis-ligados-ao-governo-da-china/a-53787774 [3] https://twitter.com/EnMediatica/status/1293307123087155202 [4] https://actualidad.rt.com/actualidad/363704-twitter-mostrar-cuentas-rt-busqueda [5] https://www.theverge.com/2019/10/7/20904030/adobe-venezuela-photoshop-behance-us-sanctions [6] https://www.gizmochina.com/2020/08/18/huawei-sanctions-usa-affects-asian-companies [7] https://techcrunch.com/2020/08/05/youtube-bans-thousands-of-chinese-accounts-to-combat-coordinated-influence-operations [8] https://www.vtv.gob.ve/vtv-denuncia-cancelacion-cuentas-youtube [9] http://www.tvcubana.icrt.cu/destacados/5232-cierran-arbitrariamente-canal-oficial-de-cubavision-internacional-en-you-tube [10] https://tecnoblog.net/304701/brasil-126-milhoes-pessoas-conectadas-tic-domicilios [11] https://mastodon.social/@aaguillon/103946642151476388