Late night notes

Late night é o momento do silêncio, do chill out, da indulgência do gosto, da laid-back remembrance, do ainda-não-amanhã. [CC BY-NC-SA 4.0]

Estou perdido, sou um fantasma Privado de minhas posses, hospedeiro Minha fome queima um buraco de bala Um espectro de minha alma mortal

Estes rumores e suspeitas A raiva é um veneno A única verdade que eu poderia ver É quando você coloca seus lábios em mim Futuros enganados pelo passado Espectro, como ele ri

O medo nos enfeitiça Sempre questionando o amor Minha fome queima um buraco de bala Um espectro de minha alma mortal A única verdade que eu posso ver Espectro veio atrás de mim

Spectre, de Radiohead (Spotify / YouTube).

A canção inicia bastante solene, com a repetição de acordes de piano e arranjo de cordas. Até que a voz de Thom Yorke irrompe, como se viesse... de outro mundo; trazendo, exatamente, a presença do espectro.

Após o segundo verso, a entrada da bateria é delicada – e assim ela se mantém em toda a canção, fazendo pontuações discretas na densa paisagem dominada pelas cordas e pela voz, que constroem uma atmosfera de drama, incerteza e desesperança, reforçada pelas imagens da letra e pela performance vocal.

Há uma garota que está presa dentro de um porta-retrato Ela viu o seu rosto, sua mãe mencionou certa vez o seu nome Ela senta e sonha os seus sonhos de quinze anos, do que fazer Ela ouviu você cantar e que os seus olhos são muito muito muito azuis

Por que você corre? Por que você se esconde De tudo que você é? Você é só um homem Mas ela poderia te rasgar por dentro Te rasgar por dentro Ela poderia te rasgar por dentro Te rasgar por dentro

Ela tem um lar fora deste pequeno porta-retrato Você não está nele e ela quer alguém para culpar Você lembra como é ser jovem desse jeito? Todas as páginas que estão em branco e todas as canções ainda a serem cantadas

Por que você corre? Por que você se esconde De tudo que ela é? Ela é só uma garota Garotas podem te rasgar por dentro Te rasgar por dentro

Elas poderiam te rasgar por dentro Te rasgar por dentro

Se há palavras que você quer dizer Ela está esperando por aquele chuvoso, aquele chuvoso dia

Por que você corre? Por que você se esconde De tudo que ela é? Ela é só uma garota Te rasgar por dentro Você é só um garoto Te rasgar por dentro Elas podem te rasgar por dentro Amanhã vai chegar logo de qualquer jeito E você pode vê-lo, dentro

Elas podem te rasgar por dentro Te rasgar por dentro Te rasgar por dentro Elas podem te rasgar por dentro

Girls Can Really Tear You Up Inside, de A Girl Called Eddy (Spotify / YouTube).

Na abertura da canção, apenas a voz – e algumas notas do violão – em toda a primeira estrofe. Faz sentido. Esta voz pode carregar sozinha muita coisa.

Em seguida, entram bateria, baixo, guitarra e cordas (e o som de uma agulha viajando sobre a superfície de um LP...); todos discretos, funcionando como uma moldura delicada para a voz, que impressiona pelo rico espectro emocional que entrega (melancolia, receio, vulnerabilidade) no relato deste conto de amor perdido.

Olhar para trás, rever movimentos do passado, pensar sobre as hesitações, as possibilidades de ontem, de hoje, outra vida...

Esta execução da canção, na KEXP, segue bem de perto o arranjo do álbum. Julia, muito séria, de óculos, entrega tudo no falsetto. O violinista manda ver no pizzicato, o baterista colabora no backing vocal e o saxofonista entrega, aveludada, aquela bela frase melódica. Super cool.

Simplesmente não há espaço para todos os nossos pensamentos Venha, vamos caminhar uma outra caminhada Você já viu um homem de negócios cantar uma conversa alegre num terno feito de canção?

Vamos lá, não vamos insistir no amor Estamos apenas vivos Vamos conversar sério sobre isso e atravessar o boulevard

Este é um coração verdadeiro Escute com atenção Estas são palavras verdadeiras Fale sério

Veja os jovens Tão velhos tão rápido Eu não entendo Folhas que caem Uma árvore é uma árvore

Veja os jovens Tão velhos tão rápido Eu não entendo Folhas que caem (Eu não entendo)

No início, as notas do trombone (fagote?) e os sons de risos dão um tom jocoso e leve à atmosfera da canção (que trata de uma experiência que não costuma ser vivida com leveza por todos os envolvidos...) – isto é confirmado pelo falsetto que Julia Holter emprega (especialmente) no primeiro verso, mas também em boa parte da canção.

Este primeiro verso (Simplesmente não há espaço para todos os nossos pensamentos) já diz tudo – ou, diz o suficiente. Depois disso, a canção This is a True Heart (Spotify / YouTube) segue graciosa, poética, ao pulso do violino em pizzicato e da bateria discreta, enquanto testemunhamos um papo sério e uma relação que se desfaz durante uma caminhada no boulevard. Ainda é cedo, provavelmente, para compromissos. Estranha-se como, para os outros, o tempo passa...

Gillian Welch e David Rawlings performam Everything is free.

Tudo é de graça agora É o que eles dizem Tudo que eu já fiz Vou doar Alguém teve a grande sacada Eles descobriram Que vamos fazer de qualquer jeito Mesmo que não pague

Eu posso pegar um pote de gorjeta Colocar gasolina no carro E tentar fazer uns trocados Lá no bar Ou eu posso conseguir um emprego normal Eu fiz isso antes Nunca me importei em trabalhar duro A questão é para quem estou trabalhando

E tudo é de graça agora É o que eles dizem Tudo que eu já fiz Tenho que doar Alguém teve a grande sacada Eles descobriram Que vamos fazer de qualquer jeito Mesmo que não pague

Todo dia eu acordo Murmurando uma canção Mas eu não preciso correr por aí Eu simplesmente ficarei em casa E cantarei uma pequena canção de amor Meu amor e eu mesma Se há algo que você quer ouvir Você pode cantar você mesmo

Porque tudo é de graça agora Foi o que eu disse Ninguém precisa ouvir As palavras em minha cabeça Alguém teve a grande sacada E eu descobri E eu vou fazer de qualquer jeito Mesmo que não pague

A voz de Gillian Welch, o arranjo de violões acústicos de Welch e David Rawlings, o tom melancólico de Everything Is Free (Spotify / YouTube) – cuja letra reflete a ameaça, percebida à época (2001), do livre compartilhamento de arquivos de música na Internet – e, a afirmação, incondicional, do estilo de vida do artista independente.

E aqui, uma linda performance de Old Friends 4 Sale (no trecho 18:45 à 21:45 min do vídeo). Versão um minuto mais curta que a original, com omissões e alterações na letra... Prince com cabelo black power e sóbrio terno preto... a baterista marcando o tempo balada e mandando ver... a seção dos metais construindo a cama para... a brilhante performance vocal.

No início, um breve rufar da bateria introduz certa solenidade, captura nossa atenção e nos coloca na expectativa sobre o que se seguirá: cordas e metais então colocam a base para uma baladona... linda e... amarga.

O sol se pôs no meu coração esta noite Porque uma velha amiga minha se perdeu na dança Mal sabia ela, que quando você está preso na neve Ninguém sai vivo

Lágrimas caem suavemente no meu jardim Enquanto espero em vão minha querida ligar Eu acho que o que meu próprio irmão me disse era verdade Ele esteve com a minha querida e ela realmente nunca me amou

A noite caiu tão escura esta tarde A lua não estava brilhando em lugar nenhum Às vezes, aquela velha luz no beco iluminava este meu velho coração Mas agora estou me perguntando se há alguém lá em cima que realmente se importa

A noite caiu mais escura na Pérsia O que costumava fluir azul agora flui preto Muitos médicos podem tentar, mas só os céus sabem porque Quando se trata de amor Por que alguns homens, por que alguns homens viram as costas?

Ninguém pode me dizer?

Talvez o ar da manhã me faça me sentir melhor Oh, espero que melhor do que me sinto agora Ontem à noite um estranho tirou uma foto minha e então ele, Ele perguntou se eu a compraria, Eu disse que, acho que, não sei como

Velhos, velhos amigos à venda Pegue enquanto está quente Mas é melhor você tomar cuidado, eles vão te beijar Até que eles consigam o que você tem E eles vão mostrar a você os amigos que eles não são Velhos amigos à venda

Ao longo de Old Friends 4 Sale (Spotify / YouTube), a voz de Prince passeia pelos registros da tristeza, desesperança, incompreensão, decepção, ironia... E, na estrofe final, em múltiplas camadas, entrega em falsetto... “they'll kiss you”... finalizando esta leitura da difícil experiência da decepção com os amigos.

E, há o videoclipe de Retrograde.

Nele, o campo diegético da letra é expandido para uma metafórica atmosfera sci-fi que nos oferta lugares, as personagens, mas, sobretudo, a situação mencionada, solicitada na letra, de um certo retorno ao passado, para uma importante reconexão (”seja a garota que você amou”).

Blake aparece discretamente na encenação, deadpan style, como um narrador-observador distante.

O videoclipe é dirigido por Martin de Thurah.

Ver James Blake executar suas canções é maravilhoso. A concentração, a intensidade emocional, a atenção ao detalhe, o perfeccionismo, a economia de meios... com resultados superlativos.

Aqui estão duas sessões de Retrograde.

A primeira, no programa de David Letterman; em estúdio de TV, com plateia, Letterman fazendo brincadeiras com os músicos no início e no final. Linda execução.

A segunda, na KEXP. Aqui o negócio é mais “sério”. O silêncio do estúdio da rádio; o espaço menor e com decoração cool; a câmera mais próxima de Blake; a qualidade do áudio... Impressionante.