Esta data relembra, cada vez mais, que a liberdade é palavra feia para alguns. Que há ainda, neste século, neste ano, quem defenda que os seres humanos não têm todos a mesma dignidade nem os mesmos direitos, quem defenda uma situação em que os trabalhadores estão sempre sob ameaça de não ter onde viver ou como alimentar a família. Defendemos a liberdade porque está sob ameaça. Abril é a lembrança de que as ditaduras têm um fim e que geralmente acabam quando o povo se fartou. Que seja também o impulso de nos unirmos na causa comum de não deixar de novo que sejam a violência, o patriarcado e a oligarquia a governar. Não temos medo, não estamos sós. Não passarão!
Daniel Schmachtenberger fala do estado das coisas ao nível planetário. É mais um pensador que me instiga uma atitude que eu desconhecia. Sempre fui um optimista. Vou ficando mais e mais pessimista. Enfermo de um pessimismo que me leva à acção. No fundo é como ir ao médico e ficar a saber que fumar me colocou a vida em perigo e que deixar de fumar terá um efeito positivo impossível de negligenciar. O pior de tudo não é o estado das coisas, é a inacção. Desistir é a única impossibilidade.
Preocupa-me a dependência do activismo actual das redes sociais. Falta uma crítica sistemática do funcionamento da economia digital, da hegemonia das plataformas e da sua pérfida exploração da fragilidade do nosso sistema nervoso central. Não consigo conceber um feminismo moderno que exclua essa crítica. É insuficiente dizer que os algoritmos não são equitativos. Nenhuma ferramenta de exploração se torna mais justa porque distribui melhor o sofrimento. Esta “race to the bottom of the brain stem”, usando a expressão de Tristan Harris, é um dos inimigos actuais da liberdade e da justiça. O activismo actual não a combate, usa-a como principal ferramenta da sua acção online.
“We think of them as evil geniuses. They're just ordinary mediocrities”, diz Cory Doctorow, referindo-se ao nosso habitual erro de percepção sobre monopólios digitais como a Google e a Amazon.
Dores no corpo. Memória do caminho. Ajudam a lembrar a superação da distância. O sofrimento não é todo igual. A dor, quando é consequência da escolha pessoal e efeito secundário da felicidade, não magoa mais que o corpo.
Dia cinco. Em Santiago apanhamos o comboio para Vigo e de Vigo pedalamos até Valença. Pelo caminho, depois de se acabarem as subidas, uma bocata de bacon e queijo. Cães, gansos e um cavalo. E depois greve da CP. Lanche dentro da fortaleza. Horas sem movimento, pela primeira vez em cinco dias.
Dia quatro. Mais quarenta quilómetros até Santiago de Compostela. Muitos peregrinos pelo caminho. Jantar de caril vegano.