Kroeber

#000997 – 22 de Maio de 2022

“It's the suppression of the word that gives it the power, the violence, the viciousness”, Lenny, 1974. Nestes tempos, havia polícia nos shows de Lenny Bruce. Assim que Lenny dissesse algo que ferisse as leis contra a obscenidade, era preso, de novo. Agora, não é necessário, porque são as pessoas que policiam o discurso dos outros, online. E nem sequer se vai a tribunal, tal é a força da censura social. Cobardemente, procura-se derrubar assim algumas pessoas, removendo-as do espaço público.

#000996 – 21 de Maio de 2022

Continuo muito desiludido com o Jon Stewart. Ainda hoje me custou muito ouvi-lo referir Lenny Bruce e a forma ele “foi preso e levado a tribunal por dizer palavras”. A forma como Andrew Sullivan foi tratado no programa de Stewart, ao ponto de o interromperem e dizerem que não o iriam escutar, não me sai da cabeça. Diz Stewart, na cerimónia em que George Carlin é homenageado, que as palavras obscenas que Carlin usou em palco, e se tornaram um dos bits mais reconhecíveis de Carlin, agora fazem parte dos títulos do Netflix. Isto ainda é mais difícil de engolir. Custa-me a acreditar que, por exemplo Lenny, o bio-pic de 1974, com Dustin Hoffman no papel de Lenny Bruce, passasse no Netflix sem gerar controvérsia. Há uma cena em particular que seria impensável hoje em dia, que sendo uma das cenas mais humanizantes e ternas, hoje seria denunciada e motivo de cancelamento. Que esta é a cultura em relação ao discurso, não me surpreende. Mas Stewart era um dos meus heróis e custa-me vê-lo próximo desta moralidade neo-liberal, que desistiu dos pobres, tem mesmo nojo deles e se limita a sinalizar a sua própria virtude.

#000995 – 20 de Maio de 2022

A espondilite dói. Mas gera sonhos lúcidos interessantes.

#000994 – 19 de Maio de 2022

A segunda temporada de Russian Doll complica e melhora tudo.

#000993 – 18 de Maio de 2022

Look Mum No Computer. Nestes tempos, sintetizadores, máquinas, botões, todas estas coisas criam um imaginário vintage. Para quem cresceu com ecrãs de toque, toda esta parafernália tecnológica gera nostalgia do tempo que não viveram. A presença ostensiva da máquina humaniza. Tal como o vocoder, que ao tornar a voz humana mais maquinal a torna mais naïf, mais humana. O som de Sam Battle é esse paradoxo, que é apenas paradoxo para quem cresceu sem internet.

#000992 – 17 de Maio de 2022

Yaya Sylla faz um duplo salto mortal. É o primeiro no mundo (em vídeo), a fazê-lo a partir sem balanço. A partir da Costa do Marfim as imagens espalham-se pelo Instagram. O tricking tem vindo a evoluir assim, neste mosaico global, em que miúdos crescem a partilhar a sua progressão online e ganham uma noção de comunidade. É nestes desportos de perícia individual que ainda encontro algum resquício da utopia que a internet sugeria há 20 anos atrás. Não é muito, mas é precioso.

#000991 – 16 de Maio de 2022

Estas são as previsões do seu serviço de metereologia do fim-do-mundo: céu encoberto com areias do Sahara e períodos de chuva de lama.

#000990 – 15 de Maio de 2022

Não me lembro da primeira vez que dei um salto mortal. Desde esse instante que evoluo: com duplo salto mortal, em patins em linha, no gelo, à chuva, para a água, de grandes alturas, em espaços amplos ou confinados. Foi sempre a sonhar que o fiz. Durante o sono, é retomada a experiência passada, mesmo se se trata do histórico de uma atividade irreal. Adiciono algo à imaginação cada vez que sonho, passo a ter mais amplitude, mais possibilidades, mais desejo. Não é tudo sempre a melhorar, as coisas também andam para trás. Em criança, isto acontecia-me com o voo. Mas, mesmo na imaginação parece que perdi a capacidade de voar. Restam-me alguns truques de circo, que acalento.

#000989 – 14 de Maio de 2022

Ainda não percebi se a idade me vai tornando numa pessoa pior ou se simplesmente vou removendo camadas de ilusão sobre o meu caracter.

#000988 – 13 de Maio de 2022

É refrescante esta transparência. O irmão da Billie Eilish mostra ao David Letterman como a voz da irmã numa canção específica recorreu a 87 takes. A faixa vocal é uma manta de retalhos, que cola os melhores segundos de cada take. Não há nada a disfarçar. É mesmo artificial.