Kroeber

#000429 – 19 de Janeiro de 2021

Isabela Figueiredo tem uma escrita límpida, cintilante. Percorre as suas frases uma força animal, uma argúcia emocional intensa e uma feroz intuição em relação à nudez e à crueza da verdade. Como no bom jornalismo, escreve com parcialidade ética e transparente. Como na melhor ficção, troca-nos as voltas aos lugares que tínhamos em comum. Como em alguns ensaios, dá-nos as ferramentas para desenterrar dúvidas e outros tesouros que o preconceito quer fósseis.

#000428 – 18 de Janeiro de 2021

As escritas utópicas e de ficção científica lembram-se do futuro, diz George Steiner.

#000427 – 17 de Janeiro de 2021

O Decameron é escrita pós-pandémica. Boccaccio terá escrito as 100 histórias do volume vários anos depois da Peste Negra. Vivemos em tempos de indústria editorial e de expectativas de satisfação instantânea. Saem grossos ensaios populares sobre um fenómeno antes mesmo de sabermos o que nos atingiu. O próprio Zizek já publicou dois volumes sobre o vírus. Continuo imensamente curioso sobre a forma como a ficção irá reagir a este atrofiamento geral das sociedades, este estrangular da vida em comum, funil a fazer da economia um escoamento de meios para ainda menos bolsos. Qual a vitalidade da imaginação?

#000426 – 16 de Janeiro de 2021

Tinha 10 anos e aprendi a programar. Não sabia que se chamava programar. O timex, compatível com os zx spectrum, vinha com BASIC. As teclas tinham, além das letras, alguns comandos: “GOTO” no G, “DRAW” no W, “LOAD” no J. Sem ter acesso a internet nem manuais, consegui aprender sozinho a fazer um jogo do galo. Foi o meu maior sucesso na programação. A partir daí tudo foi mais difícil, menos intuitivo e deu mesmo lugar a uma grande desilusão. Com 12, 14 anos seria um adepto de Ray Kurzweil, se escutasse o seu optimismo digital. Mas quando fui de facto estudar programação e estive exposto aos computadores, apercebi-me que o bug é uma feature. Muito mais tarde, Gödel e Turing confirmaram-me: os sistemas computacionais são coisas imprevisíveis; antes de correr um programa, não há nenhuma forma de saber se irá funcionar, crashar ou correr eternamente. Em miúdo acreditava que os bugs eram fruto de uma ciência de computação ainda pouca desenvolvida, que os computadores do futuro seriam como no Star Trek: tão fiáveis que lhes confiamos a vida, capazes de nos desintegrar e enviar a informação das nossas moléculas para outro lugar, em seguro teletransporte. Mas sei agora, nunca um computador será um sistema seguro e fiável. Faltam pouco mais de 24h para começar a trabalhar no meu novo emprego e ainda não tenho internet a funcionar corretamente em minha casa. Mais de duas décadas depois do ano 2000, a tecnologia ainda não é a coisa fiável que a ficção do século vinte projectava. Posso nem sequer conseguir ter uma ligação à internet, mesmo se tenho fibra, um router e um computador novos e tudo esteve a funcionar bem nesta casa durante vários anos. Quando mais precisava, porque vou começar a trabalhar em casa, a tecnologia é de novo a causa de instabilidade ou, usando a palavra favorita dos senhores feudais atuais, de disrupção.

#000425 – 15 de Janeiro de 2021

Bicicleta. Rio. Geada na madeira. Suor que cedo gela. Respiração que humedece a máscara. Vestígios de felicidade. Ar um pouco mais puro.

#000424 – 14 de Janeiro de 2021

Vou-me reinstalando em Portugal. Regresso a cidade com muita chuva, vindo da Grécia. A onda de frio deu-me as boas vindas. E agora um mês de confinamento para que mudem as paredes mas não as rotinas.

#000423 – 13 de Janeiro de 2021

Escrevo e apago. Escrevo e apago. Coisas banais sobre um ano demasiado interessante. Escrevo e apago. Procuro o que ainda resiste a este papel demasiado fácil de espectador. O confinamento atira-me para a frente dos ecrãs, o mundo como um espetáculo que apenas é consumido.

#000422 – 12 de Janeiro de 2021

Nils Frahm é tecelão. Rodeado de teclados e sintetizadores analógicos, melodias em catadupa como ritmos de fumo. Toca como quem narra a criação duma atmosfera. Riffs iniciais, frases com sucessivas variações, camadas com temperaturas diferentes. Das primeiras notas à máxima densidade sónica. Do ar de novo rarefeito à memória povoada de dança.

#000421 – 11 de Janeiro de 2021

Fawn Limbs é síncope. Violência rítmica. Precisão caótica. Açúcar em chamas. Refeição sonora em nacos gulosos, felicidade furiosa, chama dançando no peito. Sleeper Vessels é uma constelação de energia negra.

#000420 – 10 de Janeiro de 2021

Horseback é fricção. É sopro de gelo e fogo precário em noite ártica. É intimidade de sombras, dança de monstros, teatro de minúcias. Os álbuns fazem o corpo balançar, como fruto que ainda não caiu. As colaborações com Locrian e Pyramids expandem universos de abismo e filigrana, atmosferas de agressividade lowfi e cadências melancólicas. Fruto do novo século, em que a música se contamina e dialetos estranhos a um género o atacam e revolucionam. Na música, sou deste século mestiço.