Kroeber

#000819 – 25 de Novembro de 2021

Quanto mais velho, mais espantado fico com a fala e a escrita. Duas atividades tão quotidianas, mas que dependem muito do que é inconsciente. Seria impossível escrever, muito menos falar, se fossemos como um robô, que vê cada hipótese de interação, antes de escolher o que dizer. Ou melhor, seríamos, não humanos, mas robôs. A expressão pessoal tem esse perigo, uma muito espontânea imprevisibilidade.

#000818 – 24 de Novembro de 2021

Deu-me grande prazer apagar o enorme parágrafo que aqui estava. Que reste apenas o despropositado eco da minha satisfação e mais nada.

#000817 – 23 de Novembro de 2021

Fugir da imaginação. Grande risco quando não se enfrentam os próprios pensamentos, ou se abre guerra com a liberdade de pensamento em geral. Mito ou medo, a estratégia do poder é sempre de supressão.

#000816 – 22 de Novembro de 2021

Há seres humanos a enfrentar temperaturas negativas, empurrados contra arame farpado. Na Europa os refugiados são usados como balas humanas. A Europa está a tornar-se, de novo, um lugar de geração de sofrimento em larga escala. Estou a ficar pessimista e triste. Este inverno é um lugar mau, habitado por líderes autoritários e seus crimes impunes.

#000815 – 21 de Novembro de 2021

Tenho uma narradora que trabalhou para uma ditadura. Não é boa pessoa, embora tenho tido um ato de rebelião contra o regime. É um desses narradores em que não se pode confiar. Tenho-me preocupado demasiado com o que está à volta da escrita. Na história que escrevo não há nenhuma personagem moral, uma espécie de voz da consciência do livro. À Dulce Maria Cardoso, uma vez disseram que O Retorno nunca seria publicado no Canadá, por isso. Vivemos tempos em que lidamos mal com a ficção. Somos tão cínicos e paranoicos e dependentes da validação de estranhos que estamos enfermos de uma insegurança paralisante. Perante o discurso de uma personagem, temos que ter alguém que nos diga se aquilo vem dos bons ou dos maus. A ambivalência, a subtileza, o paradoxo são vistos como defeitos morais, não como barro artístico. Assim as personagens só se podem tornar uma triste reflexão dos valores morais que queremos pregar aos outros. Continuo a escrever as histórias, mas não sei qual é o futuro da publicação quando o mundo sci-fi, entre todas as subculturas literárias, se tornou tão normativo e moralizador. Não sei, não sei nada. Por isso escrevo, porque a escuridão é insuportável.

#000814 – 20 de Novembro de 2021

A Jam Session no Festival de Jazz de Guimarães. Os calos dos dedos ainda a sentir as cordas da guitarra da nossa própria sessão, horas antes. Uma gratidão serena, por esta amizade, um regresso. Sol de Inverno dentro.

#000813 – 19 de Novembro de 2021

Conto histórias de forma estranha. É-me natural confundir o passado com o futuro. Num mesmo parágrafo, ou até na mesma frase, ponho-me a saltar de um tempo para o outro. Talvez a minha inclinação, chamem-lhe lacuna, se ajuste a esta narrativa sci-fi sobre viagens no tempo.

#000812 – 18 de Novembro de 2021

Um profeta é o reverso de Cassandra. Nesta não acreditavam, sendo que conhecia o futuro. Tinha sido amaldiçoada com verdades antecipadas que a ninguém serviam. Já a profecia de um profeta é ela própria uma maldição que se lança sobre o mundo, para que não se cumpra.

#000811 – 17 de Novembro de 2021

A minha narradora surpreende-me. Ando com ela pelas ruas de Coimbra. Escuto o tom com que lhe falam, a forma como olha para as pessoas, os gestos. Tudo vago, como um sonho. Não. É o reverso de uma recordação. Um quase nada que se vai tornando nítido, até ser inesquecível.

#000810 – 16 de Novembro de 2021

Um dia uma pessoa, de quem escutei bastantes platitudes e algumas palermices, disse algo mais interessante. Que acordava cheio de vontade de sair de casa, porque gostava do seu trabalho. Que chegava ao fim do dia cheio de vontade de regressar a casa, porque amava a mulher. Este homem, na sua descrição de si mesmo, não fugia de casa para se esquecer das mágoas no trabalho. E não lhe custava sair da cama, porque o trabalho o entusiasmava. Acho, não sei bem, que nunca escutei algo tão utópico. Não me sai da cabeça, embora pudesse ter sido marketing pessoal, ao serviço do discurso da ocasião. Nem sei bem porquê.