Kroeber

#001130 – 05 de Outubro de 2022

A luz é visível em centenas de arco-íris no fundo da piscina. O vento lembra na pele a doçura do ócio. Sorrimos a partir do rosto até fundo da tarde.

#001129 – 04 de Outubro de 2022

O caminho junto ao rio fazemo-lo no escuro. As rodas livres das bicicletas soam como cigarras. O luar intensifica o brilho escuro do rio.

#001128 – 03 de Outubro de 2022

Cigarras e outros insectos, um sino, o comboio longe. Sons de final da manhã, em Cerveira.

#001128 – 02 de Outubro de 2022

A luz inventa um céu violáceo, que o rio Minho reflecte. A noite é luminosa e escura, fresca e quente, outonal e estival.

#001127 – 01 de Outubro de 2022

Praça de Dom João I. Aqui ao lado, fui assaltado à seringa. Vi o meu primeiro filme de Anime, Ghost in The Shell. E também o primeiro filme realizado por Veit Helmer, Tuvalu. Tirei fotos com uma Nikon barata que depois revelei na faculdade, de pombos a esvoaçar. Patinei onde agora está a decorrer uma manifestação. Este é apenas um pormenor de uma cidade inteira com que me relaciono há cerca de 25 anos. Por todo o lado, no Porto, estou em contacto com a minha vida. A cidade acende-me as memórias. Cresci e vivi longe das minhas origens. Habituei-me a dizer que não sou de lugar nenhum, mudei de país e regressei. Tive sempre pronúncia diferente da pronúncia local. E ainda assim, sinto uma ligação aos lugares em que vivi. Surpreendeu-me este efeito secundário de estar a envelhecer. Não é preciso raízes para me alimentar dos nutrientes do solo que piso.

#001126 – 30 de Setembro de 2022

Há prazer na preparação de uma viagem de bicicleta. Esse cuidado de minúcia e equilíbrio é já viagem. Torna-se evidente o apego, importante a decisão do que vai e fica. Saltam à vista detalhes que outras viagens revelaram. Há quase carinho por esta estrutura metálica, pelos muitos quilómetros que me transportou. Cuidar da bicicleta, carregá-la, é cuidar de uma parte da minha vida, é preparar o movimento, a transição.

#001125 – 29 de Setembro de 2022

É misterioso o sítio de onde vêm as palavras escritas. Avança-se na página, vendo mal, de mãos à frente a abrir caminho nas teclas. Frases, imagens, diálogos, personagens inteiras se revelam. É infinito esse lugar, existe apenas ao se escrever, e perdura mais que a realidade.

#001124 – 28 de Setembro de 2022

Alforges na bicicleta. Guarda-lamas, roupa para a chuva. O longo e inspirador The Dawn of Everything para continuar a ler. E o rio Minho.

#001123 – 27 de Setembro de 2022

Ler o Two Years on a Bike, do Martijn Doolaard, ocupa-me inteiramente. O livro é imenso. As enormes páginas estão cheias de fotos de pessoas, montanhas, desertos. Sabe bem ler assim, sentado, com o volume do livro a ocupar a mesa. Penso que irei retomar a leitura do Gormenghast assim, apreciando as ilustrações de Mervyn Peake e a dimensão física do livro.

#001122 – 26 de Setembro de 2022

Itália. O país de Primo Levi, de Franco Berardi, de Fellini e Pasolini, do meu querido Italo Calvino, do nosso amigo Tabucchi, da boa comida, da dolce vita, do Adriático e do Tirreno, dos Alpes e da Sardenha, de milhões de pessoas que ainda não desistiram do futuro, é muito maior que este triste momento político. A nossa solidariedade começa já. Um dia, talvez não demore muito, poderemos vir a precisar da mesma empatia. Da força de quem não se derrota pelo ódio e, em vez disso, não aceita fronteiras à colaboração de pessoas de boa vontade, de todas as cores, géneros e nacionalidades. A nossa causa comum é a humanidade.