Kroeber

#000744 – 11 de Setembro de 2021

Chegaram os meus patins novos. E a chuva.

#000743 – 10 de Setembro de 2021

Chorar ao adormecer tem o seu quê de apaziguador.

#000742 – 09 de Setembro de 2021

Na nossa cultura ácida, falhar por pouco é o pecado maior. Diz-se que o segundo é o primeiro dos últimos e até o 6 é o número do diabo, por ser o que está mais próximo da perfeição, do 7, sem lá chegar.

#000741 – 08 de Setembro de 2021

Duvido da hipótese convencional que explica o sucesso dos filmes de horror. A ideia de que se procura testar, de forma segura, emoções associadas a perigo, a medos profundos, a fobias. É uma explicação análoga à que se dá para fundamentar o gosto de algumas pessoas por desportos perigosos. Penso que num caso e noutro a explicação não resiste a uma observação mais atenta. Em desportos como a escalada, basta ver o Free Solo, escutar Alex Honnold, para ter um exemplo do que é mais habitual, um desportista sereno, sóbrio, dedicado a diminuir o risco e a evitar o perigo. A expressão viciado em adrenalina faz sentido nenhum. No caso dos fãs de filmes de zombies e outros subgéneros em que há muito sangue, penso que faz mais sentido pegar numa ideia do Ricardo Araújo Pereira, que diz que o humor permite olhar para o sofrimento e a morte com distanciamento, um distanciamento em relação a nós próprios. Parece-me que os fãs destes filmes procuram, longe da experiência de emoções e medos intensos, o seu contrário: a capacidade de se distanciarem de si mesmos, da sua habitual estrutura emocional. RAP diz sobre o humor negro que o seu alvo é o sentimentalismo. Assistir a um filme gore com zombies, proponho, terá um efeito semelhante para os seus aficionados.

#000740 – 07 de Setembro de 2021

Como um maratonista em má forma, sinto cãibras, duvido das minhas forças, ponho em causa o esforço. Mas sei que são apenas mais uns dias até chegarem as férias.

#000739 – 06 de Setembro de 2021

Esta aldeia não tem água potável, lembra o idealista. Aqui está uma garrafa de água, bebe, diz o pragmático. Estar sempre apenas focado na solução imediata, no que está ao alcance da mão, às vezes é a forma mais aceleracionista de correr em direção à destruição.

#000738 – 05 de Setembro de 2021

Devo dias ao meu diário. Por vezes, a sensação do dever por cumprir é ainda mais motivadora da acção. Escrever é o que me falta, sempre.

#000737 – 04 de Setembro de 2021

Nunca pensei no que passei na escola como bullying. Foi só ao falar com uma amiga, décadas depois, que percebi que era estranho não ver aqueles eventos dessa forma. Durante 3 anos, no secundário, grupos de colegas da minha turma atacaram-me com uma frequência que foi diminuindo. Tinham um de dois objetivos: “malho” ou “levar ao poste”. O malho consistia em rodear a vítima e dar-lhe murros e pontapés. Levar ao poste era agarrar a vítima pelos braços e pernas, abrir-lhe as pernas, empurrando-o de encontro a um poste várias vezes, de forma a que os genitais e o cóccix embatessem contra esse poste, enquanto quem assistia incitava os agressores, fazendo sons que acompanhavam o balanço. Isto aconteceu na mesma escola em que anos mais tarde um grupo de raparigas atacou e bateu num rapaz, filmando tudo e colocando online o vídeo.

Uma das razões porque não pensei naquilo como bullying talvez seja porque o que aconteceu o consegui integrar e, não havendo vídeo daquilo, pude seguir a minha vida. Aquele passado não me magoa, não tem poder sobre mim. A outra razão é porque achei que aquele comportamento era o comportamento normal de um grupo de rapazes. Ligado a este ponto, com os meus 16 anos achava que era assim que um grupo, em geral, se comporta, muitas injustas vezes, contra uma pessoa isolada. A crueldade do grupo para com um indivíduo já era algo com que eu contava. Bem antes de chegar aos 16, eu tinha aprendido que não preciso de um grupo para me validar e por isso nunca me culpabilizei pelo que aconteceu. Sempre esteve claro que a culpa era dos agressores.

Mas a principal razão porque consegui superar aqueles acontecimentos é simples: eu sempre me defendi. Com dificuldade e determinação. Em todas as vezes em que me atacaram fui uma vítima que resistiu, berrou, pontapeou e se defendeu como possível. Fi-lo sempre e de tal forma que a partir de certa altura eu passei a ser um alvo menos apetecível. Esta dinâmica é explicada por Rory Miller em “Meditations on Violence”. Diz o perito em defesa pessoal sobre este tipo de ataques que os agressores procuram uma vítima passiva, indefesa, para poderem fazer do ataque um espetáculo para quem assiste e exibirem-se numa situação de domínio. Quando a vítima se defende com a sua própria agressividade, torna-se menos atrativa. O risco de um agressor também se magoar aumenta e a “qualidade” do espetáculo diminui. A explicação dada por Robert Sapolsky sobre a testosterona diz que esta hormona estimula comportamentos que aumentem o estatuto social e é isso que explica alguns comportamentos violentos. Os bullies, faço agora a ligação entre Rory e Sapolsky, procuram subir o seu estatuto social, montam um espetáculo violento com esse intuito.

Eu não sabia disto e, na verdade, com o cyberbullying tudo é muito pior, porque ultrapassa o evento e o assédio e a agressão passam a acontecer online e ganham outra dimensão. Penso que teria muita dificuldade em me defender e superar bullying se tivesse nascido mais tarde e tudo acontecesse online. Na altura, eu simplesmente me defendia, como um animal acossado. Não tenho nenhum rancor em relação a estes acontecimentos, embora seja claro para mim que este tipo de comportamentos são de uma crueldade sem desculpas. Mas talvez tenha ganho alguma confiança precisamente por ter passado por situações destas, que são difíceis socialmente e que comportam risco físico. A consequência disto é que noutras situações sociais em que sou atacado, o meu impulso é imediato: defender-me. Sou um péssimo engolidor de sapos.

#000736 – 03 de Setembro de 2021

O sol passa mais baixo à minha janela. Todos os dias, a meio da tarde, tenho a ilusão que o sol está a nascer. Fico cheio de energia e confusão.

#000735 – 02 de Setembro de 2021

Aguardo os meus triskates, a minha halfbike, a minha gravel bike.