Kroeber

#000694 – 23 de Junho de 2021

Estou a ler Changing Planes, da Ursula K. Le Guin, como a uma antropologia inventada. Faz-me lembrar As Cidades Invisíveis, mas no livro da autora americana são as civilizações que vêm a sua história contada, não as cidades. Nesta última história, algumas pessoas desenvolvem asas. São consideradas amaldiçoadas, pela cultura local. São assassinadas ritualmente. Não têm lugar no mundo. É uma inversão surpreendente da liberdade que a ideia de um humano alado provoca.

#000693 – 22 de Julho de 2021

Ainda assim, é impossível deixar de olhar para o dinheiro com desconfiança. A ficção científica pode ajudar a criar um cenário que isola os perigos de uma sociedade completamente mercantilizada. Imaginemos que uma das actuais empresas privadas que começou a investir no espaço consegue colonizar a lua. Há uma pequena base, com recursos limitados, ainda muito dependente do que vem da Terra: matéria prima, comida, água, oxigénio. A população é pequena, composta de trabalhadores contratados. A dado altura, talvez passados séculos, começam a autonomizar-se alguns grupos. Algo semelhante já foi imaginado por Kim Stanley Robinson, na sua trilogia sobre a colonização de Marte. Digamos então que a empresa que continua a ser proprietária da base lunar entende que tem direito a controlar tudo o que se passa na lua. Esta empresa defende que ninguém pode usar recursos na lua fora da economia que ali foi estabelecida. A forma mais simples de controlar as acções dos que anseiam por mais liberdade seria usar a dependência do oxigénio trazido da Terra para sobreviver. Bastava subir os preços astronomicamente ou mesmo recusar vender oxigénio aos rebeldes.

Se isto nos parece cruel é bom sinal. É porque por enquanto ainda achamos que ninguém tem o direito de privar outro ser humano de respirar. É que quanto ao acesso à água e à comida, há muito nos habituámos a semelhantes crueldades. O dinheiro permite-nos alienar da violência que estrutura as relações entre mercado e vida pessoal. Os hábitos de hospitalidade de que a maior parte dos povos se orgulha (oferecer comida como cortesia, dar abrigo a um viajante, oferecer água) terão surgido quando a sobrevivência não dependia do dinheiro. Provavelmente mesmo antes de existir dinheiro. Não era esperado de um desconhecido que pagasse com moeda a bondade de não o deixar passar fome. Embora a gratidão se pudesse manifestar e fosse bem-vinda. A ideia simples, mas com consequências muito vastas, que o dinheiro que temos representa o nosso trabalho, que o mede e demonstra, para muitas pessoas fundamenta outra ideia: a de que não ter dinheiro é evidência da falta de mérito pessoal. E o círculo completa-se quando os Darwinistas Sociais, por exemplo, defendem que se alguém não tem dinheiro para comer ou pagar despesas de saúde é porque não o merece.

#00692 – 21 de Julho de 2021

E no entanto, a nós nada é tão concreto como a falta de dinheiro. Temos tão reduzida capacidade de assegurar comida e abrigo, que tudo se mede pela capacidade de comprar coisas. Até, ou sobretudo, a sobrevivência.

#000691 – 20 de Julho de 2021

Dinheiro não é um conceito assim tão imediato. É difícil imaginar um diálogo entre alguém que não sabe o que é dinheiro (vem doutro planeta ou outro tempo) e uma pessoa que sempre o utilizou. Como é que se explicam a utilidade e o sentido do dinheiro, a quem lhes é estranho?

#000690 – 19 de Julho de 2021

Hoje, para tornar um momento especial, basta não o fotografar.

#000609 – 18 de Julho de 2021

Vejo Chris Haslam e Alexander Rademaker no skate. E reparo como Rodney Mullen influenciou o futuro do desporto. Agora, sabe-se que está quase tudo por inventar. É a criatividade que impulsiona a biomecânica.

#000608 – 17 de Julho de 2021

Ocupado com Alice in Chains e Nirvana, não escutei Pavement e Godflesh. Escuto agora, sem nostalgia, muito depois do fim da adolescência. Godflesh é mais cru e emocional que The Yound Gods. E Pavement mais ingénuo e livre que Sonic Youth. Até prefiro assim, escutar música sem estar imerso no contexto que a gerou.

#000607 – 16 de Julho de 2021

Ontem desatou-se um nó. Voltei ao conto passado nos lugares em que cresci. Tenho já uma visão mais clara do enredo que quero. Afeiçoei-me às personagens principais. Estou muito curioso em vê-las crescer.

#000606 – 15 de Julho de 2021

Resisto a maltratarem-me. Chamam-lhe, à não-resistência, engolir sapos.

#000605 – 14 de Julho de 2021

Escolher entre “vencê-los” ou “juntarmo-nos a eles”? Seria o mesmo que escolher entre utopia e distopia. Sonho impossível ou pesadelo? Escolher em liberdade é recusar esta falsa escolha. Derrotar a Amazon ou aceitar a sua hegemonia? Pergunta errada. Boicote geral ou religião? Nim.