Kroeber

#001222 – 07 de Janeiro de 2023

Nude, dos Radiohead dá uma tareia à minha tristeza, deixa-a mais mansa, cansada, tenra, pronta a ser deglutida, como entrada da alegria.

#001221 – 06 de Janeiro de 2023

John Healy é uma figura inacreditável. A sua vida mais impressionante que a de uma personagem de ficção.

#001220 – 05 de Janeiro de 2023

Frio e sol. Amigos, bicicletas e almoçarada. Rio caudaloso, muito verde.

#001219 – 04 de Janeiro de 2023

Pára a chuva, saio de bicicleta. Tenho luvas e roupa mais quente. Sabe bem a distância, o esforço de pedalar produzindo também calor, uma agradável ilusão de autonomia a adocicar os músculos.

#001218 – 03 de Janeiro de 2023

Diz Mandelbrot, sobre a criação da palavra fractal: “the name was a kind of existence”. O matemático francês, no documentário Clouds are not Spheres, surge com uma intuição muito próxima dos artistas, um temperamento imaginativo. Nas palavras de uma professora que tive no secundário: um matemático não é um contabilista.

#001217 – 02 de Janeiro de 2023

O presente existe. É o momento do reconhecimento, cada cintilação de consciência. É a nossa criança interior a apontar o mundo. Dizer que tudo é passado pode ser logicamente correcto. Mas pouco explica. O instante em que se diz algo, o momento de levantar os olhos, o repente com que se gera silêncio. Aí existe o agora-aqui. Talvez, apenas talvez, não exista mais nada. O resto é imaginação e memória, futuro e passado. Tremendos, importantes precisamente pela sua fértil inexistência.

#001216 – 01 de Janeiro de 2023

A máquina de viajar no tempo existe: chama-se memória e tem imensas contraindicações.

#001215 – 31 de Dezembro de 2022

Transitamos de ano atingidos por um dilúvio. Os deuses antigos foram substituídos pelos oráculos digitais. Talvez as alterações climáticas nos façam renascer superstições e medos mais ancestrais. À realidade, infelizmente, continuamos imunes.

#001214 – 30 de Dezembro de 2022

Do Freixo até à ponte D. Luís o trânsito automóvel está cortado. Pedalo junto ao Douro, em plena cidade, envolto em silêncio. As cores do por-do-sol sugerem a proximidade do crepúsculo. Apercebo-me com profunda nitidez que os automóveis mudaram a nossa percepção do mundo. Assim que desaparecem, há uma distinção menos clara entre cidade e natureza.

#001213 – 29 de Dezembro de 2022

É um superpoder ou talvez uma maldição: não me aborrece a repetição. Uma coisa boa repetida muitas vezes é-me sempre agradável. Uma coisa má que se repete nunca perde o poder de me magoar.