Kroeber

#000196 – 31 de Maio de 2020

Algumas histórias escrevem-se a si mesmas. Rebeldes, recusam terminar quando eu tinha planeado. Dizem-me que ocupam mais espaço, que precisam de tempo. As suas personagens têm mais dimensões do que a matemática preliminar da minha imaginação previa. E eu passo a ser um fogueiro. Alimento essa caldeira, numa locomotiva que ainda não chegou. É certo que escolhi a estação, mas ignoro o destino. É o que está a acontecer com Lágrima de Trilionário, que em vez de estar pronta este fim-de-semana, ainda continua a crescer.

#000195 – 30 de Maio de 2020

Toda a escrita é automática. Nenhuma escrita é um automatismo. Meditar não é deixar de pensar. É abrir espaço, para poder observar o pensamento enquanto ocorre. Escrever não é pensar. Escrever não é deixar de pensar. Escrever é ligar ao corpo o pensamento. Francisco Varela trouxe-nos a expressão “Embodied Mind”. O escritor é essa encarnação do pensamento.

#000194 – 29 de Maio de 2020

O Khaen tem milhares de anos. Escutar aquele som desperta o meu íntimo mais primitivo e espiritual. Este instrumento tem uma personalidade harmónica muito distinta, como geralmente sinto nos instrumentos de corda. Como no jazz, a sua técnica aborda a melodia como se fosse um ritmo colorido. Como os tocadores de didgeridoo, os mestres de khaen fazem do instrumento um pulmão externo, uma extensão do corpo que pulsa de energia. Como nas gaitas de foles, um número reduzido de notas tem espessura e volume. Como uma guitarra, toca com riffs, de forma que preenche o ar de contagiantes padrões melódico-rítmicos. Os seus riffs têm algo de telúrico, de dança e solstício, de colheita e namoro, como uma rabeca ou um fiddle de bluegrass. Em Laos, na Tailândia e países vizinhos estes instrumentos continuam a ser construídos manualmente e tocados. Desde a idade do Bronze que este som sobe desde a terra aos céus. Toda a tradição musical do mundo se cruza com este órgão de soprar.

#000193 – 28 de Maio de 2020

A procrastinação é anorexia do tempo. Em vez de o usar, corta-se uma fatia do tempo restante. Olha-se para ela, imaginando. E deixa-se de lado. A ansiedade faz barulhos na barriga. Volta-se a olhar para a fatia e corta-se em pedaços pequenos, muito simétricos. Os pedaços em novas fatias, com lentidão. Consegue-se agora ver através de cada fatia. Esta transparência satisfaz. Engole-se uma fatia com frugal parcimónia. Mede-se o tempo pelo relógio da ansiedade. E a ação pela espessura do impulso de agir.

#000192 – 27 de Maio de 2020

Tenho de acabar um conto Solarpunk, para o enviar. E ando a escrever contos distópicos. Esta oscilação entre a distopia e a utopia é violenta. Nos anos 1980 havia os utópicos, como Jaron Lanier, e o No Future dos cyberpunks. A estética cyberpunk acabaria por ganhar magnetismo libidinal. O que é uma inversão do que Huxley fez em Admirável Mundo Novo. Este livro apresenta um mundo em que a perfeição e a liberdade são obrigatórias, estão inscritas na lei. Nas últimas décadas, a catástrofe foi aceite como inevitável, e o cinismo tornou-se a linguagem dessa resignação.

Poucos livros conseguiram o que Ursula K. Le Guin fez em “The Dispossessed”. Aqui, a utopia já aconteceu. É humana e imperfeita. E absolutamente insuficiente. O herói é aquele que não se resigna. Que se sente insatisfeito ao mesmo tempo com o isolamento da sua sociedade utópica e com o facto de a sociedade-mãe ser tão distópica. Vai tentar reaproximar as duas sociedades. No conto “Those who walk away from Omelas” o humanismo de Le Guin é ainda mais acutilante e radical. Coloca-nos a incómoda questão: e se fosse possível uma sociedade boa, próspera, justa, feliz? E se tudo isto fosse possível com a única condição de que uma só pessoa sofresse horrivelmente?

Procuro as toxinas que ameaçam o humanismo, sou um antropólogo da miséria, um sabotador da misantropia. Escrevo histórias como lupas, como dedos narrativos a apontar, como pontos de interrogação a questões que se acendem ao lermos. É violenta esta oscilação entre a esperança e a dor, entre o potencial e a catástrofe. Mas é uma pálida radiografia da mundo, onde o sofrimento e a ruína são bem reais.

#000191 – 26 de Maio de 2020

Herzog foi até Green Bank. Em “Lo and Behold” foi conhecer as pessoas que vivem sem telefone, televisão, rádio e internet. Menos de 200, obrigadas a redescobrir atividades como tocar instrumentos, construir coisas e falar uns com os outros cara a cara. Noutros sítios, há quem pague para que lhe tirem o telemóvel. Chamam-lhe retiro ou desintoxicação. E os megabarões de Silicon Valley encerram os filhos em colégios privados em que não há nem telemóveis nem “redes sociais”.

Franco Berardo explica a diferença entre connection e conjunction. Em “After the Future” escreve que estarmos “conectados” altera o nosso sistema cognitivo, que foi feito para estamos “conjuntos”. Que numa conexão cada elemento se mantém distinto. Numa conjunção, tornamo-nos outro. É o amor que dá como exemplo: o amor muda o amante e produz significado que não existia antes. Ao contrário de uma conexão, que exige que os segmentos (até os humanos) sejam compatíveis e operem segundo um efeito de mera funcionalidade maquinal. Continua, explicando que a conjunção é imprecisa, irrepetível, imperfeita e contínua. Já a conexão é a interação repetível de funções algorítmicas, linhas direitas e pontos que se justapõem perfeitamente.

Humanos, somos imprevisíveis e complicados. Interessantes. Mas a enorme máquina distópica digital gosta de nos tornar previsíveis terminais behavioristas. O dinheiro agradece a homogeneidade e repetição dos comportamentos. A expressão “ligado” tem pouco de humanizante. Diz apenas que funcionamos. E esconde o facto de que estamos mais e mais fechados. Que dos outros não queremos nada, sobretudo mudança.

#000190 – 25 de Maio de 2020

Tradicionalmente, a ficção científica confunde tempo com espaço. As histórias de viagens no tempo não passam afinal de histórias de teletransporte. É algo que me intriga, já há bastante tempo. Penso no que seria viajar no tempo se não fosse entrar numa máquina e ser teletransportado para um lugar no futuro ou no passado. Ando a escrever histórias em que não haja esta confusão. Algumas são sobre o teletransporte, o tema mais simples. E outras sobre o tempo, o desafio maior. Entretanto, faço pequenas viagens aqui no meu blogue. Como esta, depois de um dia a dormir. Agora, recupero o tempo perdido.

#000189 – 24 de Maio de 2020

Querido futuro, talvez tropeces um dia neste texto. Coisas mais bizarras já acontecerem desde que o tempo foi criado. É possível que tenhas olhar de arqueólogo. E apontes a lupa, esmiuçando pistas. Deixa-me desiludir-te. O que aqui faço é aparentemente simétrico a esse teu impulso. Procuro vestígios do que acontecerá. Estou mortalmente contaminado de sci-fi. Faço a arqueologia do futuro.

#000188 – 23 de Maio de 2020

Hoje foi o dia do som e amanhã será o da escrita. Aos fins-de-semana, sabotamos o isolamento. Encontrei nos meus amigos conspiradores e em novos amigos um mesmo impulso para a inquietude. As paredes não têm sido suficientemente estanques. A liberdade é uma erva daninha, não se lhe arrancam as raízes. E até cortada e atirada ao chão volta a pegar à terra e a ganhar viço.

#000187 – 22 de Maio de 2020

Os primeiros textos que me publicaram, tipografei-os. A máquina de escrever era pequena e versátil. Já um pouco mais avançada do que as primeiras que vi o meu pai usar. Era elétrica e para apagar bastava carregar numa tecla. O meu pai chegou-me a ensinar a corrigir uma letra errada. Era um processo delicado, tinha de se saber voltar à mesma linha e ao local exato da gralha. Typo, em inglês, é termo que vem dessa prática. Um golpe com a mesma tecla e quase desaparecia a letra errada. A repetição do erro apagava-o. Esta agilidade agressiva e precisa, esta cadência hipnótica e maquinal inspirou-me reverência.

A máquina elétrica da paróquia era muito mais prática, as teclas não precisavam de ser marteladas. E o jornal era fotocopiado, como uma espécie de fanzine católica. Era distribuído por nós, a quem saía da missa, como um panfleto cristão. Conheci a ética DIY na era grunge, mas não era punk. Usava botas de biqueira de aço por debaixo da túnica branca. Acreditava que Jesus foi o primeiro hippie e o meu cabelo era uma comprida confusão de caracóis. Demorei muito a desacreditar em Deus. E já não escrevo poemas ajoelhado sobre a cama. A minha religião chama-se humanidade. E conto histórias porque tenho muitas perguntas.