Kroeber

#001251 – 05 de Fevereiro de 2023

“Carnival Row” é brilhante. A sua atmosfera política e estética aprendeu mais com a época Vitoriana que quase todo o Steampunk. Há outra série cuja história não ignora a luta de classes entre a aristocracia e as multidões exploradas pela indústria nem faz da tecnologia um fetiche sem consequências materiais. É “Arcane”, a adaptação de um videojogo. Geralmente o Steampunk é, como Cory Doctorow diz, a idealização da tecnologia, a ideia de que um artefacto tecnológico pode ser produzido por um cientista solitário, como produto do seu engenho, totalmente desligado da cadeia de produção e distribuição industrial e, por isso mesmo, sem o contexto da complexidade e dos problemas causados pela indústria. Talvez devamos estar gratos ao Steampunk por ter originado histórias com premissas e abordagens que contradizem os seus princípios, elevando o género a possibilidades que não tinha.

#001250 – 04 de Fevereiro de 2023

As duas perguntas que me ferem dentro: Para onde é que “Those Who Walk Away From Omelas” vão? E para onde é que “The Ones Who Stay and Fight” querem ir? Obrigado pelo desconforto que me plantaram, Ursula K. Le Guin e N.K. Jemisin.

#001249 – 03 de Fevereiro de 2023

Uma vantagem do inglês é ter palavras específicas para genre e gender. Claro que o português, como gosta de lembrar o Ricardo Araújo Pereira, tem a vantagem de ter um verbo específico para ser e outro para estar.

#001248 – 02 de Fevereiro de 2023

Décadas antes de haver uma atmosfera mais convidativa a expressões de géneros não convencionais, Paulo Bragança continuava algo que António Variações tinha iniciado. Nos anos 90, Bragança apresentava-se em palco com uma voz e uma presença em palco em que o fado e uma muito pessoal estética Queer se tornavam indistinguíveis.

#001247 – 01 de Fevereiro de 2023

Peryphery e Gojira são dois exemplos (de qualidade) que mostram como o heavy metal se tornou completamente mainstream. Alguns outros exemplos, como Jinjer e mais ainda Polyphia, mostram até o lado pop do metal. O que nos anos 80 seria recebido como música extrema é agora algo absolutamente respeitável e, pelo menos nos casos que citei, ainda não completamente previsível.

#001246 – 31 de Janeiro de 2023

Jaron Lainier defende que o uso da realidade virtual nos faz ganhar mais sensibilidade sensorial. Diz ele de forma idealista que passamos a ser mais exigentes em relação à realidade, que nos deixamos enganar menos facilmente. Acha ele que, ao contrário de cada vez ser mais difícil de distinguir a realidade do virtual, ao aumento de resolução da tecnologia corresponde um aumento da capacidade dos nossos sentidos de distinguir subtileza e detalhe . É talvez demasiado optimista, mas sendo um dos pioneiros da realidade virtual, não lho podemos levar a mal. E, na verdade, eu desejo que isso aconteça de alguma forma com a inteligência artificial. Que a verdadeira originalidade humana se torne mais nítida, precisamente porque mais preciosa e rara, por entre tanta simulação mais e mais convincente. Não me quero casar com a tecnologia, quero que seja mera ferramenta. Ideias como a de Hannu Rajaniemi, de escrever livros de narrativas mutáveis, que se adaptam às reações inconscientes do nosso sistema nervoso central parecem-me de pouca utilidade para o avanço da criatividade literária. São inevitáveis. Mas não são um futuro promissor, são apenas o presente que conseguimos, até agora, sonhar.

#001245 – 30 de Janeiro de 2023

Eis o meu prompt ao Open AI: “escreve um microconto, ao jeito do steampunk, entre 100 e 200 palavras, sobre uma flor que queria ser um astronauta.”

E eis o resultado, escrito em segundos, por software:

Era uma vez uma flor chamada Válvula, que crescia nos jardins da cidade de Neo-Victoriana. Ela era uma flor diferente das outras, pois sonhava em ser astronauta.

Válvula admirava o céu noturno, fascinada pelas estrelas e pela lua, e sonhava em explorar o universo. Ela desejava mais do que tudo poder voar e descobrir novos mundos.

Certo dia, um cientista louco passou pelo jardim e, ao ver Válvula, teve uma ideia maluca. Ele criou uma nave espacial usando a tecnologia steampunk e, com a ajuda de um sistema hidropônico, transformou Válvula em um astronauta.

Válvula embarcou na nave e partiu em uma incrível aventura pelo espaço. Ela visitou planetas distantes, viu nebulosas deslumbrantes e até mesmo descobriu uma nova espécie de seres extraterrestres.

No final da sua viagem, Válvula voltou para casa, mas não era mais uma simples flor. Ela era uma heroína, uma exploradora destemida que realizou seu sonho de se tornar um astronauta.

#001244 – 29 de Janeiro de 2023

A versão chat do Open AI é assustadora. Acabei de pedir ao software que me escrevesse um email a pedir desculpas a um cliente, dizendo que o seu pedido de viagem no tempo estava atrasado devido a uma perturbação no espaço-tempo. É um software burro, incrivelmente potente. Usa a informação disponível online e o cálculo probabilístico de qual a palavra correcta a escrever a seguir nas suas respostas. Não é bem semântica, é estatística. Mas é arrepiante a qualidade das suas respostas, uma simulação de criatividade. Dá-me a ideia de que o teste de Turing seria passado por este software tão simples, tão incrivelmente poderoso.

#001243 – 28 de Janeiro de 2023

“London is a problem for me. And I handle it by writing about it.” As palavras são de M. John Harrison a propósito da sua recente colectânea de contos. O autor que, segundo China Miéville, merecia ganhar o Nobel acha mesmo os sítios pequenos, quanto mais Londres, demasiado “overcrowded”. É a sensibilidade contrária de China Miéville, que já viveu em várias metrópoles e, segundo o próprio, se alimenta da massa crítica gerada por viverem milhões de pessoas num mesmo local.

#001242 – 27 de Janeiro de 2023

A versão de “Black Metal” de The Soft Pink Truth é maravilhosamente herege. Drew Daniel bastardiza o género com insolência e criatividade. A canção que deu origem a todo um género musical está inserida num álbum inteiro, em que o Black Metal é revisitado numa abordagem Queer. A capa do álbum é deliciosamente chocante, porque chocante para os militantes mais misógenos e homofóbicos deste nicho do heavy metal. Contra o ódio, nenhum medo. Depois de Zeal & Ardor se apropriar da estética black metal num acto com muito de anti-racismo, The Soft Pink Thruth lança este trabalho que faz o mesmo no que toca à sexualidade. Basta um pouco de luz, para que uma caverna se ilumine. Que tenha também um pouco de purpurina, como na famosa e divertidamente escandalosa capa dos Sunbather.