Kroeber

#001231 – 16 de Janeiro de 2023

Miranda July, nos dois filmes que vi, interpreta mulheres (talvez com muito de alter-ego) com um romantismo absolutamente desarmante. As cenas em que que se aproxima dos amantes, num dos filmes ao telefone, noutro na rua, são belas e cómicas, comoventes. Tenho saudades disto, de acreditar que ainda me hei-de apaixonar.

#001230 – 15 de Janeiro de 2023

No futebol o árbitro tem um papel estranho. É um disciplinador, alguém que está ali para segurar o jogo, pôr água na fervura, uma figura de autoridade, que concentra as frustrações dos adeptos e dos atletas. O seu papel principal é errar, ser odiado, para que o dia seguinte gere conversa acesa. Nas outras modalidades de equipa com bola não é assim, não se fala do esotérico “critério do árbitro” e conceitos como o de “árbitros que deixam jogar” por oposição a árbitros que assinalam “demasiadas” faltas seria incompreensível. É a modalidade desportiva mais bem sucedida de sempre e a mais conservadora. Irrita-me, porque gera momentos de grande beleza visual, de proeza física impressionante mas muitas regras estão completamente desajustadas à actual realidade desportiva. O anti-jogo é parte essencial deste desporto. As regras e a cultura de arbitragem protegem quem defende e punem quem ataca. E ninguém parece muito incomodado com isso. É pena.

#001229 – 14 de Janeiro de 2023

Abóbora, açúcar, sumo e raspas de laranja, 2 ovos, 1 cálice de bagaço, farinha e um pouco de fermento. As filhoses fritam rapidamente, arredondam e a superfície alisa. Por dentro, ligeiramente húmidas. Polvilho com açúcar e canela e como assim as primeiras, ainda mornas, deliciosas.

#001228 – 13 de Janeiro de 2023

Não há nada de mais humano do que a programação. Num certo sentido a máquina é uma expressão muito direta do engenho humano. Daí algum do horror que se associa à frieza, à total ausência de emoção nas máquinas. E um programa é a forma mais apurada do que é uma máquina: pura estrutura lógica. Ainda assim, chamar desumano a uma máquina é desajustado. É porque é tão humana – e logo, tão distante da natureza – que uma máquina pode ser tão desconcertante. Nada está tão longe do divino, da ideia de comunhão com o mundo natural, com o que é ancestral e transcendente. Por isso é tão aberrante a moderna divinização da máquina que faz dos algoritmos oráculos e dos homens deuses ou, mais bizarramente ainda, criadores de deuses. A ideia da emergência da inteligência nas máquinas é o extremo desta forma de pensar tão popular: a de que o ser humano dará origem a algo que transcende a natureza, omnisciente, quase omnipotente.

#001227 – 12 de Janeiro de 2023

Pipeline é uma onda assustadora mas extraordinária. Torço por Jack Robinson, agora que a Teresa Bonvalot já não está em competição.

#001226 – 11 de Janeiro de 2023

Desde há anos que, online, temos muito cuidado com o que escrevemos. Não há outra forma de estar seguro. O fundamentalismo mais violento ganhou da única forma que pode ganhar: ninguém lhes respeita os ideais, se as críticas não são públicas é apenas por medo. E este, de uma forma radicalmente visceral, é o maior adversário do respeito.

#001225 – 10 de Janeiro de 2023

Walkaway, do Cory Doctorow. The Eye of the Heron, da Ursula K. Le Guin. O primeiro parece-me inspirado no segundo. Em ambos, uma mesma atitude política, de enorme força. Virar costas. Num e noutro caso, uma comunidade cujos inimigos pretendem explorar, vira costas aos seus inimigos, e recomeça a vida noutro sítio. Não se deixam definir pelos conflitos que outros iniciaram e querem conduzir. Num e noutro caso, tudo me pareceu utópico e impossível e belíssimo. Esta atitude é uma mistura de desapego e de autonomia que não encontro em nenhum caso na realidade. Como os nossos princípios são geralmente a idealização do nosso comportamento, o que faríamos se fossemos bons, atrevo-me a dizer que é esta a minha ética: virar costas ao inimigo.

#001224 – 09 de Janeiro de 2023

Kelly Slater na água. Quem me dera envelhecer assim.

#001223 – 08 de Janeiro de 2023

Férias que se aproximam. Bicicleta pronta, corpo lento, pesado e magoado. Muito sol, algum frio, fome de silêncio e pedal.

#001222 – 07 de Janeiro de 2023

“Nude” dos Radiohead dá uma tareia à minha tristeza, deixa-a mais mansa, cansada, tenra, pronta a ser deglutida, como entrada da alegria.