o náufrago

mensagens na garrafa

Tem dias em que o corpo treme, os olhos fervem, a pele arde. O que em um dia normal lhe faria rir, em dias como esses, irrita e vira motivo para desabar em lágrimas, virar fera. Achar que está no lugar errado, na hora errada, mesmo no colo da mais doce das amantes. A última gota de paciência tem que ser racionada para chegar ao fim do dia... e é bom que durma bem cedo, antes que você se transforme no pior inimigo de quem mais ama.

Basta vê uma janela entreaberta, escape por ela. Todos temos janelas dentro e fora; Banhos são recomendados. Regar o corpo, usar a água para secar a umidade da alma; Perfumes suaves; Música baixa; Meia-luz; Bocejo; Sonho.

Então Fausto, decidiu? Essa é a hora. Não dá mais pra adiar. Metade da vida já passou e foi do jeitinho que você quis, uma mamata! Fora os imprevistos.... Não vem dizer que os imprevistos são maiores que o resto, essa eu não engulo. tem que decidir agora. Não tava aí um dia desses tendo vertigens, dizendo que não tem nada pra decidir?! Pois agora tem, e quer falar a verdade, sempre teve, só que você preferiu deixar rolar... Isso é a sua cara Fausto! Você anda muito folgado mesmo. Esqueceu que o mundo é coletivo? Logo você, o craque dos discursos bonitos, cheios de floreados! Faz-me rir, aguenta o tranco, caramba. Aquele tratinho chinfrim que você fez com o tal de Mefistófeles, de nada lhe valeu. Você não cumpriu nenhuma das etapas do trato, como eu esperava. Tem um coração bom demais pra ser explorador, magnata, empresário, essas coisas que o diabo gosta. Eu proponho um caminho mais árduo, que acha? Árduo, mas simples. É assim, você só precisa terminar tudo que um dia começou... e se tudo correr bem, no final da vida estará do lado dos seu seus netos e quem sabe, fará uma viagem de cruzeiro num navio cheio de bingos divertidos e jazz de segunda categoria. Pois é, Fausto, sempre quis e teve vida mole... menino mimado... hoje mais do que nunca precisa levar umas palmadas, quem sabe ainda aprende alguma coisa da vida. Você acha que tá levando palmadas? Não brinca! Mas não sou eu quem vai te dar essas palmadas. Não sou sádico, ok... só proponho que você conclua, feche os ciclos, e pare com essas reticências sem fim........ tá vendo? Você parece que até quando escreve tem essa feia mania de não pôr ponto final. Eu li seus escritos anteriores, eu vi. Vamos, faça o que todo mundo recomenda... sofra e finja que é feliz, porque até agora você só foi feliz e fingiu que sofreu, salvo os imprevistos... Ah, esses tais imprevistos novamente... tá bom, tá bom, já vi que são muitos, apenas deixe que eles escorreguem sob você, aos poucos aprenderá.... mas a verdade é que, quanto mais argolas se fecharem pra você, menos imprevistos aparecerão. Como é, decidiu? Vou ficar martelando pra não esquecer, tá bom. Afinal, consciência é pra essas coisas! E sabe, sempre que precisar de calor, pode resguardar-se sob as asas de seu anjo, que apenas espera o teu beijo quando chega a noite...

…nas mãos o 162 dourado gravado no chaveiro do quarto vagabundo, de um amor mais vagabundo ainda. Agora, tarde demais. E não tem essa de desistir com desculpa esfarrapada… Ela pressentia, depois tava tudo perdido… já até podia imaginar as conseqüências em um futuro próximo… Encontros secretos, torpedinhos, beijinhos na boca, uns bons amassos, muito charme investido só podia dar nisso… cama! Mas nem era o primeiro desejo, digo, o foco principal, porque de santa não tem nada. Sabia que o cara não prestava, mesmo assim pagou pra ver… e pô, sexo é bom, faz bem, o problema é depois… é um investimento cego, arriscado… sabia usar bem as táticas que fazem os homens desviarem o caminho, confiava nisso…. Mesmo se ferrando seguida vezes, ferrando outras tantas… paixão …” tem coisa melhor?” pensou… melhor, não pensou… “então vamos nessa!” Depois de uma estranha sequência de deliciosos acasos, juntos novamente… só podia acabar assim… arriscou… não sabe as outras, mas aquela noite estava salva. A luz apagou…

Gosto de acabar as coisas um pouco antes do fim e amanhã começar tudo de novo, um pouco diferente...

O melhor mesmo é a parte do meio, o meio e o seu “ao redor” ...

Na cama sonolenta, vira para o lado, nua. Olha para o teto vazio Quase desmaia…

Arisca, sussurra que me ama. impulso de desejo descontrolado. Isenta de astúcia, sorri aliviada e dorme mansa

Deitada, quieta, você sonha doce. Descansa do amor, respira lento Acolhe meu carinho com talento.

Eu, assisto meu sopro nos pelos do teu pescoço, correntes de ar vagabundas, que retornam perfumadas de alegria

Sob minha mão, uma pele queima. Treme, como se um mar agitado, preso no corpo, pedisse socorro. Dos seios, molhados de suor, emana um vapor que sufoca meu rosto, perto, bem perto… Não te reconheço na febre desses olhos sem pudor, enquanto sinto uma boca em brasa me engolir. É areia movediça a ferver e nela me afogo… A cena congelou… Todo o resto evaporou….

quero um longo beijo na boca sem vontade de parar com cheiro de saliva sentir o ar quente das narinas dentes traiçoeiros beijo de lábios oferecidos de língua inquieta e macia que lambuza a alma que molha o corpo beijo que faz o tempo parar como o primeiro beijo que se quer muito e que permanece quando termina…