#001191 – 07 de Dezembro de 2022
Preparo o ano que vem. Novas rotas, caminhos retomados. A bicicleta é um filtro que aplico aos dias que me restam viver. Torna a passagem do tempo algo a saborear.
Preparo o ano que vem. Novas rotas, caminhos retomados. A bicicleta é um filtro que aplico aos dias que me restam viver. Torna a passagem do tempo algo a saborear.
O fim do ano aproxima-se vertiginosamente. E atraso-me no meu diário. Os dias passam mais rápido do que o registo que deles faço.
Aula de RPM. Suor e pulsação elevada. O frio da noite refresca. Sabe bem o silêncio depois de tão intensa tareia de techno. A música de ginásio parece feita em laboratório para me repelir. Que saudades do verão.
Acredito que deus não existe. É uma crença religiosa, supersticiosa, sem fundamento. Sou, continuo a ser, agnóstico. Tal como quando era cristão, defendo que não é possível provar nem a existência nem a inexistência do sobrenatural. Mas o meu ateísmo é irracional. É mais feito de crença do que descrença. Dizer que não acredito em deuses é tão irrelevante como dizer que não acredito em fadas ou animais que falam ou poderes mágicos. A lista das coisas em que não acredito é infinita e tudo o que nela exista tem a mesma irrelevância. Quando digo que sou ateu é porque acredito, conscientemente, depois de muitos anos de introspeção e difícil aceitação de como mudei, que não existe deus, não existem deuses.
Heinz Stücke pedalou 50 anos. Viveu nómada, de bicicleta. Foi adiando o regresso a casa e passou pelos países todos do mundo, várias vezes. Sem GPS nem telemóvel. Escreveu muitas cartas e um longo diário, desde 1962. Fez amigos, mas abdicou de ter uma família. Envelheceu em movimento, habituado a ter poucos objectos e muito horizonte.
A capa não nos permite julgar um livro. Mas ajuda-nos a melhor tropeçar nele, a reparar que há ali páginas para desfolhar, e dentro haverá história, personagens, mundos inteiros. Ou ideias, desafios, indagações, poesia.
A voz da Emma Ruth Rundle foi a melhor coisa que aconteceu aos Thou.
O frio faz sentir a noite como uma membrana gelada, um fluído que o corpo não pode atravessar incólume. Luvas e carapuço. Pés que pedalam como se o fizessem para aquecer, não só para accionar o movimento.
Hoje, revelei no meu emprego que sou bipolar. Nunca o tinha feito, em nenhum emprego anterior. Ultimamente, tem havido mais abertura para se falar sobre doença mental. Sobretudo em relação à depressão, pelo menos no discurso oficial de muitas empresas, há empatia e recursos disponibilizados. Não tenho vergonha nenhuma de ser bipolar, não tenho nenhuma limitação que me impeça de ser produtivo. Tinha, até agora, uma reserva táctica, que me fazia esconder uma parte importante da minha vida. Pensava que essa informação, do lado do empregador, me colocaria um rótulo de inconstante, que poderia ser considerado pouco fiável. Fiz a revelação apenas a colegas. Mas nem isso, anteriormente, tinha feito. Não houve sequer um peso a ser removido. Adiante.
O rio Tinto é menos riacho. O Inverno aumentou-lhe o caudal. Tem corrente, soa a rio. Ao regressar já de noite, espanto-me com a bruma iluminada a candeeiros públicos que se levanta das suas águas. A fotografia que tirei é irreal, escrevo para implicar mais sentidos, mais gestos, nesta memória ainda jovem.