#001201 – 17 de Dezembro de 2022
Só quando estou sozinho é que começo a superar a solidão, que é doença que dói mais quando estou rodeado de pessoas, e cujos sintomas se agravam ao aumentar o ruído.
Só quando estou sozinho é que começo a superar a solidão, que é doença que dói mais quando estou rodeado de pessoas, e cujos sintomas se agravam ao aumentar o ruído.
Cresci a acreditar no potencial do mundo, no meu potencial. Adolescente, desiludi-me com o mundo e comigo. Sobrevivi, com a ideia de que a minha força vinha do que me definia como pessoa, das marcas que a vida me deixou. Desapeguei-me como pude da ideia de que sou boa pessoa, das narrativas em que sou um anti-heroi, em que o mundo me incompreende ou me desafia a enfrentá-lo. Descobri novas formas de solidão ao envelhecer e uma infinita variedade de filosofia, de atitudes. Quase tudo é possível, quase nada desejável e está tudo por inventar. O futuro é o enigma constante, a direção do movimento de quem não desiste. Avanço.
Prefiro as manhãs, embora acordar seja uma violência a que nunca me habituei.
A tristeza é uma ferramenta. Uma lupa de ver em escala de cinzento, uma bússola que aponta para baixo, para não se perder a direção de todas as quedas, um oráculo que responde sempre com sarcasmo e afiada impertinência.
A solidão é um pedaço de mim que aconchego, maternalmente, sempre que me sinto com forças para enfrentar a tristeza.
A lua assim, crescente, faz-me sempre lembrar de um logótipo de uma produtora de cinema. É estranha a força do marketing, que carimbou uma presença no meu imaginário, associada ao satélite do planeta em que vivo. Fico a pensar que falta ali um rapaz a pescar, deitado na lua, a ver se algum desconhecido peixe estelar morde o isco.