#001115 – 19 de Setembro de 2022
A foz do Sousa é luxuriante. Quase escondido está o rio de caudal abundante, entre árvores imensas e muitos tons de verde. Uma selva sem mordomos humanos, é o que ali desagua no Douro.
A foz do Sousa é luxuriante. Quase escondido está o rio de caudal abundante, entre árvores imensas e muitos tons de verde. Uma selva sem mordomos humanos, é o que ali desagua no Douro.
Quase tudo o que me interessa ganha um lugar ficcional na minha cabeça. Para ser mais explícito, se uma ideia me diverte ou intriga, se me surpreende, resumo-a numa premissa para uma narrativa. Muitos contos começaram assim, depois de algo me espicaçar a curiosidade, cristalizou numa semente de história. Tenho um imenso repositório de sementes, convenientemente catalogadas. Algumas plantei e não brotaram, outras deram plantas tortas ou pouco nutritivas. E um número reduzido são as histórias que terminei, revi, deixei de lado, voltei a pegar mais tarde e, depois disto tudo, tentei publicar.
Num mundo em que todos produzem conteúdo, todos publicam, é o leitor a raridade. A pessoa que se detém numa história, que segura nas mãos as páginas da sua desmedida atenção. E que abre espaço dentro de si a todas as possibilidades. Dá-me vontade de escrever um conto em que os leitores, raros e ilustres, se tornaram celebridades, com imensos fãs entre os milhões que publicam.
Subir o Douro. Ir até Crestuma, passar para a outra margem. Descer, ainda longe do mar. A proximidade da água diz que estou a ir bem, que a viagem faz sentido. Teremos peregrinado assim, ao longo dos cursos de água, antes ainda de haver estradas, ou história. Como com outros animais, talvez a repetição do caminho fizesse trilhos, leves marcas na geografia, a indicar padrões.
A maior parte das viagens no tempo, na ficção científica, são descritas como viagens entre sítios distintos. O futuro e o passado são lugares, que convivem com o presente. Esta concepção recorre à ideia de linhas temporais diferentes. Há teoria suficiente na ciência, por exemplo a Interpretação de muitos mundos da física quântica, para alimentar a verossimilhança desta abordagem. É esta forma de pensar que gera espontaneamente a ideia dos paradoxos temporais. Se viajar no tempo fosse entrar numa máquina e sair no futuro ou no passado, isto não aconteceria. Mas estas histórias fazem do passado e do futuro lugares reais, que ainda existem ou que já existem. E por isso o teletransporte para lugares onde estivemos, mais novos, ou onde estaremos, mais velhos, é possível. Segundo a interpretação de muitos mundos, sempre que há escolhas, cada uma se realiza, num mundo diferente. Na ficção isto ajuda a dar uma estrutura teórica aos paradoxos, explorados por exemplo, na comédia Regresso ao Futuro. O título já sugere a teoria. A personagem principal, depois de interferir com o seu próprio passado, coloca o presente em perigo. E as suas peripécias são uma tentativa de restauras as coisas, de voltar à linha temporal de que saiu, para viajar. A ideia de que linhas temporais diferentes, ou mundos diferentes, coexistem é explorada em algumas das séries mais recentes de Star Trek. Versões da humanidade diferente cruzam-se, versões diferentes das personagens conhecem-se e interferem nos respectivos mundos.
As histórias sobre viagens no tempo não são todas iguais. Desde logo, parece-me, a maior parte confunde tempo com espaço. Na maior parte das narrativas o que acontece é que as personagens encontram forma de se teletransportar de um tempo para o outro, muitas vezes mesmo de um lugar específico no tempo, para outro lugar e outro tempo específicos. Lembro que numa das histórias fundadoras sobre viagens no tempo, The Time Machine, de 1895, a máquina de viajar no tempo não teletransportava ninguém. Entrava-se na máquina e o tempo fora da máquina andava para trás ou para a frente. Esta noção sobre viagens no tempo foi retomada no filme de culto recente Primer, de 2004. Mas há poucos exemplos desta forma de pensar no que seria viajar no tempo.
Se removermos os elementos de body-horror, podemos ver o Alien do Ridley Scott como parte de um género dentro do sci-fi. Há muitas histórias assim. Um grupo de astronautas viaja, com todos os constrangimentos de terem de partilhar pouco espaço e de conviver durante muito tempo. As coisas começam a correr mal e, geralmente, morrem todos ou quase todos. Um exemplo excelente do género é o Nightflyers, do George R.R. Martin. A série que adaptou a história começa de forma genial, precisamente com o desfecho típico destas histórias, o caos assassino em que os astronautas se viram uns contra os outros. Toda a história é contada como um grande flashback que explica a cena inicial. Sabemos já para onde a história se dirige e vamo-nos surpreendendo na mesma, talvez ainda mais, porque conhecemos as personagens que na cena inicial estão tão alteradas e antes de tudo correr mal nada fazia prever o horror que se seguiria. Em Alien a ameaça é externa, mas torna o próprio corpo humano terreno de incubação do monstro. Estas histórias todas me parecem ser sobre uma mesma coisa: a claustrofobia. Ou de outra forma, o extremo da visão negativa de que não conseguimos viver uns com os outros, quando os recursos são limitados, o espaço é pouco e tudo depende da estreita colaboração de todos.
Grupos diferentes preparam-se para a guerra e no final, lutam. Assim se poderia resumir a história quer do Game of Thrones quer do Senhor dos Anéis. Talvez aqui se torne evidente o que eu mais gosto na ficção científica. Quando resumimos uma história sci-fi, não é o enredo que fica depois da redução. Não me lembro do enredo do As Intermitências da Morte. Mas resumiria o livro assim: um dia a Morte deixou de matar pessoas. Não me lembro do enredo de O Fim da Eternidade. Resumiria como: um grupo controla as viagens no tempo e evita a todo o custo os paradoxos temporais. Quando penso numa história sci-fi, penso na premissa. No fundo, quando leio a última de frase de uma história, tudo está ainda a começar. Ao contrário de qualquer enredo, que tem os seus picos e um desfecho. Os mundos destas histórias são a personagem principal e não acabam, vivem na imaginação.
Os rios não são caminhos. Fazemos estradas e trilhos para ligar povoações. Túneis e pontes ajudam a fazer travessias que de outro modo seriam difíceis ou impossíveis. Os rios são como veias da natureza, parte de um só sistema, em que a água circula e alimenta a vida toda. A nossa história, como a história de qualquer outro animal está ligada a esta forma de o mundo natural gerar e alimentar vida. Pedalar ao longo dos rios é ter o privilégio de confundir caminhos humanos com o ritmo da natureza. É uma forma bela de me iludir, encontrando uma verdade mais que metafórica.
De comboio pela Linha do Douro, saindo prematuramente em Paredes. E descendo até à foz do Tâmega. Para regressar a casa pelo caminho habitual, Douro abaixo, rio Tinto acima.