Kroeber

#001105 – 09 de Setembro de 2022

De Rio Tinto à Serra de Santa Justa. Descendo até à Foz do Sousa, e depois rio Douro abaixo até subir pela foz do rio Tinto, no regresso.

#001104 – 08 de Setembro de 2022

De Caminha a Valença, rio Minho acima. Descendo por Arcos de Valdevez até Ponte da Barca, para depois descer o rio Lima. Passando por Ponte de Lima e até chegar a Viana do Castelo.

#001103 – 07 de Setembro de 2022

As histórias assombram-me. São menos que fantasmas, gosto da sua companhia. Mesmo as que não terminei geraram mundos, personagens. Nesse espaço imaterial, a imaginação, vivem com pouco, um sonho de vez em quando, algumas linhas. Mais caducam as histórias bem sucedidas, como livros que se fecharam. Esqueço-me dos detalhes, dos nomes das personagens, do final. São as histórias que se atiram ao mundo, ao leitor, que já não são minhas. São estas as histórias que finalmente começam.

#001102 – 06 de Setembro de 2022

Trinta quilómetros de rio. A margem sul do Douro é mais selvagem rio acima. O verde aconchega de encontro à água. O trilho é de invenção humana. Tudo o resto é natureza, até o esforço do músculo e o suor.

001101 – 05 de Setembro de 2022

Não gosto de me escutar. Falo muito, mas a minha voz cansa-me. Incomodam-me: o tom com que falo, demasiadas vezes desligado da intenção; a inútil complexidade das minhas histórias, com demasiado contexto, avanços e recuos no tempo, mini-narrativas a despropósito; a forma intensa como me atiro a um assunto que só me interessa a mim e de cuja especificidade os meus interlocutores não são culpados; a rapidez com que falo; o volume, que me custa a controlar. Quando não falo começa finalmente a escuta que importa: o que me vai dentro. Gosto, também, de escutar outras pessoas e sinto-me imbecil por não as deixar falar mais. Preferia escutá-las a elas, o impulso de falar primeiro e de falar muito é automático, e não encontrei ainda forma de o desligar.

001100 – 04 de Setembro de 2022

Música, bicicleta, sci-fi. Escutar, compor, tocar. Viajar, suar, respirar. Ler, escrever, traduzir. Os ingredientes são por natureza simples. Mas em si não alimentam. É a execução da receita que decidirá a que sabe a vida.

#001099 – 03 de Setembro de 2022

Tenho medo de enlouquecer. Tenho medo que a espondilite piore muito, de cair e ficar numa cadeira de rodas. Tenho medo de ficar com Alzheimer, como outras pessoas da minha família. Tenho medo de perder os meus amigos. Tenho medo de perder prematuramente as pessoas que amo. Tenho medo de perder a esperança, de ficar amargo e cheio de ódio. Tenho medo que os meus sobrinhos recebam como herança um planeta demasiado instável e perigoso, que o seu futuro esteja em risco. Tenho medo de ficar sem dinheiro nem emprego nem casa. Tenho medo da decrepitude do corpo e da intensidade da minha preguiça. Tenho ainda algum medo do escuro. E um medo estúpido de coisas em que nem acredito, como fantasmas. Do medo, tenho cada vez menos medo.

#001098 – 02 de Setembro de 2022

Messa. Sludge e soul e headbang. Acordes como quedas, voz de feitiço.

#001097 – 01 de Setembro de 2022

Unicórnios. Mitos, como sereias. Criaturas fantásticas, de fábulas infantis. Negócio bilionário, ligado ao venture capital. Símbolo nacional da Escócia. Algo tão nítido como um cavalo com um chifre, tem uma elasticidade semântica e simbólica enormes. Talvez seja este o truque: acrescentar o chifre, aonde ele não pertence. Descrever um narval, animal real, é tentar criar a imagem de um bicho mais improvável que um unicórnio. Um unicórnio é 90 por cento cavalo. A imaginação pode usar 100 por cento do seu esforço a calcular a possibilidade de um cavalo ter um chifre, esforço bem menor do que construir mentalmente algo que nunca vimos.

#001096 – 31 de Agosto de 2022

Em 1999, os Paradise Lost lançavam “Host”, um álbum muito próximo de Depeche Mode. Nem vestígios do death-doom que os celebrizou. Na altura perderam fãs, mas ganharam o respeito de muitos. No mundo do heavy metal de há 20 anos, mostrar o lado pop era um ato de coragem. As novas bandas de metal cresceram num ambiente de enorme mistura de influências. Os músicos destas gerações alimentaram a sua fome de música de forma atomizada e através da internet. Cada um se tornou uma mistura única de influências e gostos, em vez de um representante de uma subcultura hermética e fechada. Ainda assim, bandas como os Defhaven conseguiram gerar ódio numa das bolsas de resistência reacionária mais empedernidas, o black metal. Este movimento que desconstruiu, desmantelou mesmo, reinventando, um género, foi muito mal recebido pelos defensores de uma estranha forma de purismo. Defender a pureza do black metal é obviamente uma antítese. Mas estas vozes feridas de orgulho não conseguiram evitar que o género fosse completamente apropriado e misturado com todas as impurezas possíveis, o que gerou música muito interessante, como a de Panopticon. Esta terceira década do nosso século começou já sem as amarras com que muitos queriam, há dez anos atrás, manietar os músicos que se abeiravam do black metal. Não é por isso, escândalo nenhum um álbum como “Infinite Granite” na discografia dos Defhaven.