view#001077 – 10 de Agosto de 2022
Cresci na Figueira da Foz. A norte a Serra da Boa Viagem. O estuário do Mondego a sul. Assim aprendi o mar, como um sítio a que se chega, vindo do interior. Uma praia, um local aconchegado pela geografia, separado do mundo. Gosto destas viagens ao longo do litoral, no gume da fronteira entre continente e oceano. São uma descoberta tardia. Ensinam-me o território, alimentam-me de beleza.
view#001076 – 09 de Agosto de 2022
Vou a Aveiro e regresso rapidamente. Há milhares de pessoas na Praia da Barra. Habituado ao silêncio, esta confusão agride-me. Passo pelas Gafanhas, zona em Portugal onde mais se pedala. A chegada ao Furadouro enche-me de energia e sossego. Ovar é uma base perfeita para férias de bicicleta. Chego, quase como a uma casa. Ao final do dia tomo um banho de mar e pôr do sol.
view#001075 – 08 de Agosto de 2022
Regresso da Praia do Bico. No Furadouro tomo um banho de mar que recompensa os quase 50 quilómetros que pedalei hoje. Perto, um cão aprende o ritmo das ondas. Mergulha atrás de um ser humano, foge esperando ser apanhado. Senta-se, fingindo quietude que a seguir desfaz num ziguezague brincalhão.
view#001074 – 07 de Agosto de 2022
A chegada à Ribeira de Pardelhas é deslumbrante. Estou em plena reserva natural, as aves brancas, talvez garças, são graciosas. Parecem flutuar acima da água, as suas pernas altas invisíveis à distância a que me encontro. Escrevo debaixo de vinha. Trapalhão, virei o café na mesa. Perto, uma criança mimada queixa-se ao pai numa voz americana nasalada. O pai responde-lhe com inglês de forte pronúncia portuguesa. Até estes sons, e o rumor das pessoas dentro da taberna, e o motor de uma inesperada avioneta que sobrevoa o local, me agradam e acalmam.
view#001073 – 06 de Agosto de 2022
O último ano teve um ritmo alarmante. Trabalho até à exaustão. Passo férias como se estivesse no paraíso. Não me faz bem tentar encontrar, entre o céu e o inferno quotidianos, energia e tempo para escrever. Penso que associar a escrita às viagens de bicicleta é a minha melhor hipótese de sanidade e realização.
view#001072 – 05 de Agosto de 2022
A Rua da Floresta tem um nome bonito e é encantadora. Ali a Cicloria foi criada por pessoas que gostam de pedalar. A via serpenteia entre as árvores, salpicada de caruma, com trechos em passadiço de madeira. De Esmoriz a Ovar, a paisagem é convidativa, o caminho bom.
view#001071 – 04 de Agosto de 2022
Diz David Graeber que a nossa concepção de liberdade vem do direito romano. Em vez de definirmos liberdade como a capacidade de estabelecermos relações mútuas com outras pessoas, pensamos de forma análoga aos direitos de uso, fruto e abuso, fundamentos da ideia romana de propriedade. Sermos livres, nesta triste e habitual abordagem, é sermos senhores de nós próprios e escravos de nós próprios. É algo que existe no absoluto, que nos transforma radicalmente em objectos (de nós próprios) e que não assenta na rede de relações humanas que nos são naturais.
view#001070 – 03 de Agosto de 2022
Regresso a Graeber. Em frente ao mar leio sobre a liberdade. O antropólogo salienta a estranheza da ideia de a liberdade se possuir e, por isso, se vender (na escravatura) ou alugar (no trabalho assalariado).
view#001069 – 02 de Agosto de 2022
Juncos e dunas, uma súbita ponte em arco. Buracos na madeira do passadiço. Pedalo com gentileza, o som ainda assim a fazer estardalhaço. A Barrinha de Esmoriz faz-me lento, mais atento.
view#001068 – 01 de Agosto de 2022
Manhã encharcada de maresia. O nevoeiro de Agosto a suavizar as cores e a temperatura.