#001007 – 01 de Junho de 2022
Uma viagem de bicicleta por mês, nem que seja um fim-de-semana. Passar os próximos anos a pedalar através de Portugal. Ir aumentando as distâncias, reduzindo o lastro e o peso do corpo.
Uma viagem de bicicleta por mês, nem que seja um fim-de-semana. Passar os próximos anos a pedalar através de Portugal. Ir aumentando as distâncias, reduzindo o lastro e o peso do corpo.
Regresso à música. É um processo difícil. Ainda mais às escuras que a escrita. Procuro não sei o quê. Encontro o que não procurava. Desisto do que me agrada. Reconfiguro os falhanços. Demoro muito a erigir um castelo de areia. E depois de o registar, esqueço-me de como o construí.
Pedalo, próximo do curso dos rios, das circunstâncias geográficas, da lentidão persistente da paisagem. Procuro já novas distâncias.
O dia do regresso é o mais exigente. O despertador toca às 5h30, mas quando me levanto da cama são quase 7h00. Consigo ainda evitar algum do calor. Há uma subida de 500 metros de elevação no início e outra de uns 250. Levo 2 litros e meio de água. Habituei-me a pensar assim, nas coisas práticas, no imediato de comer e beber, na gestão do esforço, no aproveitar de uma sombra depois de alguns quilómetros ao sol. Foram quase 4 horas a pedalar, com muitas pausas. Venho cansado e com a noção de que uma parte da minha vida, importante, se inaugurou.
Pedalo de uma a outra ponte, rio Lima acima. Está calor, há muita sombra. Se deixo de ver o rio, continuo a escutá-lo. Há corvos, milhafres, rãs, um coro de insectos. Os pensamentos são mais lentos, o esforço congrega a atenção. O repetir de movimentos, a simplicidade do objectivo, a beleza verde e intenso à minha volta, são uma forma de perfeição material.
Encosto a bicicleta na ponte. Aproxima-se um homem com um cajado, João é o seu nome, dir-me-á. Diz-me que aquele rio é o Trovela. Conversamos um pouco, a escutar o Trovela desaguar no Lima. Conta-me que já desceu desde a nascente até ali, onde estamos, uma caminhada das 10 da manhã até às 9 da noite. Pergunta-me de onde venho. Brinca, questionando se a garrafa tem vinho. Digo-lhe que é água e rimos. Parte, com o cajado a ajudar-lhe os passos. Estou já perto de Ponte de Lima. Está muito calor. Daí a pouco estarei a tomar um banho. Volto aos pedais, cansado e tão feliz que nem me apercebo disso.
Ontem o estrondo do mar. Hoje o rumor das árvores na margem do rio. De Seixas a Gondarém, pedalo num silêncio de pássaros.
Os kite-surfers falam espanhol. O Monte de Santa Tecla tem nome português. O vento não tem nacionalidade. Nem o mar.