Kroeber

#001017 – 11 de Junho de 2022

As muralhas precisam de umas centenas, ou mesmo milhares, de anos para ganhar charme. Cresce a erva, aparecem flores, aqui e ali mesmo uma árvore teimosa. Tudo fica coberto de vida, misturado no que é natural e antigo. E fica um vestígio de coisas que reconhecemos arcaicas: canhões e exércitos. Quando vemos a guerra em direto, e o metal das armas reluz, tudo repugna e agride. O tempo é uma terapia lenta, chamamos-lhe história, que se faz já as vítimas desapareceram. Para construirmos a paz, é preciso uma urgência de quem tem tudo a perder.

#001016 – 10 de Junho de 2022

De Vila Praia de Âncora a Valença, o caminho é idílico. Primeiro Moledo, 2km de pinhal já a chegar à foz do Minho. Depois rio acima, pedalando rodeado de beleza e sossego.

#001015 – 09 de Junho de 2022

A vida de um “influencer” intriga-me. Ou melhor, surpreende-me a ideia de que levam uma vida invejável. Sobretudo o estereótipo de que encontraram uma forma de fazer aquilo que gostam mais: um “influencer” que goste de viajar encontrou um modo de se dedicar apenas a viajar. Quando assisto a um vídeo de um “influencer” a fazer uma viagem num local remoto não consigo deixar de pensar na logística de produzir aquilo. Deixar a câmara posicionada para filmar a caminhada de um a outro canto do ecrã e voltar atrás para pegar na câmara e fazer-se ao caminho de verdade, gravar várias vezes uma confidência para a câmara, até parecer autêntica. Sobretudo os vídeos em que alguém faz uma viagem de bicicleta, algo que me interessa de modo muito pessoal, têm algo de paradoxal. Ao mesmo tempo que estes “influencers” dão conselhos sobre como poupar espaço e peso, têm de se preocupar com o espaço e o peso de câmaras, drones, baterias. Eu reconheço que fazem conteúdo com algum interesse para mim. Mas nunca lhes invejaria o papel de produtores de conteúdo. Em tudo o que os vídeos representam, o vídeo é a parte desinteressante. A preocupação em registar os momentos mais belos que se vivem é bizarra. À minha sensibilidade ainda se junta a agressão que seria ter de difundir a minha vida publicamente e ter de depender da avaliação dos que assistem a esse espetáculo público para poder continuar a sustentar-me. A forma mais rápida de eu deixar de fazer uma coisa seria transformá-la num canal de YouTube. Não falo da utilização destes meios digitais como promoção do trabalho produzido. Falo especificamente da difusão da vida como coisa “autêntica”, como “conteúdo real”. Os dias que passei sozinho a pedalar são importantes para mim também porque não se tornaram um espectáculo para o mundo. Como todas as coisas íntimas e importantes, não se “partilham”.

#001014 – 08 de Junho de 2022

No surf, as competições da World Surf League passaram a ter prize money de igual valor para homens e mulheres. Uma das consequências é bem ilustradora: o nível de qualidade do surf feminino deu um salto grande, num curto espaço de tempo. Ver a Justine Dupont numa onda gigantesca e assustadora em Teahupo'o, ver o surf musculado e ágil de Carrissa Moore, ou a criatividade de Johane Deffay é uma vacina contra qualquer tipo de sexismo que desconsidere a capacidade das física das atletas de sexo feminino. E a nova geração, de adolescentes e pré-adolescentes já mostra que se preparam ainda mais frutos desta evolução. As manobras aéreas, o surf em spots como Pipeline, antes considerados demasiado perigosos para o sexo antes considerado como demasiado frágil, as competições como a prova de tow-surf na Nazaré, com homens e mulheres a competir lado a lado, para o mesmo prémio, tudo demonstra uma evidência: a diferença entre o que homens e mulheres conseguem fazer desportivamente é muito menor que a diferença entre os corpos de uns e de outros. E tende para se estreitar ainda mais, desaparecendo.

#001013 – 07 de Junho de 2022

Troveja violentamente. Parece que o céu se rasga ao meio. Sempre gostei deste som, mas desta vez assustei-me. Soou bem perto da minha janela.

#001012 – 06 de Junho de 2022

Num documentário do John Pilger vêm-se vários tipos de protestos contra bases militares dos EUA no pacífico. No final do filme, um destes protestos comove-me. Um velho protesta diariamente, junto ao estaleiro de construção de uma nova base na Coreia do Sul. Avança, como os budistas em peregrinação, fazendo uma vénia profunda a cada passo, ajoelhando-se e deitando-se por terra. Uma artista acompanha-o de cada vez, logo atrás, a coser flores em tecido, em silêncio. Explica a artista coreana que é muito perigoso o que o velho faz, pois de cada vez que se deita no chão, deixa de ser visível aos carros e pode facilmente ser atropelado. Ela acompanha-o para o proteger. Esta solidariedade prática parece-me de uma profunda humanidade. De nada mais precisamos.

#001011 – 05 de Junho de 2022

Ter ainda a maior parte da bibliografia de M. John Harrison por ler deixa-me feliz. Nela, nele, vou descobrindo obras primas uma atrás da outra.

#001010 – 04 de Junho de 2022

Crescer rodeado de montanhas ou ao pé do mar será muito diferente. Eu, que cresci ao pé do mar, habituei-me a uma estranhamente natural intuição do infinito. Imagino, sem nenhum fundamento, que crescer com a presença constante de montanhas ao nosso redor contribua para uma intuição sobre a magnitude do mundo a que pertencemos, talvez até sobre a nossa dimensão. O mar é coisa que não se vê enquanto mar. Não temos, ao pé dele, uma visão da sua dimensão. Estar ao pé do mar é estar ao pé de uma margem que não parece ter congénere. É como se onde estamos começasse algo que não acabará. Já as montanhas, parece-me, têm uma solidez imutável e uma dimensão esmagadora que, por contraste, nos fazem ter noção da nossa pequenez. Ainda assim, talvez uma e outra intuição dependam muito mais de características pessoais, do temperamento, do que da geografia em que crescemos.

#001009 – 03 de Junho de 2022

Uma das maiores influências no sci-fi que escrevo talvez seja inesperada. As histórias de pessoas que conseguiram sair de cultos, de grupos religiosos ou políticos fundamentalistas é uma enorme inspiração. Sobretudo as narrativas de pessoas que já nasceram numa dessas comunidades agressivamente fechadas ao exterior. É incrível que alguém consiga reconstituir a sua ideia do mundo e da humanidade quando a estrutura lógica e emocional que tem é tão intransigente e obscura. Isto estimula a imaginação e faz-me mesmo acreditar na reabilitação de pessoas que parecem perdidas para o convívio com os outros. Se alguém consegue usar uma infância de mentiras e preconceito para articular uma defesa do seu contrário, se alguém consegue usar o fundamentalismo para descobrir a sanidade, então menos coisas serão impossíveis a uma mente humana. Devoro documentários sobre estas vidas, e muitas das histórias que escrevo tem algo disto, alguém que reconfigura a sua vida, aparentemente sem ter os ingredientes necessários.

#001008 – 02 de Junho de 2022

O trabalho de Mike Huddleston em Decorum é deslumbrante. Mesmo sem a escrita delirante e quase genial de Jonathan Hickman, desfolhar estas páginas seria um prazer imenso.