Kroeber

#000807 – 13 de Novembro de 2021

Todos os dias uma sesta. Todos as sestas sonho com o trabalho. Alguma coisa se deve reorganizar na minha cabeça, porque nestes sonhos não há stress. As mesmas coisas mesquinhas e difíceis que acordado me atormentam, a dormir são sonhos suaves, inofensivos. Surpreendo-me.

#000806 – 12 de Novembro de 2021

A pomada cicatrizante foi-me recuperando a palma da mão. Tinha-a por causa das tatuagens. Há-de haver aqui alguma ironia metafórica. Comprei um produto para ajudar à vaidade de modificar o corpo. E agora utilizo o que resta do tubo, na convalescença a seguir a um acidente.

#000805 – 11 de Novembro de 2021

Retomo a escrita, recomeço a dieta, volto ao exercício.

#000804 – 10 de Novembro de 2021

Como Thomas Chatterton Williams, não acredito em Deus, mas continuo a preocupar-me com o que Ele pensa sobre isso.

#000803 – 09 de Novembro de 2021

Segundo Graeber, devemos inventar uma nova economia, baseada na liberdade e no cuidarmos uns dos outros. Escuto-o e lembro-me que morreu. Dói-me muito que não ande ainda por aqui a dialogar com o mundo. Ficam-nos as suas ideias, sementes incómodas e cheias de amor.

#000802 – 08 de Novembro de 2021

Graeber lembra a provocação igualitária de Kropotkin: se todas as pessoas tivessem que ser mineiros, robots-mineiros seriam inventados.

#000801 – 07 de Novembro de 2021

Zizek diz que é mais fácil imaginarmos o fim do mundo que o fim do capitalismo. Graeber diz que o capitalismo não consegue imaginar a sua própria eternidade. Duas impossibilidades: a imaginação e a utopia.

#000800 – 06 de Novembro de 2021

Costela partida, sou animal ferido a arrastar-me pela casa.

#000799 – 05 de Novembro de 2021

Gosto da ideia, improvável, de um futuro próximo em que abdicámos de ter perfis online, avatares sociais, timelines do nosso quotidiano.

#000798 – 04 de Novembro de 2021

Resolver um cubo de Rubick é reconhecer no caos uma estrutura, seguir padrões para regressar a um estado reconhecido. Escrever uma história é levar uma lanterna apontada ao vazio, começar a escutar ecos e ir falando a mim mesmo da minha incompreensão do caminho que estou a seguir. O sentido do que fica escrito não é o ponto de partida, é o objectivo fugaz. Demora muito a encontrar, às vezes anos. E nunca sei se o impulso que me leva a escrever irá ser ainda reconhecível. A história é esta híbrida construção de reconhecimento e desorientação, um edíficio autoreferente e que ambiciona uma muito concreta universalidade. Resolver um cubo de Rubick é treinar a rotina face à confusão. Escrever uma história é habituar-me à vertigem do desconhecido.