Kroeber

#000797 – 03 de Novembro de 2021

Insónia e livros. Para entrar no sono e sair do mundo, lia. Demorava muito a adormecer e, às tantas, a angústia insone deu lugar à ânsia de virar páginas. A infância encheu-se de livros lidos noite dentro. Hoje, o momento de ir para a cama é ainda o momento de ir ler. Alimento futuros sonhos. E chego a pensar que seria quase analfabeto se dormisse bem.

#000796 – 02 de Novembro de 2021

Varoufakis, Zizek e o mixup cube do Oskar van Deventer.

#000795 – 01 de Novembro de 2021

Costela fracturada, dieta de vídeos do Jacobin, mau tempo.

#000794 – 31 de Outubro de 2021

O Inverno desabou como uma cortina encharcada.

#000793 – 30 de Outubro de 2021

Quase não há fotos da minha juventude. Ainda bem. Sinto-me grato pela pouca lenha que restou para alimentar a ávida fogueira da nostalgia.

#000792 – 29 de Outubro de 2021

E se a vida eterna fosse o castigo? Se o tormento dos réprobos fosse observar a humanidade para sempre, em silêncio? Se a recompensa, o descanso eterno dos justos fosse a aniquilação? Os maiores exemplos de optimismo humanista virão das culturas tradicionais que acreditam que os fantasmas dos antepassados estão próximos, são sábios e nos aconselham. É mais fácil acreditar que não aprendemos nada, nunca.

#000791 – 28 de Outubro de 2021

Oito anos depois acerto de novo com a cara no asfalto. A espia do travão soltou-se e atingi o solo com espalhafato chaplinesco. Entre as primeiras quedas, em criança, e a de há pouco, muita coisa mudou. Parece que o tempo desacelera ainda mais, no instante antes do impacto. Muitas imagens e possibilidades passam pela cabeça, e nem o pânico se instala. Sobreviver, uma e outra vez, ensina a corpo a preparar-se para o inevitável, em vez de se abandonar ao pânico. A dor, essa, vem sempre, e as consequências físicas. O medo sereno que sinto agora, como a um fundo emocional, esse medo razoável feito de análise e projeção, vai fazendo ligações dentro de mim, para me proteger no futuro, de riscos estúpidos, sobretudo de riscos desnecessários. Se tivesse as proteções de pulso, cabeça e joelhos dos patins, o que aconteceu teria sido mero susto.

#000790 – 27 de Outubro de 2021

A política é a dança do absurdo. A esquerda desentende-se, cada um agarrando-se ao seu bocado de razão. E os populistas esfregam já as mãos. Burrice ou aceleracionismo, não interessa. Portugal, pela mão dos seus políticos, atira-se para a frente, de cabeça, assim que vê uma parede.

#000789 – 26 de Outubro de 2021

O mar de Outubro gravado na Ponta da Ferraria. Ainda não escutei o som daqueles ondas que atravessaram o Atlântico para se desfazerem na rocha vulcânica. Os ecos daquele litoral destilados em acústica. A minha infância toda naquela espuma, no espaço todo que o som inventa.

#000788 – 25 de Outubro de 2021

Cadeira confortável, vozes reconfortantes. E a boca escancarada, a saliva a acumular-se a caminho da garganta, objectos a abrir-me os lábios, broca a pulverizar o dente, dedos a segurar lábios. Quieto, no dentista, animal ferido que se submete ao humano que o trata. Às vezes, mordo.