Tudo se fotografa e filma e mostra em público. Serve a vida para alimentar a pálida bidimensionalidade do ecrã. Talvez o encantamento seja agora mais imediato. Basta viver em liberdade, com as dimensões todas, a plenitude dos sentidos e nenhuma difusão online. Tudo o que se faça sem registo, sem imagens ou sons, passa a viver na memória, esse terreno onde se semeiam as deflagrações todas da imaginação.
Um gato alterna a atividade com o sono. Um humano infeliz, saltita entre a insónia e a vontade de dormir, entre o desejo do que não se fará e a repulsa em relação ao que tem de ser feito. Sistemas filosóficos inteiros, ideologias, até poemas, são criados para sustentar esta propensão para a infelicidade. E chegamos mesmo a desprezar tudo o que nos pareça imediato e intuitivo, como o prazer e o impulso. Olhamos para uma criança ou um animal com um triste misto de inveja e reprovação.
Se gosto, não se torna rotina. A repetição de algo que gosto é a repetição de prazer, não a sua diminuição. Sou uma criança, a andar de baloiço até anoitecer, num monismo abençoado. Sempre fui assim. Ao ser inconstante, por natureza, é-me natural fazer as coisas de forma diferente, mudar até de forma drástica, abandonar hábitos, cidades, recomeçar muitas vezes. Isso faz com que a repetição seja um luxo, uma raridade. A minha dificuldade é que o que não gosto também não se torna rotina. E por isso o desprazer que me causa não diminui por ser habitual.
Mark Beaumont deu a volta ao mundo em 78 dias, 14 horas e 40 minutos. Atravessou o mundo em bicicleta em menos de 80 dias, pedalando cerca de 16 horas por dia. Uso o Komoot para calcular uma viagem, muito menos ambiciosa, entre Rio Tinto e Atenas, em 100 dias. Parando e dormindo a cada 30km, é possível ligar a casa onde vivo e a casa onde vivi em Atenas. Imagino mesmo que em 365 dias, poderia pedalar um dia e descansar dois. Nesta lenta viagem, uma média de 30 minutos a pedalar por dia, durante um ano, a atravessar 7 países, levar-me-ia a Atenas. Gosto do poder da lentidão, do movimento contrário ao de um recorde. Quando se desacelera tanto que o tempo para chegar é infinito, há, creio, intensa semelhança entre a vida e aquilo que queremos fazer com ela.
Há mais magia na descoberta que no mistério. Ignorar causas é a condição humana, não há nada de esotérico no desconhecimento. Mesmo que seja o desconhecimento de coisas de enorme magnitude, como as leis do universo. Sei quase nada sobre o muito que me rodeia. Mas descobrir algo é ser encantado pela realidade. Mesmo no mais corriqueiro. Lembro-me de quando vi pevides a secar pela primeira vez, em criança. De como percebi que as pevides eram sementes de abóbora, secas e salgadas. Lembro-me de quando toquei o primeiro acorde numa guitarra, de uma posição específica dos dedos sobre as cordas permitir um milagre acústico. Lembro-me da primeira vez que nadei, para orgulho do meu pai, no mar da Figueira da Foz. Lembro-me das tentativas falhadas de fazer pudim, na minha infância, de como fazia ovos mexidos e me achava um alquimista da cozinha só porque eram comestíveis. Lembro-me dos primeiros metros que pedalei sozinho na bicicleta do meu primo, da primeira vez que me pus em pé numa prancha de surf em Viana do Castelo, de aprender a saltar com patins em linha. Olho a linha do horizonte e maravilho-me com o facto de aquilo ser uma ilusão, de não haver linha nenhuma, apenas a curvatura do planeta. Mais me impressiona saber isso do que imaginar estranhezas do outro lado do mundo. Tenho uma imaginação selvagem. Mas é a criatividade, o ato de trazer da consciência para o mundo coisas incriadas, que me arrebata. Na ficção científica gosto de criar cenários onde coisas impossíveis se tornam plausíveis. É esse movimento, do que não existe para a realidade que me seduz, não o contrário. Por isso a superstição me agonia tanto, na sua tendência de pegar no banal e elevá-lo à categoria de inefável.