view#000717 – 15 de Agosto de 2021
A mãe de Bruce Chatwin disse-lhe: o brontossauro era grande demais e por isso não coube na Arca de Noé. Às vezes a diferença entre uma pessoa religiosa e outra, que é religiosa e fanática, é apenas isto: um pouco de imaginação. Um fanático usa todo o seu esforço mental para adaptar a realidade aos seus dogmas, por exemplo à ideia inútil que a Terra tem 5.000 anos. Uma outra pessoa, religiosa, com mais imaginação, inventa uma ponte entre as suas crenças e a realidade. Por exemplo, dizendo que foi Deus o responsável pelo Big Bang. Quando a crença é absolutamente inviolável, entra-se em guerra com a própria realidade e, por arrasto, com a humanidade. Um taliban é um lacaio do medo, um servo do fim da imaginação, usando a expressão da Arundathi Roy.
view#000716 – 14 de Agosto de 2021
Sonho com viagens de bicicleta. Comparo alforges e tendas, revejo rotas. Imagino onde acampar, que direção seguir. A pandemia fez escassear as bicicletas numa altura em que a procura aumentou muito. A minha chega, se não se atrasar mais ainda, em pleno inverno. Esta é a estação do sonho. Com as chuvas, virá o momento do esforço, a recuperação do vigor.
view#000715 – 13 de Agosto de 2021
Um caderno é mais generoso que um ecrã. Dá-me inércia e silêncio. Não interage, não sabe coisas, não diz nada. Não vampiriza os meus neurotransmissores. A sua rude quietude não me empurra nem me conduz. Deixa-se, magnânimo, preencher e sujar da minha tinta. A resistência que oferece ao aparo lembra-me que sou eu que me esforço em avançar. E que escrever é pouco. E quase tudo.
view#000714 – 12 de Agosto de 2021
Não gosto da expressão “a minha verdade”. É esquiva. Dizer que cada pessoa tem a sua verdade sugere tolerância para com formas diferentes de descrever a realidade. Na prática, quando alguém se defende de uma crítica dizendo “esta é a minha verdade”, deixa claro que não tem tolerância em relação à diferença. Isto de possuir a verdade é algo triste. É como ser dono de um terreno em que ninguém pode entrar, ser vizinho de outros terrenos em que não se entra e seus donos com os quais não se discute. Em vez de olharmos para o mundo todo e deixarmos que o mundo todo dialogue connosco, enclausuramo-nos de livre vontade nas ideias que já temos.
Verdade é conflito. Não há de mais polémico que a ideia de verdade. E depende mesmo de um esforço sincero a conquista da lucidez. A verdade, qualquer verdade, só é genuína se for falsificável, se puder ser revista, melhorada ou mesmo abolida. Caso contrário, não é verdade, é um sepulcro da razão chamado dogma.
Se acrescentarmos a este terreno de luta racional a perspetiva individual, não é certeza e monismo que adquirimos, é ambiguidade e refração. São estas posições diferentes em relação à realidade que fazem a verdade, que a conquistam e esculpem. Uma verdade pessoal não é um universo fechado, perfeito e intocável. É um ponto de vista, imperfeito, e que nasceu da influência e vive do confronto com todos os restantes. É o começo de uma conversa, não o seu fim. Uma semente de ideias novas, não um fetiche sagrado.
view#000713 – 11 de Agosto de 2021
A testosterona estimula certos comportamentos. Robert Sapolsky diz que não é, tout court, a violência. O que a testosterona faz é reforçar comportamentos que levem ao aumento do estatuto social. Que se demonstra, em estudos, esta peculiaridade: o aumento de testosterona torna as pessoas mais generosas, se forem colocadas num contexto em que atos de generosidade aumentam o estatuto social. O problema, explica Sapolsky, não é a hormona, é o valor que atribuímos socialmente à agressividade. A testosterona só leva, em alguns casos, a actos de violência, porque, em alguns dos nossos retorcidos sistemas de valores, esses actos de violência aumentam o estatuto social do agressor.
view#000712 – 10 de Agosto de 2021
Fora do comboio um rapaz leva a bicicleta pela mão. Entra na primeira carruagem. Abre a porta e deixa a bicicleta junto à cadeira em que se irá sentar para levar o comboio até ao Porto. É o maquinista.
view#000711 – 09 de Agosto de 2021
O calor é implacável. O verão na montanha tem música alta, vozes a falar francês, suor em abundância. Fico-me pela vila, com receio que perto do rio a algazarra seja maior. Escrevo com dificuldade. A lentidão é inevitável e tolhe-me os movimentos. Penso como quem se afoga.
view#000710 – 08 de Agosto de 2021
How is it that moral obligations between people come to be thought of as debts, and as a result, end up justifying behavior that would otherwise seem utterly immoral?
“Debt: The First 5000 Years”, David Graeber
view#000709 – 07 de Agosto de 2021
Liberdade é a tranquila ignorância do que acontece a seguir.
view#000708 – 06 de Agosto de 2021
A minha mãe disse-me, desejou-me e escreveu-me parabéns. A caligrafia da minha mãe é bonita. Quando eu e a minha irmã éramos crianças, a nossa mãe fazia desenhos e escrevia palavras. Uns e outras com poucos traços, muito belos. Vejo de novo esta caligrafia e acredito plenamente no que a minha mãe diz do aniversariante, que uma vez por ano se faz criança de novo. Quem está de parabéns é a minha mãe e o meu pai. Ajudaram-me a sobreviver à minha fragilidade e deixaram-me crescer, torto em algumas coisas, numa felicidade incompleta e perfeita. Custaram-lhes muito estes anos que passei na Terra. E o universo não vai durar tempo suficiente para eu fazer face à dívida de gratidão que tenho por estas duas pessoas lindas.