Música é dança de escutar. E a dança música corpórea. Não é possível ficar incólume. Pelos ouvidos ritmo e melodia vão direitos ao coração e ao sexo. No movimento de quem dança, até no silêncio há gomos de som.
Lá fora os pneus dos carros soam a molhado. O sol ainda não abriu. O galo canta há horas. Escrevo cedo, antes de trabalhar. Sono em vez de cansaço ao fim do dia. Cabeça lenta, ideias turvas, saudades da cama.
Daqui a muito tempo, não sei se haverá ainda olhar humano a consultar documentos. Como será a recolha, catalogação e seleção de documentos dos futuros historiadores do nosso tempo? Será que haverá uma preferência dos académicos para o passado mais longínquo, cujos textos extantes são raros? Quem se não uma máquina poderá estudar uma época em que tantos caracteres são registados, copiados, reproduzidos, indexados e tantos são mesmo gerados automaticamente? Será que a actual autoficção ganhará um interesse histórico? Como fazer arqueologia se em vez de pó é uma camada de ruído que oculta tudo?
É aqui que tropeço na minha liberdade. Uso concursos para me impor datas. E pego nas deixas que preparei para ir iniciando novos contos. O livro que continuo é o de ontem. E escrevo todos os dias, quantidades semelhantes. Mas aqui nunca sei o que virá a seguir ao cursor inicial. Há impulsos que são confessionais. Outros, como este, que me assolam desde a pré-adolescência: escrever sobre a escrita. Começar a correr no escuro não é forma eficaz de descobrir um caminho. É um primeiro passo para mapear cabeçadas. Escrevo caindo num poço, as palavras unhas aflitas em paredes forradas a musgo, o fundo um ponto final.
O dualismo é perigoso. Vejo o corpo a deformar-se, a ficar perro e a perder agilidade. E a mente continua, agitada e arrogante. Digo assim: o corpo e a mente. Iludo-me com a ideia de que um pode atrofiar sem nenhum impacto no outro. E haverá o momento em que os dois, corpo e mente, nessa unidade que nunca perderam, me chamarão à razão.
Quando a escrita cai como um ovo. E se teme o eclodir que virá. Quando apenas fruto amadureceu. E cada gota de seiva tem ainda nenhuma linguagem. Quando as palavras saem, enxutas, sua asa endurecida.