Kroeber

#000477 – 08 de Março de 2021

Comecei de novo a fazer exercício. O ponto a que cheguei faz com que considere exercício uma simples caminhada à volta do quarteirão.

#000476 – 07 de Fevereiro de 2021

Guitarra. Patins. Bicicleta. Halfbike. Blender. Os poucos objectos que possuía vendi-os antes de regressar a Portugal. Agradam-me os recomeços. E reparar melhor no que me tornei é um exercício duro e gratificante. Os objectos acumulam-se rapidamente. O lastro equilibra o percurso entre a terra e o céu. Carrega-se para depois abandonar.

#000475 – 06 de Fevereiro de 2021

Há quase meio ano que escrevo diariamente. Trinta e seis mil palavras de romance e quatro ou cinco contos acabados e submetidos são o resultado desta regularidade. É bom não perder o contacto com o que estou a escrever. Ao longo dos anos fui-me habituando ao texto curto, porque me foi faltando fôlego. É difícil manter a cabeça acesa, alimentar um mundo onde vivem as personagens que ainda não conhecemos, lidar com as muitas fases que um texto longo atravessa e cortar, cortar, cortar. Um texto de poucas páginas até o podemos escrever de uma só vez. E algo que se acabe numa semana ou duas é razoavelmente fácil de rever. Uma personagem que envelhece ou que simplesmente muda, uma história que atravessa uma geografia, um tom que se quer coerente ao longo dos capítulos, tudo isto me custa. Sou um aprendiz lento. Mas tenho continuado em frente. Felizmente, não publiquei outros livros que acabei nas últimas duas décadas. Pude continuar a falhar, ligeiramente melhor.

#000474 – 05 de Março de 2021

Este é o texto extante. Apaguei muitas vezes coisas desinteressantes e verdadeiras. O cursor pisca e volta atrás em busca do vazio inicial. E recomeço. Sou mau nisto de escrever diários. Num mundo distópico como este, já há meta dados de tudo o que faço. Vir aqui só para tomar nota dos meus passos seria uma redundância imbecil. As minhas palavras são o dedo de uma criança insolente, que insiste em apontar para algo que só no seu mundo de fantasia importa. E entretanto, o mundo e os adultos atropelam-se em coisas gravosas e inadiáveis. Faço ruído, é isso.

#000473 – 04 de Março de 2021

E não existindo, o tempo, ainda assim nos consome.

#000472 – 03 de Fevereiro de 2021

É preciso escrever muito. Para que um espaço se abra, uma frase se ilumine, é preciso escrever muito. É preciso que o acto mecânico não emperre, não ganhe a ferrugem das coisas demasiado conscientes de si mesmas. É preciso escrever todos os dias, desembaraçar os dedos. Muito tempo. E quando nem se espera, uma imagem encontra palavras que não a ofusquem demasiado. Demora tempo, coisa que nem sequer existe.

#000471 – 02 de Março de 2021

Há uns anos atrás escrevia a sonhar. Literalmente a sonhar. Este é verbo tão evocativo que é necessário precisar. Durante um sonho, um sonho literal, sentava-me na cama e puxava do caderno. Os olhos ainda fechados e a cabeça a sonhar, um sonho não metafórico, escrevia. Deitava-me logo a seguir. E geralmente esquecia-me que tinha escrito. Quando me lembrava de pegar no caderno, parte das palavras eram irreconhecíveis. As outras pareciam intensamente simbólicas e arcanas.

#000470 – 01 de Março de 2021

Tenho escutado música de forma mais atenta. Estudo uma banda, tomo notas, esboço perguntas. Perco-me nas discografias, reparo em detalhes nas entrevistas. Recordo-me de coisas dos livros, de conversas. Preparo uma entrevista e depois tudo corre de forma diferente. O outro, o desconhecido, é mistério precioso. E os músicos desconcertam-me.

#000469 – 28 de Fevereiro de 2021

Viver sem medo. É expressão curta e pouco rigorosa. Não deixar que o medo dite decisões. Nem paralise, nem faça filosofia ou ética. Enfrentá-lo. E mesmo assim sem com ele lutar. Enfrentá-lo como olhando uma coisa feia e verdadeira, em mim mesmo. É este o significado das três palavras.

#000468 – 27 de Fevereiro de 2021

Escrevo para viver. Sem este ofício das palavras, até respirar me custaria.