#000447 – 06 de Fevereiro de 2021
Grãos de areia, as palavras. Chama, o desejo de encontrar futuro. Vidro, a narrativa, soprada com o fôlego diário que houver. Sonho ou até medo.
Grãos de areia, as palavras. Chama, o desejo de encontrar futuro. Vidro, a narrativa, soprada com o fôlego diário que houver. Sonho ou até medo.
Queria escrever um cursor a piscar, em vez de texto. Pulsação, apenas.
O meu pai é a minha rocha. As rochas, dizem os sábios, são a melhor fundação para uma casa. E o meu pai, digo eu, é a firmeza que eu, não a tendo, nele encontro. O meu pai não vacila. Nunca precisou de me entender inteiramente ou de aceitar tudo em mim para me amar. Sim, o meu pai é incondicional no amor que me tem. Como uma casa, protege-me e abriga-me e prepara-me para o mundo, mesmo sem grandes discursos. O meu pai é a presença discreta sem a qual a minha vida não seria minha, muito menos vida. O meu pai vive em mim, muito. Sempre.
A minha mãe faz de tudo um mundo inteiro. A perfeição, para a minha mãe, não é uma aborrecida ausência de erros. É antes uma dedicada atenção à forma melhor de fazer as coisas. Cada gesto quotidiano, ingrediente da comida, princípio ético ou palavra vêm desse estudo da vida. A minha mãe é quem me abre o mundo inteiro, como um lugar sagrado e berço do amor. É um céu e um caminho, a minha mãe. Hei-de descobrir sempre no pouco que acerto o muito que a minha mãe semeou.
Mar e Oceano. Qual o maior, qual o que contém, qual é contido? Chamamos Mar a muitas dezenas de extensões de água mais ou menos interiores. Chamamos Oceano ao Pacífico, ao Atlântico, ao Índico e aos dois Oceanos Glaciais.
Os Oceanos são território líquido. Os Mares são extensões com fronteiras bem claras. Um Oceano envolve continentes e ilhas. Um Mar é envolvido pela terra. Num Oceano pensa-se como algo que vai de um lugar do mundo a outro muito distante. E o modo como dividimos estes pedaços maiores da hidrosfera reflecte a forma como pensamos o mundo. À medida que íamos ligando continentes atravessando o mar e cartografando o globo, fomos alterando esta toponímia da água.
Há Mares que são uma subdivisão de outros Mares: o Egeu e o Iónico fazem parte do Mar Mediterrâneo. Outros, fazem parte de Oceanos: O Mar de Bering pertence ao Oceano Pacífico. O Mar dos Sargaços é o único que não tem costa, é uma parte do Atlântico Norte. O Mar Negro é um mar interior que só o Bósforo liga ao Mar Egeu.
Oceano e Mar. É difícil uma definição precisa destes termos. Até dizer que são feitos de água salgada é arriscado, já que o Mar da Palha se situa no estuário do Tejo e mesmo o Amazonas chegou a ser chamado por europeus de Mar Doce.
Mar. Esta é a palavra que parece mais versátil. E a que podemos usar para referir o conjunto de todos os oceanos. Mar é a palavra mais imprecisa e por isso com mais afinidade com o infinito. Quando não vemos a margem ou esta é longínqua, dizemos Mar. Quer estejamos em Creta, Alcochete ou Manaus. Quando a imensidão é imensurável, dizemos Mar. Palavra curta para coisas a perder de vista.
Amanhã um novo início. 2021 começa difícil, mais intenso que 2020. O esforço de sair das paredes que me encerram dias a fio tem-me atirado de volta aos meus amigos, que me respondem com criatividade e trabalhos em colaboração. Obrigado Afonso, por tantos anos de amizade e pelos muitos em que havemos ainda de inventar o nosso futuro.
Cento e dezasseis dias seguidos a escrever ficção. Hoje foram apenas cinquenta e cinco palavras. Dormitava já, depois de muitas horas de ecrã, e levantei-me da cama para cumprir o dever. Demorou muito tempo para ter este automatismo gratificante, esta liberdade positiva: a de me obrigar a trabalhar no que me propus. Regresso à cama, o som das teclas em eco.