#000437 – 27 de Janeiro de 2021
Vou-me deitar com o verso de Radiohead “Just 'cause you feel it, doesn't mean it's there”, agarrando-me a uma almofada e uns farrapos de sonhos.
Vou-me deitar com o verso de Radiohead “Just 'cause you feel it, doesn't mean it's there”, agarrando-me a uma almofada e uns farrapos de sonhos.
Um transgressor aceita a lei. Dignifica-a ao dizer “não”. A uma lei sem ética, um transgressor dá crédito e importância. Uma pessoa livre age segundo a lei da própria ética. Em vez de dizer não, nem sequer aceita da lei capacidade de regular a sua vida. Age como se já nem existisse lei.
Frio, isolamento e internet. Antártida, Atlas, Alfândega da Fé. Dentro de portas espreita-se por janelas chamadas ecrãs. Fora de portas o mundo irrealiza-se. Partilhamos ingredientes para receitas bastante diferentes.
Quando a política se torna interessante, os tempos são perigosos.
Dia cheio. Cansaço bom. O trabalho prende, como âncora, ao chão.
Temporal a fazer estalar as persianas. Ladram os cães. A chuva é um aconchego a lembrar o calor que o corpo reuniu. O vento é um sopro impiedoso, uma banda sonora para o relento gelado, à espreita.
A viola campaniça nas mãos d'O Gajo. A guitarra portuguesa, por Luís Varatojo, n'A Naifa. Mestiçagem ou tradição. Tradição cujo significado é restaurado: transmissão intencional disto e não daquilo, como Tiago Pereira sugere. Salto no tempo, acionar da memória, usufruto guloso. Gajo e Naifa, na sua toponímia de sentido acentuada pelos artigos definidos, são nomes-armadilha. A música num e noutro caso é luminosa e direta. Mas prende o ouvido pelos dialetos que introduz, por caminhos e estilos que são irremediavelmente familiares e bizarros. Como no cinema, para causar estranheza mudam-se coisas pequenas do sítio.
Isabela Figueiredo tem uma escrita límpida, cintilante. Percorre as suas frases uma força animal, uma argúcia emocional intensa e uma feroz intuição em relação à nudez e à crueza da verdade. Como no bom jornalismo, escreve com parcialidade ética e transparente. Como na melhor ficção, troca-nos as voltas aos lugares que tínhamos em comum. Como em alguns ensaios, dá-nos as ferramentas para desenterrar dúvidas e outros tesouros que o preconceito quer fósseis.
As escritas utópicas e de ficção científica lembram-se do futuro, diz George Steiner.