Kroeber

#000417 – 07 de Janeiro de 2021

Trumpismo. Que dentro de alguns anos esta seja uma expressão obscura, indecifrável. Uma breve nota de rodapé. Hoje, no entanto, é tentativa de golpe de estado nos EUA e André Ventura a crescer nas sondagens.

#000416 – 06 de Janeiro de 2021

Estado de emergência. Tirando o genérico dos noticiários, para quem tem a sorte de poder continuar a trabalhar em casa, há uma certa dissonância cognitiva que erode as intuições mais primárias. A linguagem institucional para designar estas medidas de exceção para lidar com crises nacionais é alarmante, sóbria, urgente. Trabalhar em casa de pijama, sair à rua e ver pouca gente, usar máscaras a imitar focinhos de animais, tudo isto tem um sinal emotivo contrário. O confinamento também nos isola das emoções de grupo, entre elas o pânico das multidões. O prolongar desta forma temporária de viver normaliza a distância. As festas que juntam milhares de pessoas, com a sua flagrante desobediência às cautelas e às regras excecionais preocupam-me. Podem ser já um sinal que algumas pessoas sentem falta dessa transgressão, que lhes mostra terem ainda alguma força de afirmação pessoal. Foi aliás este impulso, em si saudável, de resistir a quem nos restringe o movimento, que os populistas como o Trump canalizaram. Estes políticos, de forma criminosa que implicou muitas vidas perdidas, fizeram da atitude perante a pandemia um campo de batalha. A posição mais sensata é também a mais desconfortável: é a aceitação do conflito interior em relação a imperativos maiores que o eu e a convivência com tensões. Nada disto é natural nem deve ser naturalizado. A negação não é uma forma de rebeldia, é uma forma teimosa de cegueira. Em emergência estão milhares de pessoas, as que lutam pela sobrevivência em unidades de cuidados intensivos sobrelotadas, as que perderam o emprego e condições mínimas de vida. Enfrentar este problema de frente é difícil porque à nossa frente temos apenas ecrãs. E um rosto humano e um corpo à distância de abraçar são o imperativo maior de qualquer ética.

#000415 – 05 de Janeiro de 2021

Há um certo conforto em dizê-lo: como é habitual nesta altura do ano, os dias crescem e a temperatura desce. Quase tudo o resto é incerto.

#000414 – 04 de Janeiro de 2021

Assange, pelo menos por enquanto, não será extraditado. É francamente assustador este longo cerco ao fundador da Wikileaks. E a ausência de cobertura jornalística não indicia nada de bom. O motivo invocado pelas autoridades britânicas para a não extradição é de uma hipocrisia criminosa. É o elevado risco de suicídio da democracia que está em causa.

#000413 – 03 de Janeiro de 2021

Os livros são máquinas de sonhar. O motor é a nossa consciência.

#000412 – 02 de Janeiro de 2021

Um voto ainda, para o ano que começa: não vir escrever depois de assistir a um debate político. Vou ali dar banho ao cérebro antes de dormir.

#000411 – 01 de Janeiro de 2021

O pensamento é uma sarça ardente. 2020 levou-me Michael Brooks e David Graeber. Começo 2021 com Graham Harman e Tristan Garcia.

#000410 – 31 de Dezembro de 2020

Je ne voulais pas me raconter. Tristan Garcia não gosta de autoficção. Afirma que esta supremacia do estilo procura uma vitória do sujeito sobre o objeto. Conclui: je veux mobiliser le langage et la pensée pour sortir de moi, pas pour me défendre.

#000409 – 30 de Dezembro de 2020

Perto dos amigos. A distância, em tempos de confinamento, é sobretudo mental. A poucos quilómetros dos meus amigos, continuo longe. Sinto-me mais próximo. Mas este ganho psicológico é ainda curto. O amor dos amigos alimenta-se de abraços. E do riso, do timbre da voz, de todas as vibrações que o mundo físico gera. Não há vacina contra a saudade.

#000408 – 29 de Dezembro de 2020

Emagrecer. Chegar aos 75Kg. Dar-me um prémio: comprar uma Bombtrack Hook. 2021, visto a partir dos meus objectivos, tem boa cara.