Kroeber

#000407 – 28 de Dezembro de 2020

Três dias para mais duas submissões. Um conto para rever e outro para acabar. Os prazos fazem-me bem, dão um horizonte próximo. Preciso de criar mais espaço para o que é longo. Gosto muito de escrever contos. A passagem para o romance continua como um objetivo essencial.

#000406 – 27 de Dezembro de 2020

Dezasseis mil trezentas e noventa e nove palavras. Quase três meses a escrever diariamente. Apenas cerca de duzentas palavras por dia em média. O Stephen King diz que escreve dez páginas diariamente. Em três dias escreve mais do que eu. Ainda assim tudo muda porque habito a história. Não dependo do fôlego. E consigo ver o caminho à minha frente.

#000405 – 26 de Dezembro de 2020

Para David Graeber, ser humano é cuidar do outro. A sua antropologia leva a ideia de Kropotkin de Ajuda Mútua mais longe. O livro “What is Anarchism?” é em si mesmo uma demonstração do que Graeber defende, que a consciência humana, longe de ser simplesmente propriedade emergente individual, é evento dialógico. A conversa com Mehdi Belhaj Kacem e Assia Turquier-Zauberman é algo de belo, a reler muitas vezes. Naquelas páginas acontece o que uma reflexão pessoal não permite: pensar através do contraditório, do desafio e do respeito pelas pessoas que estão em conversa connosco. Ao meditar, lembra David Graeber, é possível estar consciente meros segundos de cada vez. Mas, diz e exemplifica ele, numa conversa é possível estar consciente horas a fio.

#000404 – 25 de Dezembro de 2020

A felicidade das crianças é um elixir, contagia-nos de esperança.

#000403 – 24 de Dezembro de 2020

Dez meses de solidão. Agora a família é um paraíso de rituais e mimo.

#000402 – 23 de Dezembro de 2020

Na família, uma continuidade maior que o eu. Uma relação romântica é um espaço de utopia. Uma família uma estrutura real. E os amigos uma família que se mantém livremente. Sem estas ligações com as pessoas que amo e me amam, seria eu tão frágil que o mundo me arrebataria.

#000401 – 22 de Dezembro de 2020

Pedalar entre as árvores. Há algo de redentor num passeio de bicicleta na floresta. Foi a indústria que permitiu passar-se do velocípede à bicicleta, a metalurgia, a própria industria pesada que gerou a oportunidade. Mas pedalar é algo que nos devolve, com um acrescento de eficiência, à autonomia do esforço e ao contacto direto com o mundo vivo. Poucas atividades como as físicas são assim tão gratificantes. São a extração e transformação de metal que permitem fabricar este veículo movido a motricidade humana. Uma boa pedalada faz acreditar que mais do que fazemos no planeta poderia ser assim: usar a complexidade e a técnica para simplificar a vida e reforçar a autonomia.

#000400 – 21 de Dezembro de 2020

728 dias. Se caminhasse apenas 5 quilómetros por dia, chegaria a Atenas em 728 dias. Dois anos para ligar a pé Rio Tinto à capital Grega. Facilmente. A quantidade ao longo do tempo é fácil de desconsiderar, porque o instante nos parece insignificante. Escrevo há 77 dias seguidos. E avanço, mesmo com poucas palavras diariamente. O meu rumo é feito de páginas. Imagino um caminho escrevendo 728 dias seguidos.

#000399 – 20 de Dezembro de 2020

Apocalipse. Cada história sci-fi tem as suas variações sobre o fim-do-mundo. O que nunca existe é a regularidade do noticiário das 8. Estes tempos de pandemia são ainda outra coisa. Num cenário distópico ficcional clássico, um dos primeiros sinais da ruptura civilizacional é a falta de fontes noticiosas credíveis. A relação com a realidade perde qualquer mediação e entra-se de novo em território de mito e medo, de suspeição e paranoia. O que é novo, e a ficção poderá, com alguma distância, gerar espaço de reflexão, é a coexistência de paranoia e descrença com a normalização institucional. A pandemia acentua esta tendência dos últimos 5 anos de explicar cada vez mais, tendencialmente tudo, com cada vez menos, forçosamente teorias da conspiração.

#000398 – 19 de Dezembro de 2020

Um deus preguiçoso. Zizek fala da física quântica como uma demonstração de que deus desconsiderou as capacidades dos humanos. As incongruências da realidade seriam um caso de preguiça do criador, que achou desnecessário construir muito para além da dimensão do átomo. Diz Zizek, com sentido de humor: apanhámos deus em flagrante.