Kroeber

#000246 – 20 de Julho de 2020

Escrever é também um risco. Fixa-se algo que mais tarde poderá caducar. E nem se escreve a avaliar o futuro. Antes se faz da escrita uma reconciliação (frequentemente sob a forma de conflito aberto) com o passado. Digo isto com risco, pois quero aqui neste texto ir ao que não sei. Parece-me que o escritor imagina para olhar o que foi. E que a sua escrita, se durar, mantém essa característica. Abre, no que é turvo, uma clareira de possibilidades. O futuro talvez seja apenas o repensar, essa revolução das ideias com que víamos o já conhecido.

#000245 – 19 de Julho de 2020

Esquerda e direita, embora úteis, são palavras insuficientes para descrever a política. Não porque não haja ideias claramente de esquerda e outras claramente de direita. São palavras limitadas, porque colocam o pensamento político numa linha. Por isso se fala habitualmente de extremos, de extrema direita e de extrema esquerda. E se pensa que é por estarem muito à direita ou muito à esquerda que algumas pessoas defendem ideias de violência ou de intolerância. O perigo, nesta análise linear, é alguém tornar-se demasiado de esquerda ou ser demasiado de direita. É estranho pensar assim, porque as palavras são posicionais e não uma medida, uma quantidade. Falar assim é uma forma útil de simplificar as coisas. Mas é bastante redutora.

Eu também simplifico, que a política é coisa que já traz complicações suficientes. Faço-o igualmente uma linha, mas não é a da distância a que se está do correto e do errado. Nessa linha de posições políticas a que nos habituámos, são evidentes o centro, a esquerda e a direita. A visualização linear habitual permite escolher a nossa posição e tudo o que se afasta da nossa posição está errado ou extremamente errado. A minha linha tem outra utilidade. Não é como essa, que se assemelha à linha dos números. Na convencional, o zero é o centro político, para a esquerda vai-se no sentido do idealismo e do coletivismo e para a direita no sentido do individualismo e do pragmatismo. Eu descrevo as minhas ideias como um vetor: um sentido a partir de um ponto.

O ponto de partida é uma sociedade aceitável, em que as pessoas possam viver com dignidade e segurança mínimas e com uma certa liberdade partilhada. Chamo a isso social-democracia. E estou precisamente a pensar no cliché dos países Nórdicos, desde os anos de 1970 até ao início do século XXI. É o mínimo, creio, a que uma sociedade pode aspirar. A direção em que penso é a da utopia. Quando maior o afastamento do ponto de partida, melhor, mais livre seria a sociedade, mais criativa e próspera, mais centrada nas pessoas. Não sei, nem me parece possível saber, quanto. Mas julgo aceitável desejar o bom, para todos.

Isto é apenas uma referência. Ajuda-me a organizar as minhas dúvidas. E sei que grande parte das pessoas, mesmo nos países Nórdicos, já não vê aquele modelo de sociedade como um ponto de partida razoável e alguns (num bizarro revisionismo) o ridicularizam ou demonizam. O mundo político atual, coisa estranha e fragmentada, aponta mesmo em sentidos muito contrários ao do meu vetor pessoal, sentidos mais próximos da distopia. Os últimos meses foram de grande desafio para as minhas ideias e tive de repensar muita coisa. Só daqui a algum tempo é que poderei saber como me transformei. Imagino que sou de esquerda e com algum atrevimento até me intitulo anarquista. Mas em que termos é que a esquerda se consegue reinventar não sei. Não sei também como ser anarquista. Há uma tristeza a pairar nos meus dias. Como a de quem vê a bondade quotidiana ser derrotada por um exército. A sociedade é união muito frágil e historicamente houve quem conseguisse reunir pessoas para a destruir. Não sei, afinal, nada sobre o futuro. Consigo para já apenas repetir esta ideia: não é centro a solução milagrosa. Principalmente quando, em tanta coisa, já nos puxaram para um extremo.

#000244 – 18 de Julho de 2020

Um escritor é um inventor de lentidão. Repetidamente, enquanto o mundo acontece à sua volta, se detém num detalhe que não faz sentido. Senta-se e observa o seu espanto. Uma narrativa é o regresso desse temporário inferno, chamemos-lhe labirinto, um caminho em que se deixou um fio para quem deseje ali voltar a perder-se.

#000243 – 17 de Julho de 2020

E se uma forma de consciência emergir numa máquina? Ainda assim mantenho uma distância de estranheza em relação a essa possibilidade, mesmo fazendo o exercício de a imaginar. Uma máquina (aqui a palavra significa apenas software) não terá esta coisa que consegue olhar para os automatismos não sendo precisamente esses automatismos.

Num humano, a consciência funciona como uma perspectiva, uma amplitude de percepção, uma predisposição a acolher o que existe. Não é uma direção ou um conjunto de impulsos, é antes um espaço, uma capacidade difícil de definir. Numa máquina, é o código que dita qualquer iniciativa. E, mesmo havendo qualquer tipo de auto-reflexividade, seria ela própria um automatismo, um processo.

De alguma forma, a metáfora do processamento não é suficiente para descrever a mente humana. Não somos um organismo feito de hardware a executar o software que a evolução vai escrevendo. O problema nem sequer é só mental. Não somos sequer uma coisa que acaba definitivamente à sua superfície, com fronteiras bem definidas. As bactérias com que existimos também fazem parte de nós. E o trânsito molecular entre o que identificamos como nosso corpo e tudo o que está em volta é constante. O ar é tanto do nosso exterior como do nosso interior. Há momentos sci-fi muito interessantes quando se vê um androide no espaço, sem capacete, ou a “acordar” depois de muito tempo debaixo de água. Essa súbita diferença que se evidencia mostra, pela ausência, um detalhe do que é humano. E não é uma questão que se possa reduzir com facilidade. O ar não é um combustível, as moléculas não são peças, as bactérias não são upgrades.

#000242 – 16 de Julho de 2020

Falta uma corda à guitarra. Continuo a tocar e esta nova forma parece-me agora a natural. Concisa, mas não aleijada. Os instrumentos de corda subtraem notas. As que escolhem estão particularmente ligadas. A harmonia é intrínseca ao instrumento. Por isso uma viola é tão apelativa para quem, como eu, quase não tem vocabulário ou técnica musicais. Há uma ilusão, muito doce, de que a nossa intuição nos conduz e tudo a seguir se encaixa, de forma imperfeita e melhor. A melodia surge, como um fio de incenso a descansar subindo, depois de sacudido pela brisa. O ritmo transmite-se ao corpo ou deste parte. E o mais é o instrumento e a sua fala.

#000241 – 15 de Julho de 2020

O imperador estava aborrecido. Nesse dia, ao olhar os seus vassalos, lembrou-se de brincar com o seu poder. Imaginou o alcance dos seus caprichos. Teve uma ideia grandiosa. Iria provar a hipótese dos cientistas da corte, essa imaginada redondeza da Terra. Falou com os nobres que o bajulavam com arte e devoção. Com eles fez o plano, os escrivães desenharam o necessário e a todos os cantos do império se enviaram pergaminhos selados, com o detalhe a cumprir. Os emissários, depois de transmitida a mensagem, ficariam também a assegurar a execução.

Mandou que todos os que estavam sob o seu jugo fizessem uma fila. A pessoa da frente a não mais que um passo da de trás. Tudo estava já preparado de maneira a que a fila atravessasse fronteiras, subisse e descesse montanhas, contornasse os grandes lagos, passando em pontes, desfiladeiros e tuneis. Chamou a isto dominó, como vingança contra o seu pai, que sempre o venceu ao jogo.

Aos portões do Palácio Imperial manteve o silêncio, gozando a antecipação com um grande sentido de propriedade. À sua esquerda e à sua direita se viam filas. Uma sendo a cauda da outra. O próprio imperador era o elo divino a ligar toda aquela gente sem voz nem vontade.

Colocou a grossa mão do seu poder sobre o pescoço de uma camponesa. Ao ouvido da mulher disse, “repete o que te digo: CAI!“. Empurrou-a com as duas mãos, cheio de economia e luxúria. A mulher caiu, e enquanto se amparava com as duas mãos na pessoa seguinte, berrou também ao da sua frente: CAI!. A ordem imperial era passada de um para outro, atravessando o mundo como uma inevitabilidade, uma direção divina. Em menos do que se julgava, começou a ver-se desde as colinas uma pequena ondulação no risco feito de gente. Era um fio, uma corda de gente que tinha sido levemente chicoteada pela terra. O imperador impressionou-se consigo mesmo e ficou ali, aos portões, à espera que a criança na cauda da fila caísse aos seus pés. Veio, aquela transmissão de uma ordem, um presságio já confirmado. E caiu também o imperador, sob o peso de uma criança, debaixo da força de um povo inteiro. Assim acabou o império, ao começar uma ideia simples, vinda do lado menos esperado.

#000240 – 14 de Julho de 2020

A compaixão é mais importante que a empatia. Ambas têm a sua função. Scott Barry Kaufman diz que empatia é sentir o mesmo que alguém e compaixão é sentir com alguém. Robert Sapolsky dá um exemplo perturbador numa das suas palestras no seu curso em Stanford. Para combater a violência policial, um programa pioneiro foi implementado em algumas esquadras nos EUA. Agentes da polícia receberam um tratamento com oxitocina. O resultado foi um sucesso e um fracasso enorme. A empatia realmente aumentou, mas de forma indesejável. Os agentes que tinham recebido o tratamento simplesmente passaram a ter mais empatia com os colegas acusados de brutalidade policial. Infelizmente, esta ciência poderá vir a ser uma arma hormonal militar, para fazer os soldados ainda mais “leais” ao soldado a seu lado e, por isso, mais mortíferos e implacáveis.

A compaixão, que Kaufman afirma acender partes do cérebro diferente, permite-nos algo diferente. Prepara-nos com emoções e instiga comportamentos para transpor o limite das nossas relações mais próximas, do nosso grupo. Por isso é possível sentir compaixão por quem não gostamos. Podemos ser compassivos mesmo com alguém que tenha um comportamento que condenamos. Sentir com essa pessoa não é sentir o mesmo, não é passar a ter o mesmo comportamento.

Os momentos em que sentimos ou recebemos compaixão por alguém com quem há uma ligação empática podem curar feridas profundas. Ou ser mesmo experiências de intimidade espiritual, romântica, instantes de amor mútuo. Mas somos mais que os nossos sentimentos e emoções. Eles não são verdadeiros, não porque sejam mentira. Mas porque não podem ser falsificáveis. Dizer uma verdade é dizer o contrário de uma respectiva falsidade. Mas “estar triste”, “estar zangado”, “sentir-se ofendido”, “sentir-se desconfortável” não tem esse reverso. Não há mentiras emocionais, apenas emoções. As emoções não são legítimas nem ilegítimas. Trata-se de eventos pessoais, não de verdades universais. E é sobre estas últimas que construímos o mundo, que é de todos.

#000239 – 13 de Julho de 2020

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”. O verso de Alexandre O'Neill lembra que um país também não é uma identidade, uma coisa precisa e delimitada. Não só não cabe na letra de um hino e não é contido dentro das suas próprias fronteiras. No poema de O'Neill, é a própria ideia de portugalidade que é posta em causa. “Se fosses só” é a anáfora usada para interpelar todas as ideias de cultura popular, de trejeitos e melancolias, de afinidades e tradições, de memes culturais identificáveis. Não é feita sequer uma pergunta. Há uma incerteza feita de colocar os elementos problemáticos à tona, mostrando que aí se pressente, mas não se identifica Portugal. Uma nacionalidade nem sequer não existe. Seria tão difícil negá-la como defendê-la. É um conflito, em que colapsam a história e a política. Conseguimos ver os elementos da sua construção, mas não há forma de a construir definitivamente.

#000238 – 12 de Julho de 2020

Identidade, palavra feia, é coisa burocrática. Retrato ultrapassado, dissonante. Números e letras num cartão. Descrição sumária e desumanizante. Cadastro. Quem nos pede a identidade é a polícia. Quem nos policia a identidade não é bem-vindo. Quem exibe a sua identidade como distintivo de autoridade, quer ser polícia.

#000237 – 11 de Julho de 2020

A liberdade assusta muita gente. É ideia demasiado vaga e aberta. Algo que queima abrindo um buraco no tecido social, alargando mais e mais a possibilidade da queda. Parte da resistência à ideia de rendimento básico universal é uma reformulação de medos antigos.

Se as pessoas tiverem o que comer, onde dormir, puderem educar-se e exprimir-se livremente, a sociedade colapsa. Quem fará os trabalhos que ninguém deseja? Como evitar um hedonismo infernal, a precipitar o fim de tudo?

Este pessimismo, que se fixa no obstáculo sem refletir suficientemente sobre o percurso, não é só coisa de capitalistas e autoritários. É também um dos antagonismos entre anarquistas e comunistas. O anarquismo funda-se na colaboração voluntária, o comunismo não prescinde da ideia de mobilização das pessoas. É um nó, uma dificuldade bem real, este medo de melhorar.

A noção que temos do ser humano vai determinar os limites em que definimos o social. Mas o social é precisamente esse espaço problemático. Essa zona de conflito e diferença. Isso nem é bom nem é mau. A cooperação só existe porque há indivíduos. Uma colónia de formigas é chamada também de superorganismo. As formigas não têm verdadeira individualidade, por isso não podem constituir uma sociedade.

A utopia não é a transformação dos nossos conflitos num superorganismo perfeito, em que cada humano-formiga é infinitamente feliz. É antes uma ideia muito simples: existe sociedade.