Kroeber

#000256 – 30 de Julho de 2020

É fácil imaginar um mundo sem ecrãs. Um mundo futuro em que o ecrã seja coisa retrógrada. Um futuro futuro, não um primitivismo anti-tech. É fácil imaginar biotecnologia, realidade hiperaumentada, fusão entre a neurologia humana e algoritmos. É fácil atirar para dentro do humano o que agora está à frente, a poucos centímetros. Imaginar uma sci-fi do momento a seguir a esta miopia civilizacional é fácil. O difícil é imaginar um futuro tecnológico que não seja distópico.

#000255 – 29 de Julho de 2020

Ler é criar um mundo dentro. Enquanto lá vivemos, vemos quer a sua construção, quer os seus habitantes. É algo imenso e bastante frágil. A ficção, em particular, deixa à mostra os paradoxos da realidade. É uma forma de acordar que aprendemos sonhando.

#000254 – 28 de Julho de 2020

Aquilo que se ama aprende-se de cor. George Steiner di-lo em Inglês (by heart) e em francês (par coeur). Em português a ligação ao coração não nos é imediata. Explica o mestre em inglês: “for what you love you will want to have inside you”. E ainda “what you have by heart the bastards cannot touch, they cannot take it from you”, premissa da história de Fahrenheit 451.

#000253 – 27 de Julho de 2020

Para Graham Harman, é a arte que nos fala da realidade.

#000252 – 26 de Julho de 2020

A linguagem é um corpo em mutação. Fixa-se o movimento do seu uso. Escreve-se atirando ao futuro o desentendimento presente do que passou.

#000251 – 25 de Julho de 2020

“Il ne faut pas être d'accord avec soi même”. É George Steiner que o diz, quando Lobo Antunes o interpela acerca da sua forma de escrever.

#000250 – 24 de Julho de 2020

Lobo Antunes e George Steiner encontraram-se. Consola-me a sua conversa em francês, a lentidão rouca das suas vozes, a coragem e meiguice daqueles velhos.

#000249 – 23 de Julho de 2020

Autómato é ideia antiga. Pelo menos desde a Antiguidade Grega que se sonha com máquinas que nos imitem, mas apenas o suficiente. Uma espécie de escravos, sem os problemas morais que a escravatura coloca. Servos artificiais. Máquinas que nos substituem nos trabalhos físicos, menores. Desde a Revolução Industrial que a automatização não parou de acelerar. Teve resistência. Luditas e sabotadores, relutantes em deixar que máquinas roubassem empregos.

De uma forma ou de outra, e mesmo independentemente de se gostar ou não da automatização generalizada, acreditou-se que as máquinas fariam o que consideramos “mecânico”. Que a mente humana seria um último reduto, praticamente insubstituível. Nas visões arcadianas, os autómatos fazem tudo o que não é intelectual ou artístico, deixando os humanos livres para essas atividades mais nobres. Nas visões distópicas, o espírito humano é quebrado porque nem os trabalhos precários sobraram e as pessoas perderam lugar na máquina maior, deixaram de ser consideradas peças úteis.

O que não se previu foi esta inversão: afinal as máquinas aprendem mais facilmente a substituir os trabalhos repetitivos que têm a ver com a linguagem. O machine learning, o deep learning e as outras modalidades da chamada Inteligência Artificial alimentam-se do trabalho semântico dos humanos. São parasitas cognitivos. Depois de aprenderem o suficiente fazem o mesmo ou semelhante, sem necessitar de salário ou contrato de trabalho. Quem será difícil de substituir por mais algum tempo é quem faz tarefas físicas complexas, como os canalizadores. Quanto aos artistas, a questão está muito mais em aberto. E depende, por enquanto, ainda de nós humanos. Que papel queremos para a arte, que lugar para os artistas?

#000248 – 22 de Julho de 2020

O darwinismo social é um erro cruel. Pode ser resumido, na sua imbecilidade, na fórmula: o que acontece, seja o que for, deve acontecer.

#000247 – 21 de Julho de 2020

Kafka, Pessoa, Saramago. Cada um deles trabalhou num escritório. Soube o que era usar a linguagem burocrática, passar o dia a escrever lugares comuns, a dizer por muitas palavras coisa nenhuma, a fazer da língua uma forma apurada de incomunicação.

Esse quotidiano, longe de os limitar, talvez tenha gerado ferramentas literárias. A figura do funcionário apanhado nas teias da burocracia é algo que dizemos ser kafkiano. Pessoa, em Bernardo Soares, tem uma espécie de continuação de si mesmo, um ajudante de guarda-livros que Fernando Pessoa explica assim: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afetividade”. Em Todos os Nomes, a personagem principal é escriturário num cartório, que poderá ter sido construído com elementos do tempo que Saramago passou a trabalhar como funcionário público.

Lembro-me destes exemplos e de um outro. Octavia E. Butler, no prefácio a um dos seus livros, conta como durante anos se levantava às 4 da manhã, para escrever, todos os dias. A seguir ia trabalhar como operária numa fábrica. Conta ainda que era livre. Escrevia o que queria. Podia sustentar-se. Chamava a isso liberdade.