#000226 – 30 de Junho de 2020
Barbara Tversky escreveu sobre o movimento. Sobre como o pensamento é influenciado pela cognição do espaço e pela forma de nele nos mexermos. O seu “Mind in Motion” é um bom livro de cabeceira nestes tempos.
Barbara Tversky escreveu sobre o movimento. Sobre como o pensamento é influenciado pela cognição do espaço e pela forma de nele nos mexermos. O seu “Mind in Motion” é um bom livro de cabeceira nestes tempos.
Empírico era um colecionador de factos. Sua mãe, Coerência, tinha-o alimentado a colheradas de curiosidade e sopa de letras. O pai, Impulso, esteve ausente, a trabalhar em coisas mais importantes que a vida familiar. Empírico era um pouco amargo mas muito generoso. Via a sua mente como a um jardim e as ideias como a espécies de plantas com características e necessidades diferentes. Um jardim é um ecossistema gerido pela estética. O pensamento humano, ensinou Coerência ao filho, é local em que as ervas daninhas também tentam vingar. Empírico gostava do silêncio, esse espaço em que os detalhes são mais visíveis. Era um observador, um cuidador do inesperado, um explorador de possibilidades. Os factos, foi descobrindo Empírico, têm uma estranha inércia. Só quando os colocamos em movimento é que ganham sentido. Empírico namorou Liberdade. E de repente o mundo ganhou cor, som, energia.
Snowpiercer é um caso curioso. A série é mais interessante que a BD original e que a adaptação ao cinema.
As ideias são coisas perigosas. Podem mudar-nos a cabeça. No entanto, nenhuma ideia é tão perigosa como a que defende a supressão de ideias. Inferno é não podermos apontar o mal, é ter como obrigação o sorriso e como dever o sim.
Olhar para a dor, observá-la. Usando a atenção, reparando nos detalhes, na intensidade, na localização, na frequência, nas reações que provoca em nós. Esta é uma das técnicas de meditação que ajuda a lidar com a dor. Resulta. Os rins e a espondilite já me fizeram sofrer um pouco, mais do que eu estava disposto a tolerar. Medito com dificuldade, porque a minha cabeça é distraída, agitada e preguiçosa. Ainda assim, resulta observar a dor. Devo muito ao Matthieu Ricard, aos exercícios que propôs em “The Art of Meditation”. Este é um dos meus livros favoritos. O monge introduz a meditação, de forma prática, com citações dos grandes mestres e exercícios que demonstram alguns tipos de meditação. Há no livro duas outras formas de meditar para enfrentar a dor, além desta meditação da atenção. A dor é importante para o Budismo. Esta atitude de olhar para ela, de forma aberta, é algo simples e profundo. Decorre da forma como se olha para o sofrimento. Toda a espiritualidade começa com essa aceitação: o sofrimento existe.
Passados 10 anos, faço uma nova oficina de escrita. Estou ansioso. O tempo é a forma de medir a sombra do passado, o peso da ansiedade. Estou sempre a recomeçar. A minha vida é um terreiro cheio de pegadas confusas, sem rumo, como de uma manada em pânico que não foge.
Em três gerações, tudo mudou. A geração dos meus pais via as ferramentas como algo mecânico. Eu cresci a sentir que interagia com linguagem. No software a que me habituei, o interface é sobretudo semântico, mais ainda que visual. Agora, as coisas acontecem já de forma discreta e automática. A geração a seguir à minha é bastante cibernética. Há uma continuidade entre o eu e a tecnologia que não me é natural, mas que está por todo o lado.
Numa videoconferência, é o software que decide que rosto mostrar e recentemente a linguagem gestual passou a ser reconhecida, de forma a colocar a pessoa sempre visível aos outros interlocutores no ecrã. Há já muito tempo que as câmaras frontais dos telemóveis detetam rostos e ajustam o tom da pele, entre outros “aperfeiçoamentos” automáticos. Os acelerómetros e detetores de proximidade dos telemóveis dão constantemente informação ao aparelho. E nem nos apercebemos que muita coisa se está a passar. Os ecrãs desligam-se, o som ambiente é cancelado, a voz humana é reconhecida. Os nossos movimentos são detetados. Algumas destas funcionalidades são escolhidas pelos utilizadores. Mas outras fazem parte do uso intuitivo do aparelho. Estão lá, mas nem reparamos.
Aqui ficam dois exemplos recentes de como os telemóveis “entendem” o mundo e aumentam a nossa realidade. O Google Lens usa a câmara e consegue identificar objetos, texto, locais rapidamente. Tem um “olhar” semântico que é melhorado cada vez que os utilizadores confirmam que acertou ou errou. A nova versão do iOS terá uma funcionalidade que detecta automaticamente se existe algo importante, como a campainha a tocar, um alarme de incêndio ou outra mudança significativa na realidade fora do ecrã. Assim que é detectada essa urgência, é o sistema operativo que chama a atenção do utilizador.
Isto, a juntar à nossa identidade real, esse gigantesco avatar invisível a cujo acesso não temos direito legal, faz das máquinas nossas babysitters discretas. Mimam-nos em detalhe microscópico, corrigem, antecipam, facilitam, personalizam, lembram, escondem, ensinam. Os gigantes financeiros que produzem esta tecnologia vão reduzindo o espaço para a decisão humana. Fazem-no a grande escala, na política. E à microescala, nas nossas interações com os seus produtos, de forma a que sejamos sobretudo corpos abertos a estímulos e não tanto mentes criativas e imprevisíveis.
Se uma porta automática não se abrir, porque o sensor não funciona, a dor de cabeça a seguir saberemos explicá-la sem dificuldade. Mas na nossa relação quotidiana com o software e os gadgets há inúmeros automatismos que nem sequer reconhecemos e sem os quais, suspeito, nos sentiríamos desorientados.
Um diário lembra a passagem do tempo. Mesmo resistindo a impulsos demasiados biográficos, venho aqui e penso no meu dia. Olho o número que paira sobre o texto e sinto-me obrigado a prestar atenção ao que faço. Esta é a liberdade que prefiro, a de me fazer fazer.
Utopia e distopia são abordagens opostas da mesma posição. A escrita utópica sugere que as ideias boas podem realizar-se numa sociedade humana. As narrativas distópicas revelam o efeito das ideias más.
Uma e outra abordagem combatem o cinismo, esse distanciamento tático que nega que as ideias alguma vez poderão afetar a realidade. Os cínicos são os que acreditam que a realidade é precisamente o que resiste à pressão das ideias, o que não se revela nunca, mantendo-se sempre inalcançável pela ação humana.
O mundo vai impondo, gradualmente, um pragmatismo totalitário. O cinismo atual despreza as ideias colocando-as em prática de forma extrema. Diz que tudo é fake news, enquanto produz fake news. Mas pior que tudo: escarnece das utopias, enquanto estabelece a utopia de alguns sobre os escombros da distopia de todos os outros.
Há os livros que nunca publicarei. São a maioria. A carreira, para usar uma palavra feia, decorre do conjunto das coisas que se publica. Mas o trabalho, para usar outra palavra feia, o trabalho do escritor é o conflito aberto entre as coisas que vive e lê e o que escreve. Muitas vezes se abrevia tudo, ao entrevistar um escritor, e se lhe pergunta porque decidiu escrever certo livro ou porque, em geral, escreve. Quem pergunta refere-se aos livros publicados. Mas a decisão de publicar é muito específica. Escrever, sendo honesto, não é sequer uma decisão. É necessidade, impulso, obsessão. Difícil é não escrever.