view#000216 – 20 de Junho de 2020
Um escritor é apenas uma forma especializada de leitor. Alguém que pega nos livros para olhar devagar o mundo. E que aceita o risco de se transformar por dentro, enquanto lê. E que a certo momento escreve, cuidadosamente, para tomar bem nota das dúvidas com que ficou.
view#000215 – 19 de Junho de 2020
Não, as relações entre pessoas não são transações. David Graeber conta a história de um naturalista canadiano cujo pai, homem de negócios, um dia lhe apresentou o cálculo de todas as despesas que teve para o criar e educar. O que é que fez o naturalista? Pagou a conta e nunca mais falou com o pai. A ideia de poder saldar uma dívida para com alguém importante para nós, diz Graeber, é insultuosa. É o mesmo que dizer que não queremos nada com essa pessoa. Ao escrever estas linhas, recordei uma expressão que o demonstra, com frio rigor, e que dizemos como despedida ou para acabar uma relação: “não te devo nada”.
view#000214 – 18 de Junho de 2020
Em Shaman o frio é quase uma personagem. Quando o protagonista é raptado por uma tribo do norte, passa muito tempo confinado ao interior de habitações comuns. O norte gelado é implacável. O fogo não era a única arma contra o frio. Sobreviver era dormir perto do calor humano. O romance de Stanley Kim Robinson olha de perto para a vida social dos nossos antepassados. Muitos milhares de anos se passaram para que agora uma casa seja o local onde nos refugiamos dos outros, onde nos isolamos.
view#000213 – 17 de Junho de 2020
Prazos, prazos, prazos. Decidir que tenho de acabar uma obra até certa data é bastante herege. É uma crença demasiada em mim, para prejuízo do tempo. Sabe bem, corre mal. Valha-me Beckett: falharei a seguir com mais convicção. E, um dia, melhor.
view#000212 – 16 de Junho de 2020
Como um urso, saio da hibernação desacostumado ao calor. Ao contrário de um urso, ganhei muito peso durante o longo sono.
view#000211 – 15 de Junho de 2020
Γραφή. A palavra grega para escrita lembra-nos que escrever é desenhar. É essa raiz que nos dá gráfico, grafema, grafite. Foi a palavra latina, scriptu, que deu origem a escritura, escrivão e às palavras que usamos: escrita, escritor. A neurologia diz que escrever com caneta ou lápis ativa partes do cérebro semelhantes às que se acendem quando desenhamos. Martelar em teclas é mais eficaz e prático. Mas talvez nos molde com o tempo à função de escriturário. De eficiente funcionário do sentido. Sujar os dedos de grafite, molhar o aparo na tinta talvez seja mais que ritual e melancolia.
view#000210 – 14 de Junho de 2020
A Dulce Maria Cardoso chama a atenção para a obsessão com a realidade. Diz que hoje se valoriza muito mais o autor que fala da sua própria experiência, ou que pelo menos garante que são reais os factos a que se refere. Diz que a realidade, ao contrário da ficção, está presa ao passado. Apenas se pode referir ao que já passou. É a ficção que pode sugerir caminhos.
view#000209 – 13 de Maio de 2020
Estes meses de confinamento têm sido muito produtivos. Para evitar perder o contacto com as pessoas e lutar contra o isolamento, fortaleci laços com os meus amigos, comecei projetos novos e agarrei-me com mais força aos que já existiam. Grupos de escrita, livros em colaboração, música experimental, conversas transmitidas em direto. De segunda a domingo, os dias sãos cheios. São também cansativos e às vezes angustio-me pelo tempo que desperdiço ou por deixar coisas por fazer. Mas voltei a reforçar esta certeza: trabalhar com pessoas de que gosto é a melhor motivação para enfrentar as dificuldades e levar até ao fim uma ideia criativa.
view#000208 – 12 de Junho de 2020
As três primeiras histórias do SABOTAGE#0 estão prontas. Até ao fim do ano, quero acabar duas novelas e um romance. Sou um eficiente auto-sabotador. Surpreendo-me com os obstáculos que construí. Vou adiando o fim atirando-me mais um par de inícios. É uma espécie de complexo de Xerazade: só mais uma história, só mais uma história, só mais uma história.
view#000207 – 11 de Junho de 2020
Para alguns povos da Amazónia, os sonhos são muito importantes. Talvez isso tenha inspirado Ursula K. Le Guin. Em The Word for World is Forest sonhar é uma vocação espiritual. É sonhando que se altera a realidade, que se inventam novos significados para o mundo. Um sonho lúcido é um engenho de transformação.