Kroeber

#000206 – 10 de Junho de 2020

Os calos ajudam. Toco diariamente. A guitarra é o prelúdio da escrita.

#000205 – 09 de Junho de 2020

Traduzir-me é sempre interessante. Na versão em inglês de um conto, encontrei soluções que o original não produziu. Insatisfazem-me os meus textos em inglês, enquanto obras em si mesmas. Mas o processo é muito bom. É a tradução que descobre o que já estava na origem, mas ainda oculto.

#000204 – 08 de Junho de 2020

Shaun Tan faz cinema de ler. As páginas da sua banda desenhada são fotogramas de uma lentidão contemplativa. As suas personagens têm estilo de época e são intemporais. As suas criaturas são bichos e máquinas de encantar. Ponho-me a imaginar que se o Neil Gaiman desenhasse, seria algo assim: uma mistura assombrosa de memória, sonho e infância.

#000203 – 07 de Junho de 2020

A tua voz é uma primavera. Há coisas boas a florir dentro de mim, quando te recordo. Sementes de sonhos, espaço solar. Agitas o meu sossego, como uma criança a fazer nevar uma bola de cristal. Adivinhas-me o desejo, dás-me vontade de ti. Vou-me deitar, como um sonhador desenfreado. Uma criança numa bicicleta mágica, a pedalar ao longo do mediterrâneo. Um Istmo a nascer desde Pireus, onde Teseu regressou e eu parto. Uma ponte feita do impulso de abraçar. Bons sonhos, companheira do meu assombro.

#000202 – 06 de Junho de 2020

The Ill-Made Mute é um livro impressionante. Só mais recentemente, com N. K. Jemisin, encontrei de novo boa fantasia romântica. Cecilia Dart-Thornton escreve histórias longas, com muitas personagens, com influências da mitologia celta, com princesas e plebeus e espíritos do pântano, e paixões com demorada consumação. É este o livro que me fez acreditar, há muitos anos, que existia fantasia para além de Tolkien.

#000201 – 05 de Junho de 2020

Os maus livros fazem parte do percurso. Pré-adolescente, li de uma assentada o Battlefield Earth. É uma história épica, longa e banal. Deu um filme péssimo, que dói ver. Foi John Travolta que o financiou, trazendo para a tela o livro de Hubbard. Quando cresci, vim a saber que este escritor de ficção científica tinha criado uma religião com imenso sucesso. Convenceu muitas pessoas de que os humanos têm implantes. Os fiéis acreditam que algures no caminho que a sua religião sugere merecerão que este engenho extraterrestre seja finalmente removido. A realidade, vários o têm afirmado, é muito mais estranha que a ficção.

Foi na mesma coleção de sci-fi que descobri a Ursula K. Le Guin. Durante muitos anos, Feira do Livro foi expressão sinónima de ir direito às Publicações Europa América e comprar várias destas péssimas traduções, em livros de capas maravilhosamente retrofuturistas.

Há três momentos que reconheço, na minha descoberta da ficção científica. A biblioteca da Figueira da Foz, quando era criança. O processo lento e delicioso de procurar um livro nos arquivos físicos. De procurar o autor, por entre os separadores alfabéticos de papel amarelecido. De retirar a ficha do livro e ir até ao balcão preencher uma ficha de requisição. Antes ainda de ter o livro nas mãos e me sentar, já havia um comprometimento com o livro. Depois, ler era ir sentar-me na sala de leitura e ter uma janela horizontal gigante, como as de Serralves e da Biblioteca Almeida Garrett, e, como em Serralves e na Biblioteca Almeida Garrett, o verde tranquilizador das árvores numa presença viva. Li toda a poesia de Herberto Helder assim, espantado e envolvido em silêncio. Um dia, procurei o nome de Isaac Asimov, encontrei um livro e escrevi os seus dados numa ficha. Era O Fim da Eternidade.

Poucos anos depois, um amigo do meu pai quis impressionar-me. Se eu gostava de ler, ia de certeza gostar muito de ler sci-fi. Não se enganou. Era dele o livro do Hubbard. Mas também me emprestou livros de Phillip José Farmer, de Heinlein e de outros autores que não recordo. Estou-lhe imensamente grato.

E o momento a seguir foi chegar a casa, com os dois volumes da edição da Europa América d'Os Despojados, vindo de uma feira do livro. O lettering do nome Ursula K. Le Guin ainda hoje o conseguiria detetar à distância. Quis ler tudo o que pudesse agarrar dela. E agora, que ela não mais escreverá, leio muito devagar o que me resta. A Ursula K. Le Guin mostrou-me que esta é uma forma de reimaginar o mundo. Ficção e Ciência são as melhores criações humanas. São o que nos narra e modifica. O que altera o universo só por existir.

#000200 – 04 de Junho de 2020

Velocípede. Esta invenção foi uma curiosidade durante décadas. O antepassado da bicicleta não tinha pedais, era extremamente cara e pouco prática. Quando, ainda no século XIX, surgiram as primeiras bicicletas com pedais, eram ainda pesadas e difíceis de fabricar. Foi a revolução industrial que possibilitou a produção em massa da bicicleta e a aproximou do que conhecemos hoje.

Halfbike. Nascida de uma ética de produção local, é feita a partir de Sófia. Ao contrário do velocípede, depende do pedalar para o equilíbrio, tal como a bicla e o monociclo. Um projeto financiado pelos seus fãs, é enviada para todo o mundo. Construída à mão, depende ainda da indústria pesada, que fabrica matérias primas e ferramentas.

Minimalismo, primitivismo, retorno, redução. Os transportes que usam apenas a energia da nossa biomecânica são excelentes símbolos e imensamente saudáveis. Mostram precisamente que o que aprendemos, errando tanto, pode produzir menos e melhor. Vamos ser subversivos, evitar que tudo, até o anti-capitalismo, seja transformado num produto de consumo. Se pusermos os humanos, todos os humanos, no centro, pode ser que o conhecimento que acumulámos não nos enterre em plástico e fumo.

#000199 – 03 de Junho de 2020

Somos violentos. Fazemos sofrer e matamos. O que nos diferencia de outros primatas não é a violência. É o discurso e a ideologia. Podemos pensar sobre o que sentimos. Observar o que fazemos. Refletir, corrigir. Mesmo para aqueles de nós que duvidam do livre arbítrio, é possível ainda acreditar que somos ao menos uma das influências sobre o nosso próprio comportamento. Entre a observação e a ação há um espaço enorme mediado pela biologia, pela consciência, pelo hábito, pela cultura.

Depois vem a ideologia. A forma mais insidiosa de institucionalizar a violência. De transferir a culpa para a vítima. A ideologia justifica, instiga, motiva. Em Minneapolis é legal um polícia pressionar com o joelho o pescoço de uma pessoa já imobilizada. Nos E.U.A é comum a polícia parar, deter, espancar e matar afro-americanos. Sem nenhum motivo a não ser o facto de serem afro-americanos.

Tal como Philip Zimbardo lembrou a propósito das atrocidades de Abu Ghraib, estes agentes da lei não são “a few bad apples”. São a própria mão armada da ideologia. O conforto, a segurança de quem tortura não vem de uma anormal psicopatia. Mas de uma certeza de estar a agir dentro da lei. Este é o terror maior. Um sistema que banaliza o mal. Uma indústria da violência.

Choca-nos a forma como a morte nos chega pelo ecrã. Como durante longos minutos é possível um homem suplicar pela sua vida e ser asfixiado por um polícia, enquanto os outros agentes da lei assistem tranquilos. A empatia com que sofremos não é suficiente. Esta e muitas vidas já se perderam. São irreparáveis o sofrimento e a perda provocados. Milhões de afro-americanos estão encarcerados para alimentar o negócio privado das prisões. Morte ou prisão são as duas ameaças constantes na vida de um afro-americano.

Há que encontrar formas de sair da paralisia e do choque, de formar redes de solidariedade. E unir pessoas e culturas diferentes, como os Black Panther, Martin Luther King Jr. e Malcom X fizeram, em tempos de violência ainda maior. A esperança não é o último reduto. É um dever. Quando o poder se resigna ao apocalipse, há que ter esperança, mesmo sem optimismo, como diz Srećko Horvat. É urgente fazê-lo, porque não somos, ninguém é inocente em relação ao racismo, à violência, à raiva, ao medo do outro. Nenhuma cultura é Arcadia. Só uma urgência comum de nos protegermos e respeitarmos pode construir fundamentos para lutar contra o mal, contra a legitimação do ódio que separa e destrói. E como Martin Luther King Jr., temos de resistir à violência, lutando contra a sua perpetuação, mesmo se suspeitarmos que só as próximas gerações colherão os frutos.

#000198 – 02 de Junho de 2020

Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar.

#000197 – 01 de Junho de 2020

Chove, enquanto se aproxima o Verão. Atenas é uma cidade mítica. Um universo de arquétipos inacessíveis. O confinamento esconde o mundo. Viver numa caverna é pior do que confundir sombras com objetos. Significa que os olhos, treinados pelo escuro, serão magoados pela luz.