#000186 – 21 de Maio de 2020
Late-stage capitalism, dizem os marxistas. Semiocapitalism, diz Franco Berardi. Surveillance capitalism, diz Shoshone Zuboff. Seja o que for, pós-capitalismo não é o que vivemos, nem sequer o nosso horizonte.
Late-stage capitalism, dizem os marxistas. Semiocapitalism, diz Franco Berardi. Surveillance capitalism, diz Shoshone Zuboff. Seja o que for, pós-capitalismo não é o que vivemos, nem sequer o nosso horizonte.
A temperatura subiu num excesso inesperado. A vida entre paredes é mais opaca às estações. A Primavera está já de saída e os dias, lá fora, são grandes. Há máscaras nos rostos, distância entre pessoas. Que período estranho para recordar. Quando nos perguntarem como vivemos estes tempos, nós os afortunados teremos apenas para contar memes e atividades em frente ao ecrã. Memórias que prescindem do mundo. Um evento feito de ausência partilhada.
Impaciência e preguiça. Eis os dois botões que acciono para viajar no tempo, ocasionalmente. Aqui no pequeno universo do meu diário, antecipo ou recupero um dia. Nomeio, como quem diz o nome de uma planta: dezanove, maio, vintevinte.
Puxa-se o horizonte para perto. Como no fio de uma navalha, caminha-se. O aquém e o além de um e outro lado. Hemisférios. Assim me veio a imagem de um título para poemas adolescentes. Nunca me lembrei de explicar a imagem. O horizonte feito uma linha, que se estende para trás e para a frente. E a eminência de uma queda, a espreitar em cada lado da cumeeira. Assim, ficou hermético e absurdo o título, durante anos. Hemisférios do Horizonte.
Leio em voz alta. Escuto as frases que serão lidas. Faço revisão assim, enchendo de português um apartamento ateniense. Conversas em bengali, grego e línguas africanas rodeiam a minha cela de Babel. Acrescento algumas linhas ao livro que me calhou.
As palavras habitam mundos diferentes. A fala, a escrita e o pensamento. Paralelos universos, afiadas interseções. E só se conhece uma palavra pela sua forma de existir tão diferentemente. O significado é essa eletricidade sci-fi. Esse relâmpago catalizador, que nas tempestades abre portais e teletransporta para distâncias impensáveis.
Urgência e leveza misturam-se. Porque o futuro acabou, o agora arde. Os amigos conspiram numa sementeira de beleza. Música e escrita, movimento e luz. Depois de Babel, Depois do Futuro: a Radicalidade do Amor.
A minha curiosidade declarou-me guerra. Constantemente me alimenta de controvérsia. Livre arbítrio. Consciência. Caos. Social e individual. Género. Poder. Há fogueiras dentro de mim. Aprendi que tenho pensamento divergente. Que para cada dificuldade ou obstáculo, lhe vejo as refrações laterais. Cada significado traz inúmeras possibilidades divergentes. Torna-me mais facilmente criativo. Mas dificulta a solidificação de ideias. Continuo a investigar onde está o que não entendo e encontro muito. Sabotador, consigo mesmo desentender o que antes parecia fixo.