Kroeber

#000176 – 11 de Maio de 2020

Progressive International. Hoje começa oficialmente a esperança do mundo.

#000175 – 10 de Maio de 2020

A investigação por vezes é retrospectiva. Depois de descrever a minha experiência mental, escuto John Rogers Searle. Há algumas décadas atrás ele utilizou o argumento, ainda por refutar, que ficou conhecido como a Sala Chinesa.

Searle resume o seu argumento em duas frases curtas. É assim que ele refuta a possibilidade da Inteligência Artificial forte: A sintaxe não é semântica. A simulação não é duplicação.

#000174 – 09 de Maio de 2020

Sugiro uma experiência mental. Chamo-lhe Paradoxo do observador.

Primeiro: o contexo. Relembre-se o Simulation Game, proposto por Turing, conhecido por Teste de Turing. Abreviando muito: num teste cego, um humano tenta perceber se do outro lado está um humano ou uma máquina. A máquina tenta levar o humano a pensar que é também um ser humano. O observador humano faz perguntas à máquina. Apenas o conteúdo das respostas serve para decidir quem está do outro lado. Ou seja, o teste é feito através da linguagem.

Segundo: a hipótese. Considere-se a expressão “e se uma máquina passar o Teste de Turing”. Colocado de outra maneira, “e se o humano do teste não consegue perceber se do outro lado está um humano ou uma máquina”. Será que o Teste de Turing é afinal um teste aos limites da nossa inteligência e não ao limiar da emergência da consciência nas máquinas? Uma forma de o perceber seria remover o ser humano da equação. Se realmente o que está em causa é perceber se uma máquina é inteligente, então vamos usar tudo o que temos ao nosso dispor como ferramenta: uma outra máquina.

Terceiro: a experiência. Coloquemos uma máquina no lugar do observador. Vamos ver o que isto muda.

Quarto: o paradoxo. Aqui, fica tudo confuso. E se a máquina que observa conseguir perceber que do outro lado está uma máquina? Isso não significará que é mais sofisticada que a máquina que está a ser testada? Uma conclusão imediata, muito intrigante, é que a melhor forma de avaliar se uma máquina é inteligente é perceber se consegue descobrir se está na presença de uma máquina ou um humano. Isso implica que a inteligência, afinal, não é enganar um humano (algo que hoje em dia já parece fácil), mas saber distinguir um humano de uma máquina. Ou seja, passar o teste do observador é que eleva as máquinas ao patamar que chamamos inteligência. Mas já tínhamos estabelecido que os seres humanos, sem dúvida inteligentes, são fáceis de enganar. Que isso não mostra nem que a máquina era consciente nem que o humano não o era.

Conclusão: este é pensamento circular, paradoxal. Não encontro forma de evitar a sua armadilha caótica. Esta confusão, em que se perde as coordenadas, mostra-me bem como será confuso, cada vez mais, o mundo cibernético que estamos a criar. Há dois anos atrás, no evento em que a Google mostra os seus novos produtos, o Google Duplex, em direto, ligou para um cabeleireiro e para um restaurante e fez reservas. Os humanos que estavam do outro lado não perceberam que estava a falar com uma máquina e marcaram as reservas. A conversa foi indistinguível de uma conversa entre pessoas, até para quem via tudo ao vivo e sabia desde o início o que estava a acontecer. Falhámos, já, humanos, o teste de turing. Mas curiosamente, os criadores do Watson e do AlphaGo continuam a dizer-nos que estes softwares (que usam machine learning, deep learning e as outras coisas que habitualmente chamamos de inteligência artificial) não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. É fácil para uma máquina derrotar-nos no xadrez, no Go e no Jeopardy sem terem o mínimo de consciência do que estão a fazer. É mais do que evidente que o Simulation Game, de Turing não nos mostra como detetarmos o limiar em que as máquinas se tornam conscientes. Ou sequer perceber se esse limiar já foi ultrapassado.

#000173 – 08 de Maio de 2020

A imaginação é uma ciência exata. Tem o rigor da liberdade e uma energia clara. Em criança, aprendi matemática como numa aventura de pensar. Os professores diziam-me, estes são os números naturais. É um grupo que acontece se contares até ao infinito. Uma vez, durante uma insónia, a minha mãe disse-me para contar até 100. Achei que não conseguia, 100 era tão grande que mais valia ser infinito. Mas comecei. Quando cheguei a mil e quinhentos, a minha mãe pediu-me que parasse. Os números passaram a ser unidades muito pequenas, e o infinito cresceu incrivelmente.

Disseram-me os professores que os números se representam. Numa linha, com zero ao centro, há números positivos e negativos. E se formos espreitando os espaços, há outros números. Os espaços também são infinitos. Só agora sei dizer, com linguagem adulta aprendida aos matemáticos: há infinitos contáveis e infinitos impossíveis de contar. Os mil e quinhentos que eu contei eram o modesto início de um desses infinitos contáveis. Depois dos naturais, os números começam a ter nomes muito bonitos. Irracionais, reais. Os números revoltam-se contra o que é natural, o que se conta.

Fui aprendendo, com os números, as operações que os alteram. E vários professores me avisaram, como a apontar o perigo: não há raízes de números negativos. Disseram-me é impossível multiplicar um número por ele mesmo e obter um número negativo. Mais tarde houve uma professora que nos contou o segredo de afinal se poder inventar números que não existem. Os números imaginários são esses que representamos pela letra i. Construímos a partir de i, a unidade imaginária, números a duas dimensões. São números que vemos num plano, em vez de uma linha. Foi aqui, julgo, que se abriu em mim espaço para uma imaginação de ficção científica.

Há dois ou três dias, décadas depois da pouca matemática que aprendi, cruzei-me com os números surreais. Foram descobertos por John Conway. Descobertos, não inventados, reforça Conway, platonicamente. O nome surreais, diz Conway, gostaria ele de o ter sugerido. Donald Ervin Knuth foi quem primeiros lhes chamou surreais. Foi ao escrever uma história, com a mulher, chamada precisamente “Surreal Numbers”. Knuth tinha guardado um guardanapo de uma refeição com John Conway, em que este escrevinhou os princípios dos números que tinha descoberto, ainda sem nome. E depois quase teve de replicar a descoberta, enquanto escrevia o livro. Não havia ainda artigo científico. E os seus falhanços diários, em replicar a descoberta de Conway, eram os falhanços das suas personagens.

Encanto-me de novo com a matemática, como em criança. Estes números incluem todos os outros e são um conjunto maior que todos os infinitos conhecidos. São suficientes, diz Conway, para nos referirmos a todos os números conhecidos. Uma outra civilização ou espécie, o exemplo é dele, poderia mesmo começar por descobrir os números surreais e a partir daí os grupos neles incluídos, como os irracionais e os imaginários. A notação usada por Knuth para escrever os números parece um alfabeto alíenigena. É bela e simples. Com a matemática, aprendo que há sempre infinitos por descobrir, mesmo no espaço mais ínfimo. E que dizermos impossível é apenas uma forma de assinalarmos por onde descobrir mais coisas no universo.

#000172 – 07 de Maio de 2020

Foi com os livros que me nasceu a liberdade. Nasceu pequenina, como um pressentimento. Tinha uns 7, 8 anos e fui a uma biblioteca infantil. Inscrevi-me e passei a poder escolher os livros que iria ler. Antes ainda de lhes abrir as páginas, o mundo anunciava-se como um espaço menos invisível.

#000171 – 06 de Maio de 2020

O amor é muitas vezes descrito através da sua negação. O sofrimento do amante traído. A violência, quando o ódio irrompe. O desespero, o suicídio. De forma mórbida, quanto mais ausente estiver o amor, mais romântico e belo é considerado. É como descrever as características da água falando apenas da sede. E chegar mesmo a dizer que a água é mais límpida e menos venenosa quanto mais sede se tiver.

#000170 – 05 de Maio de 2020

O mapa vai-se transformando no território. E a seguir ganha supremacia. Digitalmente, é mais real o mapa que o território.

#000169 – 04 de Maio de 2020

A tecnologia deu origem à ciência. E não o contrário.

#000168 – 03 de Maio de 2020

A expressão Inteligência Artificial é uma habilidade semântica. Artificial é palavra que se refere ao fruto da arte humana. Tudo o que é criado por humanos é por definição artificial. Ontologicamente, no entanto, definimo-nos por oposição à ideia de uma entidade artificial inteligente. Uma máquina inteligente é um outro, com peso existencial de sinal contrário. E por isso uma ameaça existencial à humanidade.

É estranha a forma como a expressão se tornou bem sucedida. E o seu triunfo só é possível porque conseguimos pensar uma coisa e o seu contrário, acreditando emocionalmente nas duas. Este duplopensar vejo-o assim: acreditamo-nos separados da natureza. Isso implica por exemplo não aceitarmos a nossa violência como algo natural, tal como a dos animais, antes como uma evidência de como nos separámos da natureza. A isto chamamos Mal. Mas acreditamos também que, na eventual presença de uma Máquina Inteligente, a sua inteligência seria artificial, a nossa consequentemente natural. São as máquinas, o engenho mais afastado da natureza que colocámos no mundo, que nos devolvem a ligação ontológica à “mãe” que abandonámos.

Esto perverso existencialismo tem consequências. Evita-se a reflexão sobre a sombra que o termo Inteligência Artificial projeta: a emergência da consciência em máquinas. Em vez de dizermos “uma inteligência artificial” deveríamos dizer “uma máquina consciente”. Assim ficaria exposta a estranheza de algo que vive na ficção científica e na fantasia mas não tem substância no mundo real ou na ciência. A outra consequência que me tem intrigado é mais devastadora. A própria ciência, confrontada com o chamado “Problema difícil da consciência”, capitula. Em vez de reforçar o esforço de tentar examinar melhor as dificuldades e lacunas que as ciências cognitivas, a neurologia, a psicologia e a filosofia da mente enfrentam, começa antes a sonhar esperançosamente com a Singularidade. Não sabendo o que a consciência é, talvez pudéssemos observar a sua emergência. Este é um impulso religioso, milenarista. Em vez de investigarmos, aguardamos um apocalipse, uma gloriosa revelação.

Assim, às máquinas futuras fica delegado tudo. O poder de nos aniquilar. A solução mágica para problemas que só computação transcendente pode resolver. A decifração das nossas contradições existenciais. O perigoso jogo de dados que decidirá onde nos vemos no universo. Aos escritores de ficção científica, desafios interessantes. Pensar onde estão os espaços fora da convergência para este buraco negro cultural. Que sementes plantar para que a consciência humana continue a ser uma questão que acende o universo. Como expor esta regressão ao dualismo, que agora pega no meme que o derrotou, “ghost in the machine”, como mantra do reducionismo mais delirante. Como continuar a sonhar de olhos abertos para a realidade.

#000167 – 02 de Maio de 2020

O breakdance actual é um delicioso paradoxo cinético. Mestiçagem entre passado e futuro. O skate nasceu do surf, depois influenciou o surf, e a seguir entrou num feedback loop. O breakdance foi um dos progenitores do tricking. E agora, no fim da segunda década do século XXI, uma performance de breakdance é uma visão de um futuro alternativo. No mesmo solo convivem movimentos oldschool, tributo às ruas e à origem da cultura hip-hop, e power moves que vêm da Calistenia e do Tricking. Ser cool é estar em constante corrida contra o Zeitgeist mais efémero. B-Boys e B-Girls ganham a corrida, arriscam, inovam, incorporam, numa constante reinvenção do cool.