Kroeber

#000221 – 25 de Junho de 2020

Passados 10 anos, faço uma nova oficina de escrita. Estou ansioso. O tempo é a forma de medir a sombra do passado, o peso da ansiedade. Estou sempre a recomeçar. A minha vida é um terreiro cheio de pegadas confusas, sem rumo, como de uma manada em pânico que não foge.

#000220 – 24 de Junho de 2020

Em três gerações, tudo mudou. A geração dos meus pais via as ferramentas como algo mecânico. Eu cresci a sentir que interagia com linguagem. No software a que me habituei, o interface é sobretudo semântico, mais ainda que visual. Agora, as coisas acontecem já de forma discreta e automática. A geração a seguir à minha é bastante cibernética. Há uma continuidade entre o eu e a tecnologia que não me é natural, mas que está por todo o lado.

Numa videoconferência, é o software que decide que rosto mostrar e recentemente a linguagem gestual passou a ser reconhecida, de forma a colocar a pessoa sempre visível aos outros interlocutores no ecrã. Há já muito tempo que as câmaras frontais dos telemóveis detetam rostos e ajustam o tom da pele, entre outros “aperfeiçoamentos” automáticos. Os acelerómetros e detetores de proximidade dos telemóveis dão constantemente informação ao aparelho. E nem nos apercebemos que muita coisa se está a passar. Os ecrãs desligam-se, o som ambiente é cancelado, a voz humana é reconhecida. Os nossos movimentos são detetados. Algumas destas funcionalidades são escolhidas pelos utilizadores. Mas outras fazem parte do uso intuitivo do aparelho. Estão lá, mas nem reparamos.

Aqui ficam dois exemplos recentes de como os telemóveis “entendem” o mundo e aumentam a nossa realidade. O Google Lens usa a câmara e consegue identificar objetos, texto, locais rapidamente. Tem um “olhar” semântico que é melhorado cada vez que os utilizadores confirmam que acertou ou errou. A nova versão do iOS terá uma funcionalidade que detecta automaticamente se existe algo importante, como a campainha a tocar, um alarme de incêndio ou outra mudança significativa na realidade fora do ecrã. Assim que é detectada essa urgência, é o sistema operativo que chama a atenção do utilizador.

Isto, a juntar à nossa identidade real, esse gigantesco avatar invisível a cujo acesso não temos direito legal, faz das máquinas nossas babysitters discretas. Mimam-nos em detalhe microscópico, corrigem, antecipam, facilitam, personalizam, lembram, escondem, ensinam. Os gigantes financeiros que produzem esta tecnologia vão reduzindo o espaço para a decisão humana. Fazem-no a grande escala, na política. E à microescala, nas nossas interações com os seus produtos, de forma a que sejamos sobretudo corpos abertos a estímulos e não tanto mentes criativas e imprevisíveis.

Se uma porta automática não se abrir, porque o sensor não funciona, a dor de cabeça a seguir saberemos explicá-la sem dificuldade. Mas na nossa relação quotidiana com o software e os gadgets há inúmeros automatismos que nem sequer reconhecemos e sem os quais, suspeito, nos sentiríamos desorientados.

#000219- 23 de Junho de 2020

Um diário lembra a passagem do tempo. Mesmo resistindo a impulsos demasiados biográficos, venho aqui e penso no meu dia. Olho o número que paira sobre o texto e sinto-me obrigado a prestar atenção ao que faço. Esta é a liberdade que prefiro, a de me fazer fazer.

#000218 – 22 de Junho de 2020

Utopia e distopia são abordagens opostas da mesma posição. A escrita utópica sugere que as ideias boas podem realizar-se numa sociedade humana. As narrativas distópicas revelam o efeito das ideias más.

Uma e outra abordagem combatem o cinismo, esse distanciamento tático que nega que as ideias alguma vez poderão afetar a realidade. Os cínicos são os que acreditam que a realidade é precisamente o que resiste à pressão das ideias, o que não se revela nunca, mantendo-se sempre inalcançável pela ação humana.

O mundo vai impondo, gradualmente, um pragmatismo totalitário. O cinismo atual despreza as ideias colocando-as em prática de forma extrema. Diz que tudo é fake news, enquanto produz fake news. Mas pior que tudo: escarnece das utopias, enquanto estabelece a utopia de alguns sobre os escombros da distopia de todos os outros.

#000217 – 21 de Junho de 2020

Há os livros que nunca publicarei. São a maioria. A carreira, para usar uma palavra feia, decorre do conjunto das coisas que se publica. Mas o trabalho, para usar outra palavra feia, o trabalho do escritor é o conflito aberto entre as coisas que vive e lê e o que escreve. Muitas vezes se abrevia tudo, ao entrevistar um escritor, e se lhe pergunta porque decidiu escrever certo livro ou porque, em geral, escreve. Quem pergunta refere-se aos livros publicados. Mas a decisão de publicar é muito específica. Escrever, sendo honesto, não é sequer uma decisão. É necessidade, impulso, obsessão. Difícil é não escrever.

#000216 – 20 de Junho de 2020

Um escritor é apenas uma forma especializada de leitor. Alguém que pega nos livros para olhar devagar o mundo. E que aceita o risco de se transformar por dentro, enquanto lê. E que a certo momento escreve, cuidadosamente, para tomar bem nota das dúvidas com que ficou.

#000215 – 19 de Junho de 2020

Não, as relações entre pessoas não são transações. David Graeber conta a história de um naturalista canadiano cujo pai, homem de negócios, um dia lhe apresentou o cálculo de todas as despesas que teve para o criar e educar. O que é que fez o naturalista? Pagou a conta e nunca mais falou com o pai. A ideia de poder saldar uma dívida para com alguém importante para nós, diz Graeber, é insultuosa. É o mesmo que dizer que não queremos nada com essa pessoa. Ao escrever estas linhas, recordei uma expressão que o demonstra, com frio rigor, e que dizemos como despedida ou para acabar uma relação: “não te devo nada”.

#000214 – 18 de Junho de 2020

Em Shaman o frio é quase uma personagem. Quando o protagonista é raptado por uma tribo do norte, passa muito tempo confinado ao interior de habitações comuns. O norte gelado é implacável. O fogo não era a única arma contra o frio. Sobreviver era dormir perto do calor humano. O romance de Stanley Kim Robinson olha de perto para a vida social dos nossos antepassados. Muitos milhares de anos se passaram para que agora uma casa seja o local onde nos refugiamos dos outros, onde nos isolamos.

#000213 – 17 de Junho de 2020

Prazos, prazos, prazos. Decidir que tenho de acabar uma obra até certa data é bastante herege. É uma crença demasiada em mim, para prejuízo do tempo. Sabe bem, corre mal. Valha-me Beckett: falharei a seguir com mais convicção. E, um dia, melhor.

#000212 – 16 de Junho de 2020

Como um urso, saio da hibernação desacostumado ao calor. Ao contrário de um urso, ganhei muito peso durante o longo sono.