#002275 – 21 de Agosto de 2025
Uma renovada gratidão pela vida, um abraço de universo a sorrir-me pelos dias adentro.
Uma renovada gratidão pela vida, um abraço de universo a sorrir-me pelos dias adentro.
Este diário (ao ler em voz alta, faça-se aspas com os dedos ao dizer diário), refere por vezes chuva, sol, nevoeiro e cada texto tem uma data como título. Mas é preciso saber sobre o autor que ele começa pelos títulos. A data, num post, é tradicionalmente o rodapé, um “timestamp” a registar com precisão quando aquelas palavras aconteceram publicamente. Nesta página, a data é uma premissa: “escrever um texto por dia enquanto for vivo”. Como sei que falho, tive de interpretar “um texto por dia” como “um texto por dia em média”. E a data deixo-a estar para beneficiar da pressão de ver a antiguidade do título a salientar a dessincronia do meu acto que é diário em média, não de facto. Até vir aqui escrever sobre isso é uma pequena batota. Queixar-me de como estou em falta para com este projecto que durará o mesmo que a minha vida é uma forma de encurtar, com mais um texto publicado, a distância entre a data real de hoje, 9 de Dezembro de 2025, e a data-título.
Pão de leite com manteiga de amendoim, a voz de Liniker, a chuva parou.
Diz Christof Koch que o paradigma vigente e errado, no que toca ao entendimento da consciência, é o “computational functionalism” que vê a consciência como software a correr no hardware que é o nosso sistema nervoso central. Segundo o neurocientista, não existe nenhum teste de Turing para a consciência. O que o teste de Turing mede é a inteligência: quão capaz de se fazer passar por um humano é uma máquina.
Não sei se já escrevi que às vezes sinto que repito muito as ideias que me são mais confortáveis ou naturais. Mas não me surpreenderia, já que repito muito as ideias que me são mais confortáveis ou naturais.
Cinema, chuva, luzes de Natal. Metro de janelas embaciadas, “The Galaxy, and the Ground Within” no Kobo.
Jorge Luis Borges elogiava a língua inglesa por ter, para muitas ideias, duas palavras: uma de origem germânica e outra de origem latina. Segundo ele, “regal” e “kingly” não expressam a mesma coisa. Noutros dos exemplos que dá, temos: “dark” e “obscure”, “holy spirit” e “holy ghost”.
A mim dava-me jeito que o português tivesse outra palavra para dizer explorar (no sentido de procurar, investigar, indagar) que não tivesse o peso histórico do outro sentido da palavra, ligado ao capitalismo e ao colonialismo. Nenhum dos sinónimos que conheço me satisfaz e assim acabo por usar a palavra explorar mas amuado, desiludido com a minha falta de agilidade vocabular.
Na maravilhosa série “Wayfarers” (tetralogia, até ao momento), Becky Chambers mostra que uma sensibilidade de política identitária não tem necessariamente de tornar a ficção estéril e irrelevante. Há autoras como a N. K. Jemisin que, tendo essa sensibilidade enquanto cidadãs, não a transportam para a linguagem dos seus livros. Já Chambers adopta os pronomes mais usuais, que incluem (além do feminino e do masculino) forma de referir alguém cujo género desconhecemos e também alguém cujo identidade de género não cabe numa lógica binária. As narrativas são fluídas, divertidas e exuberantes, como nas melhores space operas. A escrita é despretensiosa mas cintilante.
Ainda assim, é precisamente nestas questões de género que noto a maior fragilidade destes livros. Algo que é mais saliente ainda pelo facto impressionante e raro de estes romances não serem antropocêntricos. A maior parte das personagens são extraterrestres, nem sequer aparentados com os mamíferos do nosso planeta. Por isso é tão estranho ler as palavras homem, mulher, não-binário, para referir seres que não são humanos nem sequer se assemelham a humanos. Se até no nosso planeta há culturas que não fazem esta divisão dos sexos, por que motivo haveriam as espécies de uma galáxia inteira estar alinhadas nesta taxonomia?
Bem mais interessantes são experiências como a de Iain M. Banks, em “The Player of Games”, em que uma espécie de humanoides tem três sexos, todos necessários para a reprodução, ou o exemplo clássico de “The Left Hand of Darkness”, da Ursula K. Le Guin. É verdade que há umas décadas atrás, ao se pensar nestas questões se pensava sobretudo no sexo e pouco na expressão ou identidade de género. Mas sinto que em relação ao género ainda estamos no início da sua exploração pela ficção científica e num momento cultural em que não há sequer muita vontade de explorar, sendo o medo vigente imensamente paralisador da criatividade.
A vida não tem a obrigação de ser plausível, como a ficção. Nem vocação para ter sentido, como os enredos.