Kroeber

#000056 – 11 de janeiro de 2020

Os piratas iam a mando das potências coloniais assolar os mares. Tinham cartas de corso a sancionar o apoio dos reinados. A maior ambição de um pirata era ser reconhecido, ganhar um título de nobreza. A pilhagem era feita ao serviço de um monarca. A certa altura, os estados retiraram esse apoio. E alguns corsários continuaram a lucrativa atividade, agora por conta própria. Ficou esta imagem do oceano como um lugar sem lei onde românticos anti-heróis atacam a rede de influência dos poderes estabelecidos. Esta figura lendária do pirata em busca de fortuna é contraditória, pouco rigorosa e bastante interessante. Os transgressores são quem mais necessita de leis, porque nelas acreditam, o suficiente para obter benefício e satisfação. Este fascínio pelos maus rapazes e raparigas é uma confirmação da lei, um reforço do poder. Diz: estes são os que decidem desobedecer, são os que estão do lado sexy da lei.

A anarquia, por outro lado, não reconhece lei nem liderança. É o estado de civilização mais frágil e potencialmente mais sólido. Uma forma de partilhar liberdade.

#000055 – 10 de janeiro de 2020

Escrever tendo um emprego diurno é ser vampiro. O sol põe-se e saio do sarcófago com apetite pelas coisas vivas.

Durante 92 dias, escreverei 1.900 caracteres por dia. A matemática do futuro é sempre mais exacta que a do passado.

O meu horário não é o do expediente.

#000054 – 09 de janeiro de 2020

Em criança os meus mitos eram cristãos. Intrigavam-me os textos antropológicos. Outros mitos eram apresentados como naturais. Fui crescendo num fascínio por essas narrativas, em que a ciência convive bem com a magia, o sobrenatural, seres invisíveis e crenças improváveis. Malinowski, se recordo bem, fala da magia a propósito do estádio de algumas culturas em que humanos acreditam poder interferir com o mundo natural. A religião é um momento a seguir, outro estádio, em que existe intermediação, sacerdotes invocam o favor dos deuses.

Na ciência, tenho alguma divergência em relação aos novos ateístas. A ideia de que não é preciso acreditar não me faz sentido nenhum. William James demonstrou que acreditar em algo como a água ser H2O é ainda crença. Crença científica, diferente de crença religiosa, mas crença. E é por darmos crédito aos cientistas que abdicamos de aprender química e técnicas de laboratório para podermos demonstrar a nós próprios que é verdade que as moléculas de água têm dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio. O conhecimento humano é cumulativo. E a nossa apreensão desse corpo científico depende também da forma como nos relacionamos com quem vai produzindo hipóteses e teoria. É tragicamente possível não acreditar que a terra é esférica, ou que tem mais de 5.000 anos.

China Miéville, N.K. Jemisin, Neil Gaiman e Ursula K. Le Guin trouxeram-me a magia de volta, como ingrediente de mundos que criaram. A sua é diferente da magia a que se referem os antropólogos. Curiosamente, na antropologia a magia é metáfora. E nas histórias dos autores que me influenciam é algo palpável, real. O fantástico é esse género literário paradoxal em que o impossível é codificado e co-existe com o mundano. E ainda assim, continuamos a identificá-lo como extraordinário. Torna-se saliente, improvável e credível.

Fora dos livros, a realidade. Coisa que, extraordinariamente, também precisa que acreditemos nela.

#000053 – 08 de janeiro de 2020

Grisalho. Cabelo mesclado de branco. Um destes fios de cabelo diz-se cinzento, noutras línguas. Gray, gris, grigi. Em português, dizemos brancas, como a designar lacunas. Um e outro sentido parecem-me bizarros. No desenho, usa-se o branco para assinalar onde a luz é mais intensa. Já depois de finalizar um retrato, o lápis branco anima de luz. Desde adolescente que aguardava este sublinhar luminoso. Que dentro do crânio me cresça algo também, em vez de lacunas ou coisas cinza.

#000052 – 07 de janeiro de 2020

Este é o ano em que comecei a escrever fantasia e BD. Ainda não aprendi a dizer frio ou chuva em grego, apenas sol e água. Falta-me rever a novela em que Atenas é mais personagem que cidade. E aguardo resultados de submissões, percebendo cada vez mais que a espera se combate com mais trabalho. Lembro-me do “The Abolition of Work” e faço uma pesquisa etimológica da palavra trabalho, que me incomoda. Fico horrorizado.

#000051 – 06 de janeiro de 2020

Atiro-me obstáculos. Semeio o caminho de atalhos e labirintos. Antes de escrever o romance, planeio, construo mundos, dou nomes a lugares e a personagens. E escrevo contos e novelas. Tem sido fértil esta forma de auto-sabotagem.

#000050 – 05 de janeiro de 2020

É esta a minha defesa da utopia: Podem as coisas ser melhores? Sim. Então, devem sê-lo.

#000049 – 04 de janeiro de 2020

Dopesmoker, dos Sleep, é para ser escutado de uma só vez. É uma só dose, uma mesma dança, a única noite dos amantes mais derradeiros, viagem com uma única saída. É um álbum que demorou muito a ser publicado. Com uma história difícil e um álbum pelo caminho com nome de terra prometida, que estava aquém das exigências da banda. Escutei Dopmesmoker poucas vezes na minha vida. Gosto de ligar o som desta obra prima no início de uma viagem de comboio longa. De fechar os olhos e me deixar conduzir pelos riffs e pela improvável narrativa de uma mística caravana de fumadores de cannabis pelo deserto, por aquele crescendo que tem tanto de sexual como de trip de intronauta. Dopesmoker é um álbum e é uma faixa de mais de uma hora. Há música tão intensa e cerimonial que só a visito por vezes, como a uma droga demasiado eficaz.

Samothrace é uma banda que veio, gravou algumas faixas e desapareceu. Há tão poucas faixas com aqueles riffs pesados e melancólicos, os licks trágicos da guitarra solo, e aquela voz rarefeita e animalesca que passo anos sem escutar Reverance to Stone ou Life's Trade. Acontece-me isso também com YOB, que vi ao vivo em Atenas. Escutá-las é sentir, mesmo sem me mexer, a intensidade do headbang, desacelerada até quase à imobilidade. Perco capacidades linguísticas e esqueço tudo quando a rudeza melódica e a lentidão de mel a pingar e passos de titã na paisagem me atinge. Há uns anos chamava a isto inner dancing, a essa mão que a música usa para nos pegar no coração, para nos apertar, despertar ou nos embalar e segurar perto do abismo. Estes riffs lentos são o que os fãs de stoner/doom chamam de pesados. E por isso é que um álbum como “The Bees Made Honey in the Lion's Skull” dos Earth, sem um único instante de distorção na guitarra, com uma bateria que quase desaparece, no seu pulsar de coração no peito das músicas, com a delicadeza repetitiva da sua melodia e sem nenhuma voz, é considerado um álbum muito pesado.

Esta intensa dança do íntimo que o stoner metal instiga é introduzida tradicionalmente nas músicas doom pelo feedback da guitarra. Como uma semente de caos, este som é prolongado, antes ainda que as batidas da bateria iniciem o ritmo. Uma estranha estrutura. Começa-se pelo final de um orgasmo, cujos fios de prazer ainda sobem como fumo de incenso. E a seguir a música será lenta, num avanço de lava, toda a força explosiva do centro da terra a captar a nossa atenção, a imobilizar-nos de maravilhamento e espanto.

#000048 – 04 de janeiro de 2020

Escrevo e os zeros vão desaparecendo. Cada zero que desaparece faz com que o próximo, à sua esquerda, seja dez vezes mais difícil de substituir. O último zero é impossível. Fica como ingrediente do futuro.

#000047 – 02 de janeiro de 2020

Um mês e meio de regularidade permitiram-me iniciar, terminar e enviar um conto novo e terminar as 10 mil palavras da minha primeira história passada em Atenas. A cabeça, depois de muitos dias a escrever diariamente, tem um foco com que posso contar. A criatividade resolve becos sem saída e dilemas com mais agilidade quando os dedos, o cérebro e o coração estão habituados a ir ao íntimo buscar o melhor que consigo.

Hoje regresso ao romance.