Kroeber

#000066 – 21 de janeiro de 2020

George Steiner lembra-nos tempos em que ler era contemplação. Em “Lo and Behold, Reveries Of The Connected World” Herzog fala com pessoas que se refugiaram numa localidade completamente desconectada do mundo. Quer em utopias, quer em distopias – que o céu de uns é o inferno de outros –, encontramos visões de uma Terra feita objecto, uma bola de internet das coisas, cada organismo e máquina a fazer parte de uma só rede, um superorganismo mais ou menos inteligente. Ao deixarmos às máquinas a tarefa de unir e ligar, arriscamos uma eficiência que não desejamos. A liberdade e o silêncio, o risco de escutar os próprios pensamentos e de estar longe da ajuda alheia, autonomia e isolamento: estas coisas foram-se alimentando e desafiando umas às outras. Jaron Lanier dizia ao William Gibson, durante a escrita de Neuromancer: Bill, és muito pessimista. É verdade que repetimos o cliché “1984 não é uma manual de instruções”. Mas distopia tornou-se palavra sexy. Big Brother é expressão que há muito perdeu a pesada morbidez que Winston sentia. Quando John Hurt apareceu em ecrãs como a imagem do ditador em “V For Vendetta”, uma geração estremeceu. Mas agora é necessário explicar porquê: em 1984, a personagem de John Hurt vivia num mundo em que os telecrãs (retroneologismo) asseguravam uma vigilância massiva, sem pausas. Era a vítima. Agora que carregamos os ecrãs connosco, a literatura juvenil inventa mundos distópicos como desenhando recreios. A atmosfera sufocante e depressiva das distopias de início de século foi substituída pela abordagem “Uma aventura na autocracia”; “Uma aventura no patriarcado”; “Uma aventura com os senhores da guerra”. Vou ganhando coragem para ir mais atrás, a outros séculos que não o XX. Ao tempo das utopias. Agora, perigoso é sonhar com a bondade ou a justiça.

#000065 – 20 de janeiro de 2020

Falhar melhor soa melhor em português. Fail better soa a plaina a sacar uma lasca de madeira. Já a repetição molhada de duas sílabas, as tónicas no “lh” e no “r” satisfazem o palato. Corrigi trajetória e preenchi 2020 de rumo. Ir é impulso, curto e irrefletido. Chegar é surpresa, derrota de expectativas e memória. Aponto o desejo como a arregaçar as mangas do coração. O romance recomeça em Setembro e até lá acabo mais 5 novelas. A ambiguidade das palavras é cómica: romance e novela invocam outros campos semânticos. Comecei este texto com um artifício, para encher o espaço da minha auto-infligida obrigação diária. E acabo com uma assumida apologética.

#000064 – 19 de janeiro de 2020

Demorei 30 anos a aperceber-me do meu erro. Thrash metal. Só ontem é que lhe acrescentei o primeiro h, ao escutar a palavra assim pronunciada num documentário sobre música. Em minha defesa posso tentar argumentar que entrei nos anos 90 com o grunge, palavra etimologicamente gordurosa e suja e que punk é palavra para insultar alguém que se considera sem préstimo ou um rufia. Que o género de heavy metal que saiu do underground no final dos anos 80 se distinguisse do restante metal com a palavra lixo, não me surpreendeu. Afinal diz-se thrash: bater com estrondo, castigando; flagelar. É apropriado. O grindcore e o crustpunk, que beberam da veloz intensidade do thrash e da aceleração focada e monolítica do punk, têm também nomes sinestésicos e castigadores.

Foram 3 décadas muito interessantes para este território musical. As mais improváveis misturas originaram adoráveis monstros, que tudo indica não serão híbridos. O black metal e o shoegaze misturaram-se. É possível encontrar mulheres a cantar black metal (sub-género tradicionalmente misógeno), como Chantal, dos Addaura. E os seus dreads voltam-se a encontrar em muitos músicos de extreme metal. Um certo glamour sem nenhum glam está completamente misturado com o feminismo de terceira onda na agressão vocal de Caro Tanghe, Angela Gossow, de Eva Spence ou de Danielle, dos Iskra. Estes últimos parte de um maravilhoso movimento chamado “red and anarchist black metal” ou rabm, com muito de red e anarquista mas não só black metal. À porta da segunda década do século XXI temos muito a agradecer à Kathleen Hanna, que nos anos 90 começava as atuações ao vivo das Bikini Kill pedindo “girls to the front” e impedindo que a violência masculina e o assédio tornasse os concertos inseguros para as mulheres. Esta preocupação com a segurança passou a ser visceral, bandas como os Foo Fighters interrompem concertos quando uma mulher é assediada ou alguém se torna violento, para que os causadores de problemas sejam envergonhados publicamente e expulsos. O explícito feminismo de Maynard James Keenan, dos Tool, era algo surpreendente num vocalista de metal nos anos 90, mas espalhou-se como a cura de uma doença.

Também para os homens, o heavy metal passou a ter menos fronteiras. Uma banda como Thou, uma sensibilidade como se encontra em The Botanist, ou projectos a solo como Horseback ou Panopticon são resultado desta nova masculinidade, em que a assertividade convive com a insegurança, a motivação com a incerteza. Em Cloudkicker ou Jesu não se vê vestígios dos fantasmas tóxicos que os anos 80 e 90 destilaram. E se Pantera foi um guilty pleasure de muitos adolescentes como eu, com aquele groove metal infeccioso e irresistível, aquela voz violenta a rasgar o ar, hoje podemos ter tudo: a emoção, a música e pessoas com quem nos identificamos (ao contrário do que personagens como o Phil Anselmo nos podiam dar). É verdade que quando alguém como Hunter Hunt-Hendrix, dos Liturgy, decide escrever um manifesto a propor um novo tipo de black metal, solar, ou quando os Defheaven lançam capas (de novo de álbuns black metal) com uma estética que eu diria quase queer, há quem se sinta insultado na sua identidade nihilista e misantropa. Depois de muitos anos em que nas entrevistas os músicos de metal denunciavam a mesma ambição, fazer a música mais extrema possível, o mais escandalosa possível, descobrimos que há ainda fronteiras a abolir. Que implicam uma nova coragem, a de enfrentar preconceito, barreiras mesquinhas, medo.

#000063 – 18 de janeiro de 2020

Para improvisar: primeiro aprende-se, depois esquece-se.

#000062 – 17 de janeiro de 2020

A história da mulher-cisne atravessou milhares de anos. Este conto terá surgido no Paleolítico chegando a diferentes culturas humanas. Stanley Kim Robinson fez Thorn contar a sua versão desta história, em Shaman. Neste livro, o contexto da micronarrativa é o de tribos que roubam mulheres para tomar como esposas. A capa de penas, sendo roubada por um homem, impede que a mulher se transforme, assumindo a sua verdadeira natureza, e voe. O homem que lhe rouba a roupa de cisne mantém-na sob chantagem e obriga-a a casar com ele.

No ballet O lago dos Cisnes e alguns filmes Disney, o motivo da mulher-cisne é reapropriado de forma a que a transformação da mulher em pássaro não é a sua natureza, é uma maldição. E um príncipe salva a passiva donzela da maldição, como noutras histórias de princesas em que o seu único papel é o de aguardar o heroísmo do homem com quem irão casar de agradecimento.

Aqui deixo a minha versão desta história que assumiu tantas versões e que tudo indica continuará, enquanto houver homens e mulheres, ou simplesmente amor:

A rainha dos cisnes tomava banho. O som da cascata impediu que escutasse o mergulho do caçador no mesmo lago. Quando se virou de costas debaixo da cortina de água branca, ainda tinha os olhos fechados. Abriu os braços como a asas e assemelhou-se a uma figura humana em pleno voo através da água. Abriu os olhos e o frio fê-la procurar a margem, onde tinha deixado a capa de penas. Foi então que viu o caçador.

Não deixou que ele percebesse o susto que a acordou. Olhou-o diretamente nos olhos, para lhe buscar as intenções, algum indício de perigo, as mãos dentro de água até aos pulsos, o seu corpo reluzente como o de um mamífero aquático. Aquele homem tinha de facto ar de caçador, gestos de quem se habituou a ver sem ser visto e a não fazer movimentos bruscos quando a presa o surpreende. A mulher mergulhou, raspando com os joelhos no fundo rochoso, e nadou por baixo da cascata, escondendo-se. Esperou o pior, preparada para a luta.

Através da cascata, a figura do caçador era imprecisa. Como a imagem de um sonho. Ficou vigilante, sem nenhuma outra barreira além da água que caía veloz, com estrondo líquido. O caçador afastou-se, o seu corpo de homem mais e mais pequeno. Uma intuição fez a rainha dos cisnes tremer. A sua roupa de pássaro. E se ele lhe rouba as penas? Enfiou a cabeça através da água, pronta para atacar. A sua suspeita confirmou-se. O caçador levou a sua presa, afinal. Conseguiu ver-lhe as costas, uma mancha grande de cor mais escura, junto à cintura, em forma de lua minguante. Berrou, mas o homem nem olhou para trás. Tinha já saltado para cima do cavalo, a capa da rainha dobrada dentro do alforge.

Durante as semanas que antecederam a migração para o palácio de inverno, a rainha reinou em forma de mulher. O seu povo voava, banhava-se nos lagos reais e todos se reuniam ao fim do dia arensando estridentes. Quando chegou a altura de partir, o cisne em forma de mulher despediu-se dos outros cisnes e ficou longamente a olhar as suas asas, o seu voo lento, pescoços a apontar o Norte, contra o céu poente.

No inverno, a rainha saiu. Caminhou entre humanos, trabalhou em tabernas, mendigou pão e água. Passou por aldeias e cidadelas, juntou-se a bandidos na estrada e a piratas no mar. Procurava um homem com uma lua nas costas.

Chegou a Primavera, veio e partiu o Verão. A rainha dos cisnes abandonara o seu povo. A sua pele tinha marcas do sol, as suas mãos calos, o corpo cicatrizes, memória de facas e quedas, de perigos vencidos. Passaram-se muitos invernos e o seu cabelo embranqueceu. Os seus olhos tornaram-se cinza fazendo-lhe a pele bronzeada parecer ainda mais escura. Tinha uma estalagem, perto de uma encruzilhada, onde caminhos para o mar e para a montanha e trilhos de transumância se encontravam. Gostava de escutar as histórias dos viajantes que ali passavam a noite. Tornou-se conhecida por oferecer comida e bebida a quem tivesse uma boa história.

Um dia chegou um homem muito sujo, o cavalo cansado trazido à mão, poupado de o transportar. Falou pouco, mas pediu que lhe preparassem um banho. Quando desceu, tinha cortado a barba longa. Era visível uma cicatriz a atravessar-lhe o queixo. Tinha roupa muito velha, com alguns buracos, mas eram claramente peças que tinha guardado até agora. Estavam limpas. Desta vez, a rainha falou, talvez pela primeira vez em anos. Perguntou-lhe de onde vinha. De longe, foram as únicas palavras do homem, que continuou a comer a sopa.

A mesma intuição que a fez colocar a cabeça através da cascata, à procura das suas penas, fê-la sentar-se e colocar o queixo sobre as mãos cruzadas. Deixou que ele acabasse a sopa e olharam-se a direito, durante muito tempo. Ele tinha os alforges junto aos pés. Levantou-se e subiu até ao quarto. A rainha esperou, sem um pensamento a manchar a intuição feita de imagens e sangue a correr nas veias. Subiu.

No quarto, sentiam-se os cheiros do sabão e do pó humedecido em água quente. O ar cheirava a homem, a estrada, a tempo. O caçador estava inclinado sobre a cama, pousando algo, a mancha em forma de lua visível no fundo das costas. Estava nu. Quando se virou para a rainha, o seu olhar era líquido e o pêlo do peito muito branco. A mulher-cisne tirou a roupa e avançou. Passou pelo homem e tomou nas mãos a capa de penas. Vestiu-se de si própria e saiu pela janela, o seu pescoço longo seguido por um bater de asas. Migrou sozinha, de perfil contra a lua, que crescia.

O caçador, que nunca foi caçador, olhou o conteúdo do outro alforge. Tirou a sua própria capa de penas, pousou-a. O homem-cisne olhou pela janela que tinha aberto para dois e ficou, demasiado humano, de asas espalhadas pela cama.

#000061 – 16 de janeiro de 2020

A solidão é ingrediente da escrita. Para que se enfrentem ideias desconfortáveis, esboços improváveis e sonhos difíceis é essencial não ter a validação alheia, o seu ruído quotidiano e morno.

#000060 – 15 de janeiro de 2020

Para Henry Miller, a Grécia era um país vasto, habitado por pessoas luminosas. Em “The Colossus of Maroussi”, escreveu “(...) Greece is not a small country—it is impressively vast. No country I have visited has given me such a sense of grandeur. Size is not created by mileage always. In a way which it is beyond the comprehension of my fellow countrymen to grasp Greece is infinitely larger than the United States. Greece could swallow both the United States and Europe. Greece is a little like China or India. It is a world of illusion.”

Há livros como a Grécia de Henry Miller. É o caso de “Le città invisibili”, de Italo Calvino. O tamanho deste livro não é medido pelo número de páginas. É um livro que poderia engolir boa parte da ficção científica.

#000059 – 14 de janeiro de 2020

A filha de Eros e de Psique é Hedone. Da união da paixão sexual e da alma nasce esta deusa. Li o Siddhartha do Herman Hesse e ficou-me a ideia de que a iluminação prescinde da mortificação do corpo, ao contrário do que os brâmanes acreditavam. E, face ao atual regresso ao Estoicismo, fico do lado dos Epicuristas, teimoso e hippie. A felicidade e o prazer são as minhas maiores aspirações pessoais. Felicidade depende de aceitar e integrar o sofrimento. Prazer é uma fonte da qual beber poucas vezes e muito. Ou: com moderação epicurista. Do bom, mais.

#000058 – 13 de janeiro de 2020

O tempo, sendo uma ilusão, é um recurso muito limitado. Dá que pensar: diminuímos o espaço da imaginação, esse elixir precioso, quando a ansiedade faz a areia escorrer mais rápido na ampulheta.

#000057 – 12 de janeiro de 2020

Em “A Door into Ocean”, Spinel viaja até Shora. Ele é um rapaz que vem de uma sociedade patriarcal, convidado a visitar o planeta líquido para que as que suas habitantes, exclusivamente mulheres, possam averiguar o potencial dos homens de aprender. Merwen é que tem a ideia, que algumas das suas irmãs pensam ser uma má ideia. Spinel, a princípio, desconfia deste mundo em que não há homens. Crescerá e o maior elogio que recebe é ser tratado como irmã. Na língua de Shora não existem palavras para posse, coação ou para o masculino. Joan Slonczewski criou uma sociedade de mulheres que não só não necessitam de homens mas são fortes, assertivas e capazes. Spinel torna-se um homem forte, física e mentalmente. Ou seja, uma mulher.

Ursula K. Le Guin surpreendeu em “The Matter of Seggri”. A história que escreveu é pouco usual, na literatura sci-fi feminista. Há uma desigualdade enorme nos papéis que homens e mulheres desempenham, sendo que os homens não têm direito à educação, a cargos públicos nem a nenhuma decisão importante. São troféus sexuais, completamente à mercê das mulheres. Duas coisas importantes, consequência uma da outra, saltam destas páginas: as mulheres também são capazes de reprimir o sexo oposto e se o sistema estabelecer a primazia feminina, não existe nenhuma natural superioridade dos homens.

Os deuses e semi-deuses masculinos de N. K. Jemisin na série “Inheritence” são violentos e sedutores. E há características diferentes, bem marcadas, para o que é feminino e masculino. Todas as personagens têm uma diferente conjugação dos dois lados, é verdade. Mas há algo de clássico, na forma como a autora aborda papéis e género. Ainda assim nada do que escreve contraria, por exemplo, o feminismo da segunda onda de Agnès Vardas, que a fez colocar num filme um grupos de mulheres de todas as idades, nuas sem que a nudez fosse exploração, a olhar o espectador nos olhos. Uma delas dizendo, “eu quero ter filhos” a outra “eu não”, nenhuma das vontades menor ou melhor.

Eu tenho dificuldade em criar personagens masculinas. Um homem forte e assertivo é difícil de elaborar, fora do universo dos vilões. Nisso, estou em boa companhia. Desde os anos 90 que não conseguimos sair disto, nós os homens. A terceira onda do feminismo continuou a pensar papéis, a experimentar e propor, a refletir. Mas nós, os homens que também desejam uma sociedade próspera e livre para todos, ainda não pensamos de forma verdadeiramente livre e fértil. Os heróis masculinos que produzimos são muitas vezes inseguros, imbecis e a melhor habilidade de que são capazes é o humor autodepreciativo. Isto é bem visível na personagem principal de “Y: The Last Man” do Brian K. Vaughan. Divertimo-nos com o ego descabido de personagens como Gary, em “Final Space”, ou do Captain Ed Mercer, em “The Orville”, sabotando os papéis masculinos que já caducaram há décadas mas não propomos outras possibilidades para a época que vivemos. Sou também culpado disto, de escrever personagens masculinas que não sabem o que querem, não se conseguem afirmar ou que não têm noção de que o que querem é ridículo ou desadequado. Já as minhas personagens femininas são as que procuram o significado das coisas, as que desafiam a autoridade e enfrentam o seu próprio medo.

A inspiração para algo diferente vem sobretudo de autoras. Nos três exemplos que dei, estas escritoras apresentam homens mais complexos e interessantes do que os que têm habitado as minhas histórias. Mas existe também o China Miéville, que tem personagens queer, homens que amam homens e que tanto reapropria como subverte os papéis de género que nos chegaram pela tradição literária. Usando os super-heróis, que não me fascinam muito mas são ótimos identificadores de cultura: o desafio que tenho perante mim não é como escrever histórias para a Wonder Woman, é como escrevê-las para o Superman. Como seria a masculinidade na nossa utopia?