Kroeber

#000036 – 18 de dezembro de 2019

Milão, em vez de Frankfurt. Boccata com prosciutto e rúcula, em vez do bacalhau da minha mãe. Meia-noite em vez de meio-dia. Perder um voo é estranho. Ficamos em terra e não chegamos a ver a aeronave. Apenas burocracia e sorrisos profissionais, anúncios e filas de passageiros. Perder um navio, imagino, será mais dramático. Podemos ver o casco a tornar-se pequeno. Ficamos do lado dos que acenam. E tudo com uma intensa lentidão. A cabeça povoada de finais à Indiana Jones, saltos heróicos no último segundo e tudo a ficar bem para sempre.

#000035 – 17 de dezembro de 2019

É fácil de acreditar que as histórias vieram antes de tudo. Que as palavras criaram o mundo. Diz um xamã, no livro do Kim Stanley Robinson, que quem conta as histórias é dono do mundo. Em 1984, em Sleepless e em inúmeras outras histórias, os poderosos eliminam da História os dissidentes e o seu pensamento. Os escritores são esses fugitivos do tempo. Os que se arriscam sempre a ver páginas queimadas e títulos banidos. Os que apontam a margem, assinalam a imprecisão das fronteiras, os que subvertem e reimaginam. Um contador de histórias acrescenta sempre um ponto. Um ponto de vista.

#000034 – 16 de dezembro de 2019

Lucien cuida de uma biblioteca infinita, no Sandman de Neil Gaiman. É o bibliotecário que recolhe, cataloga e de vez em quando até empresta os livros que nunca foram escritos. Ali, na biblioteca de Morpheu, estão todos os livros alguma vez sonhados.

Em Bartleby & Companhia, Enrique Vila-Matas juntou personagens que são os seus próprios adversários. Cada um encontra ou procura mesmo o obstáculo que o impeça de escrever. Com os seus livros inexistentes, os não-escritores de Vila-Matas vão enchendo a biblioteca do senhor dos sonhos.

#000033 – 15 de dezembro de 2019

Escrevo sobre uma Atenas que não conheço, usando uma bússola que não é a minha. A sci-fi é uma linguagem alienígena. Componho com exoglifos uma história oculta nas entranhas.

#000032 – 14 de dezembro de 2019

Kleist escreveu um ensaio que me tem acompanhado desde que o li, há anos. Nele, aconselhava a que se falasse com um amigo quando uma ideia importante parece habitar a cabeça, mas não conseguimos vê-la com clareza. Kleist diz que falar com um amigo permite, de facto, que a ideia se manifeste. Eu diria que a ideia só existe depois de se falar.

Escrevo para um leitor. Escrevo porque tenho perguntas. Porque quero descobrir o que não sei, escrevo. É um estranho monólogo. O silêncio atento de um futuro leitor permite que se manifestem coisas incriadas.

#000031 – 13 de dezembro de 2019

Um dia sem escrever. Vazio a fazer ecoar palavras órfãs. Enchi a cabeça de banda desenhada e de saudade. Agora cabe-me exercer a arquitetura do desejo.

#000030 – 12 de dezembro de 2019

Os calos sabem bem. Lembram a vibração das cordas. A forma como anelar e dedo médio fazem subir uma corda até à nota a seguir. Os movimentos, sem teoria mas com alguma música. Geometria e motricidade. Memória em fogo. Os padrões que se revelam, repetem ou evitam. O instantâneo da emoção, quando algo atinge o íntimo. O som entra nos sonhos. E invoca-os, sintonizando a fronteira da atenção.

#000029 – 11 de dezembro de 2019

O Kim Stanley Robinson diz que a ficção histórica é sobre o passado e que a ficção científica é sobre o futuro ou sobre o passado distante. É uma perspectiva útil e desafiadora esta de pensar nas narrativas sobre o passado remoto como uma abordagem sci-fi. Histórias sobre o Neolítico ou até sobre uma época na Terra antes dos seres humanos podem ser construídas como um esforço de imaginação fundado em ideias científicas, à maneira da hard-scifi. Mais interessante ainda é pensar nas histórias sobre o futuro como mergulhos no passado. Diz o autor americano que um romance histórico usa a documentação, os vestígios, as descobertas e teorias da historiografia. Já para o que não se pode conhecer, porque não sobreviveram documentos, os vestígios são insuficientes, ou porque simplesmente não aconteceu nunca ou ainda, a estratégia terá de ser diferente.

Futuro é palavra que uso de forma bastante livre. Não me sugere, simplesmente, o tempo que vem a seguir. É uma palavra problemática, controversa, refere-se a algo que não existe. É espaço para a imaginação, a utopia, a discórdia, a erupção de ideias e idealismos. E nisto, a memória é fundamental. Só nos podemos posicionar em relação a algo que antecipamos, porque temos registos e hábitos, tendências e preferências. A ficção é eletricidade que atravessa o tempo, que liga e anima fragmentos em narrativas e vozes. Antes de falarmos, num espaço amplo, antecipamos que a voz irá ecoar. Depois de nos calarmos, a proclamação ainda pulsa, momentos depois da garganta se silenciar.

O futuro e o passado remoto estão antes e depois do eco. São o passo atrás que se dá, que permite pensar e reinventar a voz, o próprio espaço. São um extraordinário vazio. E sabemos que a nossa natureza humana preenche o vazio de forma automática, torrencial, delirante.

#000028 – 10 de dezembro de 2019

O apego é um dedo persistente. A mente olha com a pele, pensa com químicos, decide antes de o saber. A memória é um site arqueológico. A escrita é húbris, risco, crença de que algo perdura e se reinventará.

#000027 – 09 de dezembro de 2019

Escrever para queimar. Escrever para oferecer. Escrever para apagar. Escrever para esquecer. Escrever para lembrar. Inscrever. Expurgar. Escrever para digerir. Escrever para perguntar. Escrever para abrir. Escrever para encontrar. Escrever. Escrever. Escrever.