Kroeber

#000026 – 08 de dezembro de 2019

A Corporação Mondragon é uma federação gigante, com mais de 250 empresas e 74.000 trabalhadores. As suas receitas anuais, em 2015, ultrapassaram 10 mil milhões de euros.

E é uma cooperativa. Pertence aos seus trabalhadores. Num movimento Zizekiano, nós radicais de esquerda poderíamos ser os salvadores do capitalismo. É preciso tornar claro que os maiores inimigos do capitalismo são os delirantes capitalistas atuais, que vêm na eliminação do estado a solução milagrosa de todos os males.

Contra o consenso tradicional de que é preciso ser um ingénuo utopista para acreditar na cooperação humana, é preciso demonstrar que defender o capitalismo requer uma mente fantasiosa, uma capacidade feroz de eliminar da memória o que não interessa e de defender com argumentos pragmatistas as contradições mais absurdas.

Salvemos o doente primeiro. Não se retira um mau medicamento de uma vez. Primeiro é preciso o desmame.

#000025 – 07 de dezembro de 2019

O Inverno parece acordar um trauma antigo, preservado na biologia. Sobrevivemos uma idade do gelo. Atravessámos Beríngia, quando o mar gelou. E na orogenia presente estão os vestígios da ação massiva de Laurentide. O frio é, segundo o dicionário, o desconforto causado por uma temperatura demasiado baixa para seres humanos. Produzimos energia para manter o conforto, a vida. O hálito, quando se torna visível, é quase como uma visão do espírito, que se esvai a cada fôlego. O fogo, que se pode transportar, iluminando, que se brande como ameaça a um animal, que se atira a uma floresta para abrir espaço a uma cultura, é a transformação da matéria para que se adeque a este espaço estreito, em que podemos sobreviver. Transformamos e destruímos. É estranha, mas nada de novo nos ecossistemas da terra, esta tragédia de sabotar a sobrevivência ao usar recursos para a assegurar. Pensar sobre isso produz nomes interessantes, como antropoceno. Mas, por enquanto, nenhuma mudança à escala necessária.

#000024 – 06 de dezembro de 2019

Pensamento anómalo. Internamentos, remoções orwellianas da presença de alguém no espaço público, vingança marital. Uma acusação de que certa mente se desvia do modelo de sanidade foi suficiente, em ditaduras e democracias, para afastar uma pessoa e a manter presa, sem forma de provar a sua sanidade. Num famoso estudo académico, investigadores foram internados e todas as tentativas de declararem a sua saúde mental foram recebidas pelos clínicos como sintomas da sua insanidade.

A mente é uma câmara de eco, um caldeirão de substâncias instáveis, um centro de controlo que é afetado pelo organismo a que preside. Diagnosticar a loucura alheia é um atrevimento necessário, por vezes, mas sempre arriscado. O que temos mais seguro, como padrão de humanidade, é a necessidade de viver com alguma harmonia, com os outros e com nós mesmos. E uma partilhada ânsia de reduzir o sofrimento, nosso e dos outros. Loucura é promover o sofrimento. Mais que isso não me atrevo a sugerir.

#000023 – 05 de dezembro de 2019

Um cogumelo, mágico ou apenas salteado com alho.

#000022 – 04 de dezembro de 2019

A máquina de lavar roupa rumina uma atividade francamente maquinal. Sabe-me bem escutar este ruído, previsível e familiar. Recentemente escutei que o vocoder humaniza, precisamente porque é tão ostensivamente artificial. E nos faz lembrar tempos em que a nossa relação com a tecnologia era mais naif e espontânea.

Esta tendência talvez venha a ser reforçada. À medida que se aperfeiçoa a simulação do comportamento e do raciocínio humanos, identificaremos como próprio de máquina aquilo que não se distingue do humano. E, julgo quase inevitável, apreciaremos o lo-fi, o low-tech, o steampunk, e em geral as modalidades em que a tecnologia é visível, o mecanismo evidente e a fronteira com o biológico menos controversa.

#000021 – 03 de dezembro de 2019

Os neurotransmissores são químicos. Dopamina e seratonia e muitas outras substâncias ligam neurónios como numa mancha de tinta que se espalha e contamina. É este banho químico que faz o nosso sistema nervoso funcionar e que liga emoções, memórias e comportamentos.

Somos uma experiência alquímica, um tubo de ensaio instável e mais ou menos previsível. Mesmo sem acrescentarmos drogas produzidas no exterior do nosso corpo, o nosso organismo flutua ao sabor desta mirabolante forma de comunicação.

Psicadélico é um desses usos livres de raízes gregas. Na correspondencia entre Humphry Osmond e Aldoux Huxley, este propôs o termo phanerothyme. O neologismo de Osmond, quis ele que significasse algo como a manifestação da alma. As experiências com drogas alucinogénicas, como o DMT e o LSD, são muitas vezes descritas como relevações, experiências com um impacto espiritual.

O que me intriga é esta possibilidade de os químicos não serem apenas reveladores, mas a própria linguagem da mente. Sem as substâncias que produzimos, nenhuma realidade, nenhuma percepção é possível.

#000020 – 02 de dezembro de 2019

Escrever fora do silêncio caseiro é talento enferrujado. Daqui a alguns minutos, recomeço a meditação. Demorou tanto a finalmente reiniciar o caminho que já escolhi.

Sou um passageiro, maleável, com apego ao ego. Sujeito a tantas influências que desconheço ou subestimo. Aspiro, ao menos, a conseguir influenciar o meu comportamento. A competição será feroz.

#000019 – 01 de dezembro de 2019

Sapolsky explica que a dopamina não se comporta como um behaviorista prevê. A recompensa não coincide com a gratificação. O nosso sistema nervoso central recompensa o comportamento. Um gráfico da intensidade através do tempo deste neurotransmissor é interessante. Quem sai reforçado é Csíkszentmihályi.

Autotélico não é apenas um adjectivo motivacional ou terapêutico. É um descritor da nossa vocação. Fazer coisas porque as queremos fazer. Não há nada de mais humano que isso.

#000018 – 30 de novembro de 2019

Eddie Vedder pede para ligar as luzes. Todas as luzes. Olha o público em volta do quadrado do palco, no Madison Square Garden. Tem o cabelo curto, envelheceu. Diz, estamos vivos. Estamos vivos, repete.

O suicídio, a heroína e o álcool assolaram a minha geração. Os meus heróis foram caindo, perdendo a batalha com demónios interiores. Fui pondo de parte qualquer hipótese de identificação com a figura do artista autodestrutivo. Quis viver. A loucura nunca foi uma fuga. Era um peso, um fardo. Custou-me muito caminhar, com o chumbo do delírio a derreter-se e a solidificar de novo, sabotando-me o esforço. A utopia é a lucidez.

Estou vivo, estamos vivos. Maldição é o ódio de si mesmo. Quero o sol e a ingenuidade e a crença tola de que o futuro será melhor. Quero envelhecer. Dar nome às dores, como as personagens de Shaman, do Kim Stanely Robinson. Visualizar a transmutação da dor em compaixão, abraçar como quem embala o amor.

#000017 – 29 de novembro de 2019

15 hojes depois, um novo conto. Pensei que ia acabar o que tinha começado, mas algo novo surgiu. A minha primeira história sobre a emergência da inteligência artificial. Penso que há ali algo do Frankenstein e uma certa influência do podcast do Sam Harris.

Imagino que a revisão ainda me irá surpreender e desafiar. Até Abril tenho de acabar o romance. Escrever diariamente é simples. E sintoniza a cabeça com o coração.