view#000006 – 18 de novembro de 2019
Há ideologias que são fantasia. E ideologias que são sci-fi.
Sou um progressista, mas imagino conseguir perceber o apelo do conservadorismo. É um impossível a que vale a pena aspirar. A defesa de um mundo que parece ruir, à nossa volta. A integridade que resiste, como estrutura moral essencial. Não sou insensível a utopias. A ficção científica faz-nos testar ideias impossíveis. Mas a narrativa só funciona se fundamentada na nossa realidade imediata. O meu anarquismo é uma impossibilidade bela, que vale a pena defender. Depende da ajuda mútua que Kropotkin lançou para o mundo, como ideia-semente de uma fertilidade irresistível.
À fantasia, basta-lhe ser internamente coerente. Quando Mussolini explicava a força de um fáscio, a ideia não desafiou a lógica, pareceu mesmo confirmá-la. E é uma ideia que, sem as mesmas conotações, surge noutras apologias menos patológicas: sozinhos, somos fracos, mas juntos ninguém nos quebra. Já imaginar a nossa realidade rumo a um fascismo perfeito é o mesmo que erigir um pesadelo. Para que o fascismo funcione, é preciso primeiro abolir a realidade, ou deturpá-la. E o objectivismo e as outras ideologias irmãs à veia Randiana são enfermas desta mesma necessidade: primeiro encontram a solução, a seguir há que criar problemas no mundo para corrigir diligentemente.
view#000005 – 17 de novembro de 2019
Organizar o caos.
É gratificante esta ilusão de diminuir a entropia. Primeiro os estilhaços gloriosos de uma invenção, a cintilação dos fragmentos. Depois o reconhecimento de padrões. Azulejaria de ideias.
Começo por decalcar contornos. Reconheço padrões habituais. Mas tudo a seguir é reconstrução, ou mesmo apologia. Gosto de dar um sentido à minha desordem. Cada história começa com um título, uma frase ou um conceito. É pouco mais que um pressentimento sobre um rumo a seguir. Uma altura chegará em que uma colecção se agrega. Ou uma série. Ou uma história de fundo, ou um mundo.
Quero radicar as minhas histórias no humanismo, na ideia essencial de que somos mais felizes e prósperos quando nos ajudamos mutuamente. Quero sabotar, com perguntas, as ideias inimigas da civilização. Escrutinar as toxinas que as boas intenções produzem. Abrir braços, estimular cérebro, fortalecer o coração.
view#000004 – 16 de novembro de 2019
Cypherpunks. Escrevo a palavra e hesito muito tempo. Desmantelar e reaproveitar as peças é ética que me interessa. Até o ethos Walkaway das personagens tragicamente utópicas de Cory Doctorow me ilumina. Mas um hacker, segundo a citação de Rodney Mullen, em vez de pensar de algo, what does this do, pensa, what can I make it do for me?
A criptologia é disciplina necessária. Ainda assim, sugiro que não há nada mais white-hat que olhar para um sistema e pensar, what can this do for everybody?
Talvez, apenas talvez, seja cedo demais para abandonar as heterodoxias. Contra os que nos querem fixar uma identidade, há que persistir ainda na multiplicidade. Diluindo o ego, até ser inatacável. Pós-moderno porque pró-moderno. Talvez.
view#000003 – 15 de novembro de 2019
Dois cadernos.
Laranja, sonhos a realizar.
Azul, sonhos para não esquecer.
Se Dyson, descendo da sua casa da árvore, sugere que a computação analógica será a revolução, então há que subir às árvores de novo. O digital, a informação, o software e o hardware são analogias desadequadas para o humano.
A dualidade sugere o caminho. Uma crista, numa montanha de ilusão. Quando o ar está muito rarefeito, há-que fazer as pazes com o corpo e nem é possível pensar muito. O frio atinge-nos inteiramente.
Hoje comecei o meu caminho: como o Kim Stanley Robinson, escrever todos os dias. O próximo conto, espero terminá-lo em 15 dias. Quinze hojes.
view#000002 – 15 de novembro de 2019
Pedalar. Cozinhar. Meditar. Escrever. Traduzir.
Os dias posso vivê-los assim. Inventar espaço, descobrir a cintilação do vazio. Surpreender-me com a nitidez das perguntas.
O dinheiro complica-me tudo. É a mais concreta das abstrações. Torneira aberta para esvair rapidamente coisas que a falta de tempo improvisa. Hoje começa tudo.
view#000001 – 14 de novembro de 2019
Escrever.como
Isto é um diário. O resto é futuro.