view#000016 – 28 de novembro de 2019
A rigorosa eficácia do kendo intensifica tudo. A emoção parece removida, a máscara a tapar qualquer expressividade. A arma sempre apontada, sem os artísticos volteios cinematográficos que nenhum samurai alguma vez usaria em combate.
Uma das equipas ganhava. Pais e colegas berravam, com a ferocidade da vitória eminente. Este era um dos torneios universitários mais importantes do Japão. Cada um dos combatentes vitoriosos regressava para uma euforia de abraços e congratulações. A energia do público incendiava o ânimo da jovem equipa.
Do lado perdedor, pouco a pouco, os que retiravam a máscara sentavam-se sobre os joelhos. Encontravam uma equanimidade digna e serena. Na equipa que ganhava, um dos praticantes sentou-se também, no mesmo silêncio interior.
E aos poucos, o silêncio contaminou o espaço à volta do dojo. Como num vazio a florir, perdedores e vencedores regressavam ao mesmo centro. Um equilíbrio, depois da paixão absoluta do combate. Perder e ganhar conceitos caducos, efémeros.
view#000015 – 27 de novembro de 2019
Vou buscar o mar, como a uma memória abrupta. Mergulhar, imaginando milénios. Recordar a passagem pelo Istmo, de noite, com os meus amigos. Sentir a benção de um mar entre terra e mais terra. Aqui inverte-se a regra do mundo. Os deuses quiseram criar mil recantos. Facilmente nos escapa uma era, entre Delfos e Meteora, desde a ruína de Knossos até à invasão da Troika.
view#000014 – 26 de novembro de 2019
Yongey Mingyur também teve medo. Inspirado por Milarepa e pela tradição dos sadhus, fugiu pela calada do mosteiro em que vivia protegido e seguro. Na primeira noite num comboio apinhado tudo era novo. A itinerância é uma palavra elegante, quando podemos controlar o que e quando comer. Mas esta entrega ao mundo e à generosidade imprevisível dos outros é um amor vulnerável e radical.
Reabilitam-se os estoicos. Treina-se a mente. Estimula-se a criatividade com microdoses e faz-se retiros vipassana só para regressar à alta finança com uma vantagem competitiva. Um reverso curioso e talvez previsível. Fui um adolescente inconstante, com medo de buscar a ascese, não fosse calhar encontrá-la. Como no pensamento utópico, o bom é o caminho do ótimo. E uma imagem de perfeição não é a derrota, é a inspiração. Quero largar lastro, ser compassivo, oferecer-me ao mundo. E enquanto o medo me faz tremer passos maiores, que um abraço de cada vez me permita exercer a bondade.
view#000013 – 25 de novembro de 2019
Inscrever uma vírgula no mundo.
Virar um pouco uma mesma perspectiva. Juntar um telha, um tijolo, uma cor. Apontar o que já existe.
A literatura de género, uma narrativa convencial, uma sci-fi clássica estão no centro das minhas aspirações. “Those who walk away from Omelas”, “Always Coming Home”. Saber de onde me afastar e aonde regressar. Na literatura como no resto.
view#000012 – 24 de novembro de 2019
Deixar o medo cair, como um braço cansado. Escutar a respiração do mundo. Sonhar como um deus de coisas pequenas e importantes.
view#000011 – 23 de novembro de 2019
Os sonhos diurnos influenciam o sono sonhado.
Lucidez é regular a agulha, redescobrindo o Norte.
Freedom of the Will, assim chama Noam Chomsky ao livre arbítrio. A liberdade da vontade poderá ser uma utopia, algo a aspirar. Estou mais inclinado a pensar que é uma prática, um ofício. Matthieu Ricard fala do conceito budista do caminho do meio. Entre o nihilismo e o determinismo, uma via aberta. A ideia de que causas e efeitos, pessoas e karma estão ligados numa vasta rede de interdependências.
Para que o bater de asas cause o tsunami, faz pouco sentido imaginar uma cadeia de causa e efeito, como um dominó à escala planetária, em que a queda da primeira peça desencadeia uma catástrofe consequente, obediente à flecha do tempo e de espetacularidade tranquilizadora.
A interdependência será a estrutura do caos. Ou a sua consciência. Para que algo aconteça ou fique por se manifestar, tudo no universo o permitiu. Não é possível traçar uma linha desde o Big Bang até este ponto final. A entropia não aumenta em incrementos lineares. Este mesmo universo é, causalmente, um vibrante multiverso de possibilidades paralelas e versões de si mesmo, uma gloriosa confusão de tangentes e interseções.
Neste pálido ponto azul em que algumas empresas têm as suas próprias redes de causa e efeito, num marketing behaviorista e eficaz, começámos a pôr de lado conceitos optimistas como a serendipidade. Tudo ganha contornos cinzentos e maquiavélicos, e o cinismo é uma defesa tristemente frequente. Resta interpretar e reinterpretar. Lutar por cada milímetro de discurso e apropriação da verdade.
É bom saborear o silêncio. Deixar as emoções e os conceitos pingar na consciência. Apreciar o timbre do eco, a amplidão do espaço interior. E intuir que nada nos separa do que nos rodeia.
view#000010 – 22 de novembro de 2019
Quebrar ovos para fazer omeletes não é escândalo. Quebrar ovos para plantar uma árvore é bizarro. E quebrar ovos por descuido acontece. Quebrar ovos podres contra um alvo humano tem a sua tradição. As omeletes fazem-se com o conteúdo do ovo. E agora que já existe carne sintética, é mais fácil imaginar gema e clara sintéticas. A narrativa interrompida de uma vida em gestação. A drástica imagem de um ovo que se quebra a partir de fora, não a partir de dentro, como no milagre que antecipamos. Atrocidades removidas escrupulosamente, numa limpeza metafórica.
Quebrar humanos para ganhar dinheiro é escândalo.
view#000009 – 21 de novembro de 2019
A folha branca não é o vazio.
É a ausência de um espelho. Um convite, uma provocação estática. É preciso a mancha gráfica para desenhar o abismo que nos olhará de volta.
Vertigem é querer agredir o vazio. Atirar-lhe culpas que nem percebemos. Chamar-lhe nomes, amaldiçoando o silêncio. O ruído que se esvai do íntimo faz-se tinta das nossas dúvidas. À folha poderemos, ofegantes, olhar a partir de um vazio aceso. Há que escavar, primeiro. Esvaziar entranhas e assumir o caos, como um pastor aflito com a urgente tentação de abandonar o rebanho para fugir da tempestade.
Diz a Barbara Tversky que é a ação que molda a mente.
Escrever é um movimento, o significado é uma consequência feliz.
view#000008 – 20 de novembro de 2019
Durante o dia o sonho é interrompido. Como de um sonho convencional, acordo com um sinal, um contorno ainda nítido, uma imagem, algumas palavras. Desde há alguns anos que tomo nota destes fragmentos. Coleciono ideias. Quando chega a altura da sementeira, tenho alguns rebentos, por entre muita coisa que secou.
view#000007 – 19 de novembro de 2019
Os computadores renovam-se. Reinstalar software é gratificante. Porque aqui existe dualidade: o fantasma das nossas vontades a habitar a máquina. As instruções são uma coisa e a máquina outra. É possível escrever código sem ter a máquina. Foi a matemática da antiguidade grega que nos deu os primeiros exemplos conhecidos de programação, instruções sem processador que as executasse. E é possível termos uma máquina sem instruções. Quando surgiram no século XVIII os primeiros teares a usar cartões perfurados era mais evidente a passagem desde o momento anterior. Esta transição continua a intensificar-se, agora que nos dedicamos a tornar todos os objetos inteligentes e ligados.
É francamente agradável abordar assim uma máquina tão essencial. Vesti-la de significado, com roupa genérica, de forma a que pareça nova. Disponível a receber instruções. Nenhum organismo tem esta separação, felizmente. Mas convergimos. Seja pela crueldade curiosa das câmaras de condicionamento atuais, seja pelo apetite científico de inventar controlos remotos para os bichos, padecemos de uma mórbida capacidade de animar monstruosidades.
Estranha e verdadeiramente fértil, para quem escreve sci-fi, é esta crença de que poderemos observar a emergência da consciência em software. Chamam-lhe inteligência e chamam-lhe artificial, a um evento. O que quer que surja, necessitará de novos antagonismos e paradoxos na filosofia e na política. Ainda sofremos a desilusão do Modernismo, passado um século. Como será o pós-singularismo?