Amanhã, o Gerês. A grande rota, garranos e cachenas, água, tudo verde.
A cobertura jornalística dos desacatos provocados por fãs do Maccabi Tel Aviv foi vergonhosa. Fica em causa o papel da imprensa nas nossas democracias. Tem sido desolador ver a força diplomática do país agressor que executa um genocídio de forma impune. Mas ainda assim foi surpreendente ver o spin fez de hooligans vítimas inocentes. E chocante ver como imagens dessas agressões foram usadas para ilustrar mentiras, para contar a história inversa do que aconteceu na realidade.
Aumenta o frio, diminui cintura, multiplicam-se dores, escasseia luz.
Os títulos aqui são números, um mero cardinal cumulativo. Ainda assim, os números não são todos iguais. E lembram-me, os actuais, os anos da minha adolescência. O grunge, a descoberta de que sou bipolar, os verões enormes.
O corpo é uma coleção de mazelas, dorezinhas, lesões antigas, manhas e maleitas. A velhice não vem de repente, acumula-se, chega de mansinho e vai ficando. Há que escutar o corpo, sim, mas por vezes fazer orelhas moucas ajuda.
Invisible Mountain é um dos meus álbuns favoritos. Mas, se pensar nisso, boa parte dos álbuns de Horseback estaria em qualquer lista da música que mais gosto. Este, em particular, consegue activar partes do que sou de forma imediata, terapêutica, misteriosa. Mexe com coisas diferentes, que não sabia poderem dançar juntas. O íntimo é profundo, os ecos do inconsciente atravessam distâncias transformadoras. É como se para a sombra se contaminar inteiramente de luz fosse uma questão de lhe encontrar viagem suficientemente longa para que a natureza da sua escuridão não pudesse ficar incólume.
No segundo livro da série “Wayfarers”, Becky Chambers consegue interessar-me numa sensibilidade que tem algo de cibernético mas é surpreendentemente humano. A maior parte das histórias sobre ou com inteligências artificiais que chegam ao mainstream são aborrecidas. Geralmente pouco mais do que um reflexo directo e insuportavelmente previsível das inquietações do senso comum ou da cultura dominante. Não admira, por isso, que boa parte destas histórias sejam thrillers em que uma inteligência artificial “acordou” e cuja consciência se torna imediatamente um perigo para a sobrevivência da espécie humana.
Já em “A Close and Common Orbit”, seguimos duas timelines, acompanhando as duas personagens principais. Uma começa na infância de uma rapariga humana, a outra passa-se no presente, contada do ponto de vista de uma inteligência artificial. O paralelo é incrivelmente interessante. Na primeira timeline, uma inteligência artificial cria e protege a rapariga humana, como uma mãe digital. Na segunda timeline essa rapariga, agora mulher, ensina uma inteligência artificial a fazer-se passar por humana, é sua amiga e cúmplice.
São especialmente convincentes momentos como aquele em que uma inteligência artificial ensina a rapariga o que é comida sólida, e a estranheza com que a rapariga aprende a mastigar e engolir comida ecoa momentos anteriores no livro. Como um pormenor que nunca tinha visto noutras histórias sobre ou com IA: Sidra, a protagonista inteligência artificial, refere-se ao seu corpo sintético na terceira pessoa, como outra coisa, não parte do eu. Quando a rapariga aprende a ser humana, essa estranheza também é corporal. Num e noutro caso, vemos seres que estão a aprender o que é ter agência, quais os limites da autonomia, e que crescem no corpo que habitam. Está muito bem feito e o livro e meio que li até agora desta autora confirmam-na já como uma das minhas favoritas.
Uma tarde de Verão de São Martinho. Oito quilómetros de surfstake. Três bolas de acaí. Por-do-sol a descer sobre os surfistas. Muito sossego.
Sento-me no metro e só há um terço do banco disponível. O rapaz à minha direita, nos seus vintes, tem as pernas abertas de forma a ocupar o seu lugar e boa parte do meu. Peço-lhe espaço, olho-o nos olhos, ele abana a cabeça como quem percebe, mas praticamente não se mexe. Tenho metade do corpo fora do banco, do lado do corredor. Dirijo-me a ele de novo e peço, “pode dar-me metade do espaço, que tal, metade para si, metade para mim?”, ignora-me. À sua frente está uma rapariga, da mesma idade. Talvez a atitude do rapaz, esta espécie de teimosia territorial, tenha sido espicaçada por uma vontade inconsciente de a impressionar. Mas na altura, há dez minutos atrás, não pensei em nada e reagi numa versão de road rage em transporte público. Toquei no rapaz: empurrei-lhe gentilmente a perna, a demonstrar o lugar dele, apontando com a outra mão para o meio. Não o devia ter feito. Não foi uma agressão, mas foi uma invasão do espaço desta pessoa, mais grave que a sua invasão do meu espaço, porque eu toquei-lhe. Os dois saem na paragem seguinte e eu fico sentado, envergonhado e espantado com a minha reação, convencido de que sou também, como qualquer pessoa, capaz de comportamentos imbecis.