#001978 – 27 de Outubro de 2024
“The universe is far larger in time than it is in space”, diz Sara Imari Walker.
“The universe is far larger in time than it is in space”, diz Sara Imari Walker.
Hoje milhares de pessoas saíram para a rua e exigiram justiça e o fim da violência policial. Esta é uma causa que nos deve unir. A marcação de uma contra-manifestação mostra como há um partido (e vários movimentos políticos, mais ou menos organizados), que apostam precisamente na divisão e no incitamento ao ódio como forma de crescer. Não passarão.
“The Great Bailout”, da Moor Mother, ilustra bem as contradições em que me encontro. Emocionalmente estou em enorme e dorida sintonia com esta música e o peso que a história do racismo nos EUA lhe amplifica. Pouca arte me tem tocado de forma tão direta sobre a condição das pessoas que continuam a ser discriminadas, a sofrer violência racial e que estão muito conscientes da feia continuidade da história do racismo. Sinto essa identificação emocional ainda mais intensa e imediatamente que a solidariedade política que a razão produz em mim. E isso acontece mesmo se discordo da terminologia e se algumas ideias são até contrárias ao caminho que acredito poder mudar as coisas. A frase “the truth won't do you no good” parece algo saído de livros como “White Fragility”, normalizando o racismo e cristalizando a identidade racial branca. Esta música toca-me e liga-me a quem a produz, mesmo se está embebida de alguns dos erros que vejo, já de forma racional, em algum do activismo online. Já o meu lado racional é alimentado, muito bem nutrido aliás, de obras primas como “Racecraft”, das maravilhas irmãs Fields. Poucos livros me iluminaram tanto como esse, mostrando-me que “only the truth can do us good”.
Há algo de muito belo na dissonância emocional que se escuta em “Stone” da PJ Harvey. Com uma intensidade de raiva e quase desespero, canta Harvey: “My heart has turned to stone / What if my heart has gone?”. O tom em que as palavras são cantadas são de quem muito obviamente tem um coração a bater no peito, intensamente.
O álbum “Utp_” é uma obra prima. Junta alva noto, Ryuichi Sakamoto e o Ensemble Modern. Escutá-lo é ser inundado de coisas difíceis de nomear. É ouvir os sons de algo imenso, a ser tocado com a cautela de deuses a procurar evitar um cataclismo. Ou antes, como aos sons dos glaciares, é a revelação do que acontece no atrito íntimo da matéria consigo mesma. Ou o enigma que emerge quando há só realidade, sem interpretação. A beleza toda que o conceito não contém.
A actuação da polícia volta a resultar numa vítima mortal. Online tento entrar em diálogo com a minha gente, os do meu lado político. Mas só encontro trincheira. Não quero combate, não quero guerra, não quero sequer ter razão. Quero que acabe o racismo instituído, os assassinatos à mão da polícia, que os movimentos de extrema-direita não tenham lugar nas forças de segurança pública. Não há nenhuma solução fácil e colocar gasolina na fogueira certamente funciona, mas não para apagar o fogo. Nunca foi tão urgente como agora falarmos de racismo e de como o combater. Mas ninguém quer falar, porque quase toda a gente sente que tem razão e já escolheu o seu lado da trincheira. Não é assim que uma sociedade doente muda. E isto tem mesmo de mudar.
Escuto Katabasis. A sua melancolia outonal funde-se com o sol primaveril que invade o quarto. O nome da banda, Nightosphere, não augura nada de solar. A tristeza é assim: aprecia-se melhor na nitidez com que se dissolve na luz.
Novo álbum de Chat Pile. “Cool World” abana-me os ossos. O sol entra pelo quarto, a música assola-me a alma. Danço, um baile de fim do mundo.
Vejo Self-Portrait as a Coffee-Pot com deleite e parcimónia. Não quero devorar os 9 episódios. Quero que dure este deslumbramento.