#001370 – 05 de Junho de 2023
Na ficção científica passada no futuro distante, há algo que está geralmente ausente. Ninguém lê ou escreve ficção científica.
Na ficção científica passada no futuro distante, há algo que está geralmente ausente. Ninguém lê ou escreve ficção científica.
Pedalo rio tinto abaixo. Pelo Douro sigo até à Foz. A esta hora há muitos ciclistas. Ainda não são nove da manhã e a seguir à Alfândega há quem esteja a sair ou a entrar de uma afterparty. O rio faz-me lembrar a Ria de Aveiro. A maré baixa expõe o lodo, o cheiro do mar começa antes da foz. Há um pescador de calças arregaçadas dentro de água, a tratar do barco. Ainda não há multidões. No molhe norte, junto ao farolim da barra do Douro, há os que buscam uma foto ou tentam apanhar um peixe. Sai um veleiro em direção ao mar. Vou comer açaí. Quero mais manhãs assim.
Hoje considera-se um telefonema muito mais intrusivo que uma mensagem. Há quem considere um telefonema sem pedido de permissão prévio algo a roçar a má educação. Isto faz-me ter muito cuidado para não ferir sensibilidades. Mas na verdade, a minha sensibilidade é de sinal contrário. Um telefonema recebo-o como um bater à minha porta. Eu só abro se quiser. Mas uma mensagem é uma pedra que partiu a janela e aterrou à minha frente com um papel amarrado com algo escrito.
Solidão. Não uma cura, mas um remédio, um remendo do cansaço a que as pessoas algumas vezes me atiram.
Cansaço. Palavra que defino pela inaptidão a que chego quando o contacto com outras pessoas se torna doloroso.