#001301 – 27 de Março de 2023
Primavera, perna lenta, fim de tarde. Sorriso, testa franzida, sol de frente.
Primavera, perna lenta, fim de tarde. Sorriso, testa franzida, sol de frente.
Queda, joelho magoado. Pele e calças rasgadas. Betadine e recomeço.
Quase nove dias da minha vida foram passados em cima da bicicleta, no último ano e meio. Um e meio por cento desse tempo. Quero envelhecer a aumentar o espaço que dou ao meu corpo para se mexer, à minha mente para se centrar. Cada vez mais lento, cada vez mais presente.
Fim de tarde frio, mas primaveril. Descida de bicicleta pelo rio até ao Rio. O sol põe-se a jusante. O meu dia termina finalmente, ou começa.
Haela Ravenna Hunt-Hendrix é uma intelectual fascinante. Líder da banda Liturgy, faz parte de um movimento de “queering of heavy metal”, para usar uma expressão dela. Tal como em projectos como Uboa or Victory Over The Sun, a expressão de género e a transição influenciam a atmosfera criativa da música, da lírica, de tudo o que é estética e ética. Hunt-Hendrix é uma mulher transgénero e percebe-se que Marx é uma influência da sua filosofia. Estes dois elementos biográficos já são incomuns em músicos de Black Metal. Mas mais surpreendente ainda é a sua espiritualidade com muito de hermetismo cristão. O seu Black Metal (como toda a sua música), é luminoso e transcendente. Escutá-la em entrevistas é tocante. Fala devagar, há uma modéstia intelectual à Ursula K. Le Guin, onde não há pinga de humildade falsa, procura ir de encontro ao que o interlocutor conhece. A força e a vulnerabilidade confundem-se na forma como se expressa. E de resto a música de Liturgy tem vindo a crescer enquanto fenómeno de grande fôlego e originalidade. Quando apresentou o seu manifesto “Transcendental Black Metal” em 2010 foi muito mal recebida, com o ódio habitual dos sectores mais misóginos e racistas do Black Metal. As coisas mudaram muito, nos últimos anos. Houve um apropriamento, quase uma invasão do espaço do Black Metal, por parte de anarquistas e marxistas, pessoas queer, afrodescendentes e muitos outros membros de grupos e expressões que muitos fãs conservadores deste subgénero musical sempre desprezaram. Como já disse uma vez em relação a Zeal & Ardor, são estes marginais, tradicionalmente excluídos, que salvaram o Black Metal de si mesmo. Quanto a mim, são muito benvindos, nunca os setores mais extremos do heavy metal foram tão bem frequentados. Venham mais, e muitos.
“Nothing stares back at you like a scrambled puzzle”, Super Antonio Vivaldi.
Juan Tamariz está em palco. Pede a alguém da assistência que telefone a uma pessoa conhecida à sua escolha. Neste momento pousa um baralho de cartas na mesa e não lhe volta a tocar. Diz à pessoa que está com o telemóvel que peça a quem está do outro lado que pense numa carta, mas não a diga em voz alta. A pessoa escolhe. Juan Tamariz, para dar efeito dramático ao truque, afasta-se da mesa. Diz à pessoa que tem o telemóvel que o seu interlocutor pode dizer a carta. É um sete de copas. A vários metros da mesa, Tamariz pede ao membro da assistência que parta o baralho e a seguir vire a primeira carta. É um sete de copas. O que este truque tem de especial é que não se trata de um truque. Nas palavras de Chris Ramsay, é um milagre. Ou seja, foi pura coincidência que a carta virada tenha sido a carta escolhida pela pessoa ao telefone.
Na magia, esta é uma estratégia usada por vezes. Testa-se a sorte, tendo já um “out”, uma saída com uma narrativa diferente, de forma que a assistência nem se apercebe do que aconteceu. Se houver sorte, o efeito é impressionante. Não existindo, o caminho é o normal, sleight of hand, misdirection, forced choice, control, manipulation, ou qualquer outra das muitas ferramentas do close-up. O que o episódio com Juan Tamariz me diz é paradoxal. O enorme efeito no público só acontece porque o público não suspeita que se tratou de pura sorte. O gozo de quem assiste a um truque é o de ver um efeito impossível. Ou seja, é a ideia de que um truque indesvendável, uma manobra, uma habilidade ou um conjunto de habilidades produziu o que para todos os efeitos, do lado de quem observa, é algo impossível. No fundo, é precisamente saber-se que há um truque que torna um momento algo de mágico. Dito de forma paradoxal, é o facto de se saber que não há magia, que torna o efeito mágico.
Levando este raciocínio à sua conclusão lógica, se de facto existisse magia e algumas pessoas pudessem ler pensamentos, adivinhar cartas escolhidas por outras pessoas, fazer desaparecer objectos e coisas do género, toda a profissão do prestidigitador faria pouco sentido. O talento do “mágico” é o de nos enganar. E o prazer de quem assiste é o de não saber o que realmente se passou. De certa forma, é o reverso da paranoia.
Sinto o corpo, depois de três dias a pedalar. A dor residual sabe bem. Lembra-me do título da canção dos Rolo Tomassi: “Party Wounds”
Da Torreira a Ovar, há mais ciclistas na estrada do que automóveis, uma ave de rapina paira, sobrevoa a estrada e pousa num poste. No final dos passadiços da Barrinha de Esmoriz, uma avioneta aterra no aeródromo de Espinho, desce perpendicular ao meu caminho, parece tão perto que está ao alcance da mão. Já em Espinho, tiro uma foto a um graffiti de um velhote pescador, um pescador mais novo atravessa-se à minha frente, o seu sorriso faz-me acreditar que conhece o rosto retratado naquela parede. Depois de 150 kms, deixo-me levar de regresso a casa num comboio que percorre a paisagem, paralelo ao mar.