#001291 – 17 de Março de 2023
A caminho de São Jacinto noto que o sol nasce na ria e põe-se no mar.
A caminho de São Jacinto noto que o sol nasce na ria e põe-se no mar.
Lynn Margulis demonstrou que toda a vida é simbiótica. A própria origem da vida é uma história de simbiose de organismos muito diferentes. Depois, com James Lovelock, ajudou a desenvolver a teoria Gaia. Leio um livro em que junta as duas teorias, Simbiogénese e Gaia. No capítulo de “Symbiotic Planet” em que estou, escreve Margulis que a ideia de salvarmos o planeta não faz sentido. “The planet takes care of us, not we of it.” Diz ainda que temos de nos proteger de nós mesmos. Não consigo conceber nenhum impulso ambientalista que prescinda desta lucidez. O planeta viverá muito depois de já não haver nenhum humano. Se quisermos existir mais tempo e com mais qualidade de vida, temos de nos preocupar com as alterações climáticas e com o impacto humano nos ecossistemas. Não porque somos os anjos da guarda da Terra. Mas porque somos frágeis, muito frágeis.
Chego à Torreira no início da tarde. Pedalei mais de sessenta quilómetros, estou feliz, mais centrado no corpo. Ofereço-me um sossego de músculos cansados, depois de um banho quente.
Cinquenta quilómetros até ao Furadouro. Sabe bem o inverno num local de veraneio. As ruas vazias de pessoas, um silêncio agreste. A maresia soprada pelo vento frio, o som omnipresente do mar, tudo atirado de novo à natureza.
Preparar alforges, decidir o que levar. Treinar o desapego e a autonomia.