#001271 – 25 de Fevereiro de 2023
Surfistas nos Supertubos, prova começa em breve. Aqui, chove muito.
Surfistas nos Supertubos, prova começa em breve. Aqui, chove muito.
HAL, no filme de Kubrick, é a fonte do terror. Em 1968 a ideia de uma máquina ganhar consciência e de ter uma inteligência maligna era pioneira. O que os recentes avanços na massificação de modelos de linguagem sugerem é talvez mais desolador. Este fantasma digital tem menos de criatura de Frankenstein e mais de entropia e caos. Dar a uma “inteligência” artificial o controle de sistemas vitais pode gerar resultados aterradores. Elaine Herzberg foi atropelada mortalmente em 2018 por um carro de teste da Uber cujo software, entre outras coisas, não a reconheceu como um ser humano, porque atravessava a rua fora da passadeira. É fácil de extrapolar o perigo de atribuir a software a gestão de algo mais amplo e que interfere com a sobrevivência de pessoas, como uma nave espacial. 80% dos currículos recebidos pelas empresas americanas são primeiro filtrados por “inteligências” artificiais e só os escolhidos chegam a ser vistos por pessoas. As seguradoras usam algoritmos para decidir, com base em informação muitas vezes obtida sem consentimento, sobre as condições e o preço de seguros de saúde. Os bancos começaram a fazer o mesmo no que toca a empréstimos a particulares. Ao abdicarmos, nós humanos, mais ainda de tomar decisões sobre a nossa vida deixando nas mãos de software o nosso futuro, tudo ganha contornos distópicos. Mais desolador que qualquer thriller, dizia eu, é que na realidade não é preciso consciência, nem inteligência nem maldade, para que um software tenha consequências graves, até mortais, para as pessoas. Deus, dizia Einstein, não joga aos dados. Não porque não seja esse o seu desígnio. Mas porque não existe. Nós é que gostamos de dados. E da ideia de que não podemos decidir nada.
A matemática chega a um tipo de prova que não é intuitiva mas é de infinita utilidade científica. Por vezes consegue-se provar que determinada hipótese é impossível de provar ou de falsificar. Fossem os outros domínios da vida humana assim. Poderíamos abandonar, confiantes, demandas inúteis. Muitas delas feridas civilizacionais.
Nas últimas décadas, escrevia em assomos de fôlego. Ganhava um enorme apego emocional ao texto. E passados meses ou anos, o texto embaraçava-me, feria-me de tão mau, insuficiente e torto. Nos últimos anos, escrevo com dificuldade num processo tortuoso e fatigante. E passados meses ou anos, tendencialmente o texto surpreende-me, diz-me coisas de que não suspeitei. E nem sempre me envergonha.
O sono conforta. A possibilidade do sonho é um abraço que pode gerar beijo ou mordida. Mas nem os sonhos maus são assim tão assustadores. De tudo o que é onírico se acorda. E atirar-me a esse domínio do inconsciente é descansar da estafada tarefa de pensar. É ao adormecer que melhor sabe chorar, enfim. É como dar um sabor agridoce a uma refeição que começa. E deixar que a emoção exerça a sua desenfreada criatividade, sem mandato nem regra.
A minha impaciência é inversamente proporcional à vontade, não, à capacidade de ler. Quando me irritam as palavras num livro, em qualquer livro, já a cabeça está desnorteada.
Choro com facilidade. Tento encontrar-lhe as vantagens. Até pensar nisso me comove. Sou lamechas, choramingão. Adjectivos de onomatopaica degustação, que sabe bem dizer.
Um mês e meio em casa. Um confinamento, a despropósito. Estou cansado, de não me mexer. Estar doente é ter o corpo como o colete de forças da mente.