A viagem desde a Cascata do Arado despenteia-me. Dentro do crânio vão as ideias muito mais desarrumadas. O corpo sente o apego que a memória trata como lastro.
A luz é visível em centenas de arco-íris no fundo da piscina. O vento lembra na pele a doçura do ócio. Sorrimos a partir do rosto até fundo da tarde.
O caminho junto ao rio fazemo-lo no escuro. As rodas livres das bicicletas soam como cigarras. O luar intensifica o brilho escuro do rio.
Cigarras e outros insectos, um sino, o comboio longe. Sons de final da manhã, em Cerveira.
A luz inventa um céu violáceo, que o rio Minho reflecte. A noite é luminosa e escura, fresca e quente, outonal e estival.
Praça de Dom João I. Aqui ao lado, fui assaltado à seringa. Vi o meu primeiro filme de Anime, Ghost in The Shell. E também o primeiro filme realizado por Veit Helmer, Tuvalu. Tirei fotos com uma Nikon barata que depois revelei na faculdade, de pombos a esvoaçar. Patinei onde agora está a decorrer uma manifestação. Este é apenas um pormenor de uma cidade inteira com que me relaciono há cerca de 25 anos. Por todo o lado, no Porto, estou em contacto com a minha vida. A cidade acende-me as memórias. Cresci e vivi longe das minhas origens. Habituei-me a dizer que não sou de lugar nenhum, mudei de país e regressei. Tive sempre pronúncia diferente da pronúncia local. E ainda assim, sinto uma ligação aos lugares em que vivi. Surpreendeu-me este efeito secundário de estar a envelhecer. Não é preciso raízes para me alimentar dos nutrientes do solo que piso.
Há prazer na preparação de uma viagem de bicicleta. Esse cuidado de minúcia e equilíbrio é já viagem. Torna-se evidente o apego, importante a decisão do que vai e fica. Saltam à vista detalhes que outras viagens revelaram. Há quase carinho por esta estrutura metálica, pelos muitos quilómetros que me transportou. Cuidar da bicicleta, carregá-la, é cuidar de uma parte da minha vida, é preparar o movimento, a transição.