Kroeber

#002331 – 16 de Outubro de 2025

Menos de dois meses depois de ter caído um pedaço da A1 perto de Coimbra, passo por lá de carro. Uma cegonha esvoaça uns metros perpendicular ao carro e a seguir vejo vários dos enormes ninhos destas aves. Daí a meia-hora estou a jogar basket com os meus sobrinhos e o meu cunhado. Foram só 25 minutos de dribles e suor, mas ainda assim mais tempo seguido do que em qualquer outra altura nos últimos 35 anos.

#002330 – 15 de Outubro de 2025

As variações de humor são uma oscilação entre realidades paralelas. Neste multiverso o humor é a variável. Num universo sou todo sol e energia, projectos e vontade de viver. Noutro nem me apetece sair da cama. Num outro, revejo, classifico e julgo todos os pressupostos que me reconheço. Noutro ainda sou leve, noutro perigoso, num incapaz e noutro multi-tasking. Há um Nuno em cada um destes universos, todos partilham a mesma biografia. Mas cada um vê os outros como uma ilusão, um erro de perspectiva. Tento que uma semente germine em todos eles: a ideia de que não existe o multiverso de humor, apenas uma mesma pessoa a sentir coisas diferentes. Atiro-me a esta tarefa mesmo sem saber ainda quem é este eu que agora aqui escreve, de fora.

#002329 – 14 de Outubro de 2025

Regresso ao trabalho dentro de 6 dias. Ainda não recuperei completamente da ruptura muscular na perna e do problema com o ombro, mas vou voltar. Além do esforço físico, vai-me custar perder quatro horas por dia (uma hora de sono e três horas em transportes públicos) nos dias em que vou ao escritório. Mas de resto, vai-me fazer bem sair de casa, ter um ritmo e preocupações para além de me recuperar fisicamente. E ter menos tempo diariamente até me dará oportunidade de aprender a geri-lo melhor. Aqui está: é tão fácil regurgitar um discurso positivo, sem estar em sintonia com as palavras debitadas.

#002328 – 13 de Outubro de 2025

É mais difícil adormecer se o dia foi vazio. Talvez, ao sentir que um dia valeu a pena, tenha mais vontade que venha o próximo. Ou reste alguma esperança de que algo salve o dia, uma frase lida, uma palestra no youtube, um parágrafo escrito. A insónia é um sintoma, mas de quê?

#002327 – 12 de Outubro de 2025

A equipa de basket do meu sobrinho, ainda criança, jogou. A outra equipa não tem jogadores suficientes da idade média dos jogadores da equipa do meu sobrinho. Isso significa que mais de metade são do escalão anterior, ou seja, uns dois anos mais novos, em média. Nestas idades, essa diferença é uma montanha inultrapassável. Como sempre nestes torneios, a assistência é composta dos familiares das crianças. Desde o primeiro minuto que noto que atrás de mim estão familiares dos miúdos da equipa adversária da equipa do meu sobrinho. Começam as piadas sobre o desempenho dos seus filhos, netos, sobrinhos. Estas 10, 12 pessoas continuarão o jogo todo assim, a fazer um roast às suas crianças. O roast é em surdina, só é escutado pelos familiares, mas o apoio é sonoro, sempre que há algum esforço dos miúdos. E a bancada quase vem a baixo, quando esta equipa marca os primeiros dois pontos, perdia já a uns 30 a zero. No final os 90-16 mostraram bem a diferença entre as duas equipas. Mas na bancada foram os pais da equipa perdedora que ganharam. Lembrei-me do Ricardo Araújo Pereira, que explica que o humor ajuda a lidar com a morte e outros assuntos pesados. Aqui, não se tratava de um assunto de vida ou morte. O humor também ajuda a lidar com situações menos críticas, como o embaraço. Aqueles pais tinham-se preparado com a arma do humor auto-depreciativo e ganharam, sem dúvida nenhuma. Passaram o embaraço à assistência da equipa adversária, que sentiu desde o início um pudor grande em aplaudir demasiado euforicamente crianças com uma vantagem de idade e tamanho tão notória e até a aplaudir os miúdos da outra equipa pelo esforço.

#002326 – 11 de Outubro de 2026

O Cory Doctorow e o seu entusiasmo por uma internet pós-americana.

#002325 – 10 de Outubro de 2025

Boris Cherny, que criou o Claude Code, compara a revolução tecnológica da inteligência artificial à invenção da imprensa. Explica Cherny que, antes da imprensa, só uma minúscula parte da humanidade sabia ler e escrever. E que provavelmente não haveria Renascença sem a invenção da imprensa, pois só este democratizar massivo da tecnologia da escrita permitiu criar massa crítica para que muitas ideias e tecnologias se desenvolvessem a seguir. Diz Boris Cherny que agora não temos, tal como na altura os que assistiram ao surgir da imprensa não tinham, forma de imaginar que descobertas incríveis aí vêem, com a acessibilidade a ferramentas como o Claude Code e o Cursor, que permitem que qualquer pessoa programe.

Jeremy Howard, que fundou a fast.ai, usa o mesmo exemplo, da invenção da imprensa, para tirar uma lição diferente. Diz ele que é muito perigoso deixar que uma tecnologia poderosa seja centralizada, visto que assim é bem mais fácil que algumas pessoas dela se apoderem, monopolizando as suas capacidades para benefício próprio, com o risco da destruição da civilização. Tal como houve quem quisesse resistir a deixar que a imprensa permitisse o acesso de todos à escrita, diz Howard, agora há quem queira limitar o acesso a estas ferramentas de inteligência artificial e concentrar o poder o mais possível. Jeremy Howard coloca a questão: não sabemos ainda onde esta tecnologia nos vais levar, nem se vai ser tão poderosa como alguns pensam, mas se realmente se revelar assim tão poderosa, será boa ideia deixar que apenas o Trump ou o Musk a controlem?

#002324 – 09 de Outubro de 2025

Pedalo até casa. E reconheço o vestido turquesa. Afinal não é uma rapariga, é uma senhora. Tão bem assentava na descrição a juventude, que me saiu sem hesitação ao referir o quadro da mini-produção para as redes sociais. Só agora ao nos cruzarmos no passadiço é que a idade da pessoa descrita afinal se revelou próxima da minha. Quem sabe que equívocos provoco eu, de enorme barriga a arredondar a camisola amarela, a quem me vê passar e se cruza mais tarde comigo.

#002323 – 08 de Outubro de 2025

O barulho destas duas motas de água é irritante. Passam a subir o Douro a alta velocidade e removem do ambiente da esplanada qualquer sossego. Mas quando estão já longe da vista e dos ouvidos e durante minutos, escuta-se o líquido balanço das ondas que provocaram a bater na margem. Tinha pensado que estas máquinas eram a interrupção do som da água, mas são a sua causa.

#002322 – 07 de Outubro de 2025

No parque oriental uma rapariga de vestido curto turquesa, sentada de pernas cruzadas numa rocha, virada para o rio Tinto, que ali é um riacho. Foi ao passar de bicicleta que uma cintilação para ali me puxou o olhar. Um espelho de maquilhagem, com um pequeno pé e mais apetrechos pousados na rocha, quem sabe para difundir nas redes sociais a beleza de um dia tão primaveril como este vigésimo quarto de Março, mas ainda assim em melancólica solidão. Já no Gramido a solidão adolescente é menos pronunciada, aos pares e trios, alguns de óculos de sol, viram-se para o rio recebendo o sossego que nem os ecrãs perturbam muito. Sou eu, cinquentão, quem aqui pega no telemóvel para escrever isto.