#001057 – 21 de Julho de 2022
Todas as vezes que caí de bicicleta estava sozinho, relativamente seguro e rodava devagar. Foi sempre a confiança a mais numa cabeça distraída que me levou ao chão.
Todas as vezes que caí de bicicleta estava sozinho, relativamente seguro e rodava devagar. Foi sempre a confiança a mais numa cabeça distraída que me levou ao chão.
Hoje caí. Distraí-me enquanto pedalava e fui contra uma rocha. Ao cair finalmente no chão, com espalhafato, dei um berro. Tinha-me magoado, mas o som que me saiu da garganta era o da aflição de poder ter danificado a bicicleta. É um pouco perturbador que isto aconteça assim, de forma automática, de tal forma que pareço mais intensamente protector da saúde da bicicleta que da minha.
Leio muita banda desenhada. Desperdicei demasiado tempo a pensar que havia apenas superheróis e walt disney, Tintim e Astérix. Só na faculdade descobri Neil Gaiman. E a seguir um universo inteiro, inesgotável.
Sonho com uma viagem de Caminha a Sagres. Pedalar uma hora por dia. Regressar de comboio. Viajar durante 3 meses.
É o mesmo comboio da minha juventude. Os mesmos bancos grandes e confortáveis, em que cabem três pessoas, com encosto para cabeça. O tecto muito alto, as janelas que abrem. É o interregional que apanhava em Coimbra para ir até ao Porto, há quase 30 anos. E agora uma das carruagens foi adaptada, cabem 12 bicicletas. Vai do Porto ao Pocinho. Chego a Livracão, as janelas abertas refrescam a carruagem. Sou o único português nesta carruagem quase vazia. Há uma quietude que se dissolveu nas minhas células. Lembro-me das viagens, das conversas que tive neste comboio, num interregional como este. Isto faz ligações difíceis de descrever, entre a pessoa que fui e aquela em que me estou a tornar. Sinto-me grato porque envelheço. E tento fazê-lo devagar, bem devagar.
São 11h30 e mesmo aqui à sombra está muito calor. A senhora do café assiste à missa na televisão. Gastei as minhas últimas moedas para beber um café. O meu cartão multibanco deixou de funcionar, não consigo aceder ao meu banco online, não consegui ligar-lhes. Tenho o bilhete para o comboio, o suor que me refresca. E uma sensação nítida, desde o pensamento até à pele, a que vou chamar felicidade.
Entre Pala e Mosteirô o caminho é muito bonito. Em Porto Manso, alguém pintou em letras urgentes e tortas: Aqui Escreveu Alves Redol.
Um carreiro de formigas a traçar uma diagonal no chão da tenda. Um gordo e colorido gafanhoto no alforge. Uma aranha no capacete. Acordo e está tudo vivo.
No monte o pôr do sol é um milagre. Já a estrela não se vê, o crepúsculo não veio, e ainda o céu é luminoso. O anoitecer vem primeiro à terra, a luz resta no alto, as nuvens coloridas de entardecer.
Um rio é algo de assombroso. Palavra curta, para tão persitente abundância.