Kroeber

#001057 – 21 de Julho de 2022

Todas as vezes que caí de bicicleta estava sozinho, relativamente seguro e rodava devagar. Foi sempre a confiança a mais numa cabeça distraída que me levou ao chão.

#001056 – 20 de Julho de 2022

Hoje caí. Distraí-me enquanto pedalava e fui contra uma rocha. Ao cair finalmente no chão, com espalhafato, dei um berro. Tinha-me magoado, mas o som que me saiu da garganta era o da aflição de poder ter danificado a bicicleta. É um pouco perturbador que isto aconteça assim, de forma automática, de tal forma que pareço mais intensamente protector da saúde da bicicleta que da minha.

#001055 – 19 de Julho de 2022

Leio muita banda desenhada. Desperdicei demasiado tempo a pensar que havia apenas superheróis e walt disney, Tintim e Astérix. Só na faculdade descobri Neil Gaiman. E a seguir um universo inteiro, inesgotável.

#001054 – 18 de Julho de 2022

Sonho com uma viagem de Caminha a Sagres. Pedalar uma hora por dia. Regressar de comboio. Viajar durante 3 meses.

#001053 – 17 de Julho de 2022

É o mesmo comboio da minha juventude. Os mesmos bancos grandes e confortáveis, em que cabem três pessoas, com encosto para cabeça. O tecto muito alto, as janelas que abrem. É o interregional que apanhava em Coimbra para ir até ao Porto, há quase 30 anos. E agora uma das carruagens foi adaptada, cabem 12 bicicletas. Vai do Porto ao Pocinho. Chego a Livracão, as janelas abertas refrescam a carruagem. Sou o único português nesta carruagem quase vazia. Há uma quietude que se dissolveu nas minhas células. Lembro-me das viagens, das conversas que tive neste comboio, num interregional como este. Isto faz ligações difíceis de descrever, entre a pessoa que fui e aquela em que me estou a tornar. Sinto-me grato porque envelheço. E tento fazê-lo devagar, bem devagar.

#001052 – 16 de Julho de 2022

São 11h30 e mesmo aqui à sombra está muito calor. A senhora do café assiste à missa na televisão. Gastei as minhas últimas moedas para beber um café. O meu cartão multibanco deixou de funcionar, não consigo aceder ao meu banco online, não consegui ligar-lhes. Tenho o bilhete para o comboio, o suor que me refresca. E uma sensação nítida, desde o pensamento até à pele, a que vou chamar felicidade.

#001051 – 15 de Julho de 2022

Entre Pala e Mosteirô o caminho é muito bonito. Em Porto Manso, alguém pintou em letras urgentes e tortas: Aqui Escreveu Alves Redol.

#001050 – 14 de Julho de 2022

Um carreiro de formigas a traçar uma diagonal no chão da tenda. Um gordo e colorido gafanhoto no alforge. Uma aranha no capacete. Acordo e está tudo vivo.

#001049 – 13 de Julho de 2022

No monte o pôr do sol é um milagre. Já a estrela não se vê, o crepúsculo não veio, e ainda o céu é luminoso. O anoitecer vem primeiro à terra, a luz resta no alto, as nuvens coloridas de entardecer.

#001048 – 12 de Julho de 2022

Um rio é algo de assombroso. Palavra curta, para tão persitente abundância.