Kroeber

#001047 – 11 de Julho de 2022

O tempo desacelerou até quase parar. Faço a digestão do mundo e do jantar.

#001046 – 10 de Julho de 2022

Uma contrariedade muda o tom do dia. Diz Henry Miller que o melhor é não desejar. As expectativas preparam armadilhas de mau humor. Antes usar a imaginação como máquina de fazer bolhas de sabão. Assim, até quando uma ilusão se dissolve há um pouco de beleza. No vazio que resta, ainda o céu, inteiro.

#001045 – 09 de Julho de 2022

Henry Miller junto à água. Olhos que se fecham. Corpo sonolento, que se dissolve de encontro ao solo.

#001044 – 08 de Julho de 2022

Esta tarde, o vento sacudia a folhagem de duas árvores à minha frente. As folhas que captavam o sol ganhavam um brilho prateado. O vento revelava uma outra dimensão, uma cintilação que percorria a copa das árvores. Este fulgor de prata fazia ondas em escamas subitamente visíveis. Tive a tentação de sair de dentro de água e pegar no telemóvel para filmar uns segundos. Deixei que o tempo corresse e o instante não foi registado. É agora, ao se vincar na minha memória, que o revisito.

#001043 – 07 de Julho de 2022

Já a terminar The Living Mountain, Nan Shepherd explica que primeiro buscou a montanha, não pela montanha, mas pelo efeito que que lhe causava. E revela que com os anos passou a buscar a montanha pela montanha. A pouco mais aspiro, buscar o mundo pelo mundo, receber a realidade porque é a realidade.

#001042 – 06 de Julho de 2022

Passa um iate à minha frente. Estou debaixo de enormes pinheiros, o chão castanho de caruma, uma brisa com aroma a rio e pinho. Penso que este iate, não tendo velas, precisa de combustível. É uma embarcação com alguma pompa, dois andares, proa afiada, todo branco. Mas precisa de combustível. Imagino o iate sem combustível, numa situação imprevista. Não consigo deixar de pensar que sem velas, sem nenhum tipo de propulsão que use a energia imediata da natureza, este iate é bastante vulnerável.

#001041 – 05 de Julho de 2022

No comboio, Nour, Tunisino casado com uma portuguesa. Viajam com os três filhos na linha do Douro, visitando a família do lado português. Temos uma conversa em francês, entre Marco de Canavezes e a próxima estação, Mosteirô. Falei-lhe do meu colega Tarek, Tunisino com quem trabalhei na Grécia. Nour confirma-me o mesmo que o meu colega me tinha transmitido: um orgulho sincero de ser de um país em que muçulmanos, judeus e cristãos convivem pacificamente. Nour diz-me que em Tunes há uma das maiores igrejas de África e que à cidade acorrem judeus em peregrinação. Falamos de como os políticos roubam os recursos das populações e depositam o que roubaram em bancos na Suíça. Foi na Suíça que ele e a esposa se conheceram e é lá que vivem. Antes de eu me levantar para pegar na bicicleta, a esposa de Nour vinha falando com outras pessoas sobre o marido e os filhos, sobre os costumes muçulmanos, o Ramadão, a cultura tunisina. As pessoas sentadas ao seu lado, que tinham o à-vontade de quem a conhecia, iam falando das suas próprias ideias, do que sabiam e do que desconheciam sobre o Islão, dos muçulmanos com que se tinham cruzado na vida. Só muitas horas depois, enquando escrevo, é que olho para isto com alguma distância e bastante gratidão. Sou ateu, mas continuo a acreditar que as diferentes religiões não têm de nos dividir, muito menos as culturas de cada um. Acredito, como Nour, que é sobretudo a política que nos divide.

#001040 – 04 de Julho de 2022

Diz a Nan Shepherd que olhar para flores brancas na erva através de olhos semicerrados revela o fulgor de uma claridade nítida, como se as flores se erguessem do seu fundo. The Living Mountain está cheio de conselhos assim. Por exemplo, como acordar sem nos mexermos, quando dormimos ao relento, porque às vezes um pássaro ou uma corça estão por perto e temos o privilégio de os observar.

#001039 – 03 de Julho de 2022

É fácil de perceber que haja quem se faça à estrada com uma bicicleta e um par de alforges com as coisas mais essenciais. Esta liberdade de se contar com a força das pernas e o fôlego dos pulmões, esta simplicidade, este tempo a desacelerar, tudo reduzido a chão e céu, estas coisas essenciais e sólidas são o que mais me liga a mim mesmo e ao mundo.

#001038 – 02 de Julho de 2022

O rio Bestança, um coro de cigarras. Um silêncio vasto, interior.