view#001037 – 01 de Julho de 2022
O caminho até Cinfães incensado de pinho e caruma, cheiro a floresta, brisa com sabor a verde. O suor a encharcar o corpo que pedala, a tenda e os alforges montados na bicicleta. E depois esta varanda num arraial de cigarras, o verde profundo do Douro em frente, o bacalhau a ser preparado enquanto leio The Living Mountain, da Nan Shepherd.
view#001036 – 30 de Junho de 2022
Vejo Nightflyers pela terceira vez. É uma das séries de ficção científica mais perfeitas de sempre. Os textos originais, de George R. R. Martin, são excelentes. E a adaptação é brilhante. Faz-me pensar no que teria acontecido se Martin não tivesse tido sucesso com o Game of Thrones. A sua ficção científica é de enorme qualidade, não deixa de ser uma pena que não se tenha dedicado mais a essa parte da sua escrita.
view#001035 – 29 de Junho de 2022
Young Gods, Godflesh, White Zombie. Sempre foi mais dançável, para mim, o Heavy Metal que o techno. Rage Against The Machine, Primitive Reason. Seja shoegaze, música industrial pesada, funk e hip-hop reapropriados, até algum groove metal e nu-metal, tratam melhor os meus ossos que uma batida monótona, como o metrónomo opressivo do techno. Mesmo a arritmia de Moonchild ou a loucura de Dillinger Escape Plan, a complexidade do math metal ou do djent mais escandaloso me é mais apetecível. Ritmo, ritmo, ritmo, foi isso que me trouxe o metal. A fúria de dividir o tempo, de o mastigar e cuspir, de o dobrar, estender e expelir em direção ao esqueleto e aos ouvidos.
view#001034 – 28 de Junho de 2022
O Drew Lynch, gago, a contar piadas. Uma mulher coloca uma e depois outra prótese no palco. As duas pernas artificiais ficam assim expostas ao riso de todos. Ninguém tem um olhar mais divertido, mais vitorioso do que a mulher sem pernas. Olha à vez para o embaraço do comediante e para as suas duas próteses. Foi ela que se distanciou de si mesma, da sua condição, separando-se das pernas com que não nasceu. Está à espera que Drew crie humor com a situação, com a estranheza de ter duas próteses no palco, a despropósito. Drew sai-se bem, catalisa o riso de todos. Faz moonwalk com as próteses, pede uma salva de palmas para aquela mulher, que merece inteiramente ser celebrada na sua força. Colocou o que seria uma fraqueza no palco, convidando todos ao riso. Aqui está, vamo-nos agora rir disto. Ninguém derrota esta mulher.
view#001033 – 27 de Junho de 2022
Diz Susskind, em resposta a uma pergunta do público: a arte da física teórica é encontrar problemas suficientemente difíceis de forma a que a sua solução tenha importância, mas que sejam possíveis de resolver.
view#001032 – 26 de Junho de 2022
Anoitece enquanto gravo alguns riffs. Quando tiro os auscultadores, estou no escuro. É neste vazio que surgem estilhaços de criatividade.
view#001031 – 25 de Junho de 2022
Leonard Susskind a falar da gravidade quântica. É gordo e veste uma camisola sintética de desporto. São as únicas coisas que, visivelmente, temos em comum. Escuto a sua Oppenheimer Lecture, ainda há luz e faço a digestão do jantar. Os dias vão-se recusando a diminuir.
view#001030 – 24 de Junho de 2022
Santa Justa, Serra de Valongo, Foz do Sousa, Monte Crasto. A bicicleta inventa itinerários. Os subúrbios do Porto revelam-se à minha lentidão.
view#001029 – 23 de Junho de 2022
Calor a pingar, Sons of Kemet a acordar tudo o que dança em mim.
view#001028 – 22 de Junho de 2022
Já escolhi a nova tatuagem. Mas agora, ao contrário dos últimos anos, custa-me muito a ideia de gastar tanto dinheiro para alterar o meu corpo. O dinheiro que gastaria a cobrir o que falta do braço direito serve-me para muitos quilómetros de bicicleta, para equipamento, viagens e ar puro. Vou continuar a fantasiar com a tatuagem, algo que venho fazendo já nos últimos dois anos. Cheguei mesmo a marcar e a cancelar uma sessão, porque não pude vir a Portugal na altura. Agora que voltei, mudaram prioridades. Ter mais dinheiro do que o que tenho seria ter menos escolhas para fazer. Ou talvez tudo se reconfigurasse e faltasse sempre algo. Sei que mais cedo ou mais tarde vou tatuar aqueles centímetros quadrados de pele. Antes ainda de publicar este texto, procuro novidades da minha tatuadora. Está em Portugal, perto de mim. O desejo é excesso, já diz o Zizek. E o consumo é buraco negro. O corpo, como Cronnenberg lembra a propósito do último filme, é a essência do humano, é tudo: a realidade.