#001027 – 21 de Junho de 2022
Os pinch harmonics do Jaco Pastorius. A φάβα com cebola caramelizada e um fio de azeite da minha mãe. A tenda da Nordisk com a minha bicicleta dentro. A cara vermelha, a barba feita. Cabelo, menos.
Os pinch harmonics do Jaco Pastorius. A φάβα com cebola caramelizada e um fio de azeite da minha mãe. A tenda da Nordisk com a minha bicicleta dentro. A cara vermelha, a barba feita. Cabelo, menos.
Mochilas. Amontoam-se aqui em casa. É o único objecto que tenho em excesso. As vezes que mudei de casa, cidade ou mesmo país ajudaram-me a ter apreço pela bagagem. E de todos tipos de bagagem, a que se leva às costas é a que sugere mais precariedade. Ou mais ligeireza.
Preparo a mochila, a seguir noto que uma parte dos meus ficheiros desapareceu. Levo poucas coisas para acampar. Sinto-me mais ágil e livre, com menos coisas. Noto que me angustia ligeiramente terem desaparecido bits do meu computador. É bem maior o lastro digital.
Os livros são a forma lenta e persistente de transportar o conhecimento humano. Vem um autor e liga ou subverte ideias existentes. Uma nova investigação usa o que existe, nesta rede offline, propondo abolir ou reinterpretar conceitos estabelecidos. Cada livro novo é uma forma de reorganizar tudo o que existe. Mesmo sendo ínfimo, cria ligações e agitação suficientes para mudar ou reforçar algo. É um processo com muita entropia, com tantos momentos de reorganização como de desestruturação.
Esta recente forma algorítmica de lidar com informação é muito diferente deste uso humano, tão antigo como a escrita. Desde logo, é pragmática. Os dados são tratados para obter um resultado pré-definido. Tendencialmente, o resultado é quase a coisa que se conhece com precisão. Um dos exemplos é o de programas que “aprenderam” a reconhecer rostos, tendo sido alimentados de enormes quantidades de resultados e de dados por analisar. O programa “descobriu” forma de pegar dos dados e de os analisar e classificar para chegar aos resultados definidos pelos programadores. Mas os programadores não sabem, em detalhe, que caminho lógico, que detalhes computacionais foram seguidos pelo programa. Esta estratégia é usada em ferramentas que usamos quotidianamente, como o tradutor do Google. As nossas interações alimentam o programa, dando indicações de quão fiáveis são os resultados. Ora, isto tem aplicações práticas interessantes, mas faz pouco sentido vê-lo como o novo passo evolutivo do ser humano. Ou mais especificamente, a forma mais recente de lidarmos com conhecimento. Seria sensato também evitarmos demasiado a lógica de lidar com a tecnologia computacional como com um oráculo.
Descobrir é muitas vezes, tanto para as artes como para a ciência, encontrar o que não se procurava. Só sabendo muito bem o que estamos a fazer e de que forma o fazemos, podemos avançar, desta forma caótica e lenta. Ter um funil apontado a um resultado é um processo muito diferente, e de certa forma, até podemos dizer pouco racional. Os livros permitem descobrir que outras ferramentas existem, para além do funil. Estes métodos algorítmicos podem ser-nos mais úteis se os encararmos como uma ferramenta, entre outras. Recentemente, alguns programas resolveram, por puro poder de computação, alguns problemas matemáticos sem solução há algum tempo. Aquilo a que temos que prestar atenção é que, pelo menos por enquanto, um destes programas não tem capacidade de encontrar um problema. Os problemas são uma formulação humana, fruto da nossa imperfeita cognição e da grande consciência que temos das limitações do nosso entendimento.
Escuto Meshuggah em êxtase. A bateria de Thomas Haake insere-me na vibração da matéria do mundo. Todas as minhas células dançam, numa explosão que se repete fractalmente nos seus primeiros instantes. Escuto e abano o esqueleto. Sou pura felicidade física, emoção, exagero.
Talvez seja isto que me mostra que regressei à cidade. Depois do regional, mudo para o comboio urbano em Nine. Em São Romão, o comboio fica parado uns 15 minutos. A meu lado tinha-se sentado um guna. Entrara há duas paragens, também com uma bicicleta. Ao todo, está sentado no comboio há uns 20 minutos. Fica muito impaciente. Bate com os pés, começa a falar alto. Bate à porta do maquinista. Ameaça desatar aos pontapés à porta.
Em frente a ele, um rapaz, que tinha estado absolutamente tranquilo, abraçado ao seu monociclo, é por ele ameaçado. Durante um ou dois minutos, o guna diz-lhe que se não gosta, que saia do comboio, que vai fazer o barulho que lhe apetece e que ele, o rapaz do monociclo, também devia estar farto daquela brincadeira. O monociclista não chegou a falar. Imagino que o guna não gostou do olhar dele. A mim também me tinha intimidado, quando eu tinha espreitado qual a próxima paragem e o guna estava no meu campo de visão. Talvez tenha pensado que ia olhar para ele, porque se virou para mim muito rápido como para antecipar um olhar de desafio. Isto foi antes do seu espetáculo de impaciência começar, ainda estava o comboio em movimento. Somos um trio bizarro, de um circo disfuncional. Eu, gordo e encharcado, com uma bicicleta com alforges. Um guna enfurecido, com uma bicicleta de montanha, a sapatear com violência no chão do comboio. E o rapaz alto, atraente, que consulta o Instagram, segurando o monociclo entre as pernas, num abraço cheio de descontração e estilo.
Eu mantenho o olhar no chão, o corpo relaxado e quase imóvel. Leio o meu ebook da Hannah Arendt. Recordo-me que o guna também tinha sido um pouco teatral ao se sentar a meu lado, ajeitando a bicicleta com gestos desnecessariamente largos, como se a minha estivesse no caminho, soltando ar entre os lábios de forma ruidosa, como quem se desaponta muito ou é incomodado de repente.
O revisor entra e os insultos sobem de nível. 15 minutos de atraso (o comboio vai partirá quase de seguida, assim que o interregional passa por nós) e agora o guna pôe-se a dizer que a CP é sempre assim, que devia acabar, que a guerra devia aqui chegar e rebentar com tudo. Tento, na minha cabeça, encontrar uma explicação. Que roubou a bicicleta e que estava a contar vendê-la para ter uma dose de heroína rapidamente. Ou que o dia lhe correu muito mal, ou que tinha mesmo que chegar ao Porto rapidamente, por um motivo pessoal. Tudo isto me ajuda a mim, para que me mantenha calmo e não o provoque, nem que seja com um movimento mal interpretado. O meu silêncio e falta de resposta ou conversa é a regra. Ninguém ali se dirige a ele, ou olha para ele. Penso que há uma consciência geral de que uma insignificância poderia desencadear violência da sua parte.
Eu saio umas paragens à frente e ele desvia a bicicleta. É a única vez que olho para ele nos olhos. Agradeço-lhe, talvez com uma voz medrosa. Estou muito cansado depois de pedalar à chuva entre Valença e Caminha e de fazer uns 70 quilómetros em menos de 48h. São 14h30 e ainda não almocei, dormi mal, sinto-me velho e não sou nenhum atleta. Pior: sou uma pessoa muito impaciente. Acho que houve um sério perigo de eu me dirigir a este homem, também eu com uma voz zangada e de descarregar nele o meu cansaço. O esforço físico que fiz durante dois dias tinha-me deixado mais feliz, mas este exercício de contenção durante 25 minutos deixou-me exausto e agitado por dentro. Ainda me lembro de alguns detalhes das suas feições. O guna tinha, no pouco de rosto que a máscara relevava, muitas rugas, um ar de quem envelheceu 20 anos além da sua idade devido à adição. Era magro, tinhas as costas curvadas e parecia já tranquilo, estava calado. O seu gesto de me deixar passar foi automático e creio que gentil.
Escrevo estas linhas com seis dias de atraso. Ou melhor, a data atrasou-se seis dias em relação à realidade. Se em décadas vindouras algum destes últimos textos for lido, terá a data como fator de imprecisão. O Kroeber não produz documentos históricos. Serve-me a mim e talvez em mim se esgote toda a utilidade.
Trinta quilómetros com chuva. Os últimos quatro debaixo de um vendaval. Até a lama que se tinha acumulado foi lavada do quadro da bicicleta e dos alforges. Chego a Caminha a pingar, encharcado e feliz. O sol abriu na altura de apanhar o comboio de volta.
Amanhã, dizem as previsões, vou pedalar à chuva. Mais de 25 kilometros. Estou curioso, irresponsavelmente tranquilo.